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                           Cartoon Henfil        



HenfilAno: 1983 - " Como é que há milênio se neste exato momento nós temos um satélite, maravilha da tecnologia, girando em torno da Terra, que possibilita as comunicações por telefone a distância, o DDI, o DDD; pois bem, vamos pegar um telefone desses, vamos levar esse telefone, como já está sendo levado, como a maravilha da tecnologia, e vamos ao sertão do Piauí e colocamos na boca do sertanejo pra que ele dê testemunho dessa maravilha, dessa tecnologia. O que é que ele vai falar? Ele vai falar: “Socorro!” É pra isso que serve a tecnologia, pra aproximar do primarismo que a gente está vivendo. Então não existe ano 2000, não adianta computador, se ele vai computar quantas pessoas, quantas crianças morrem em mil de fome, de sede, quer dizer, nós não temos água garantida pra todo mundo, apesar de ter água."


Fonte: Obras do Henfil




Graúna - Personagem de HenfilObras do Henfil, além das histórias em quadrinhos

Teatro - A Revista do Henfil (em co-autoria com Oswaldo Mendes)
Cinema - Tanga - Deu no New York Times
Televisão - TV Homem, do programa
TV Mulher, na Rede Globo
Livros - Hiroshima, meu Humor (1976) Diário de um Cucaracha (1983)
Dez em Humor (coletiva, em 1984)
Diretas Já (1984)
Henfil na China (1984)
Fradim de Libertação (1984)
Como se Faz Humor Político (1984)
Cartas da Mãe (1986)


Fonte:  Instituto Henfil de Promoção e Acesso ao Ensino e à Cultura







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Artigos




 


Milton Santos


O meio natural (1)


Quando tudo era meio natural, o homem escolhia da natureza aquelas suas partes ou aspectos considerados fundamentais ao exercício da vida, valorizando, diferentemente, segundo os lugares e as culturas, essas condições naturais que constituíam a base material da existência do grupo.

Esse meio natural generalizado era utilizado pelo homem sem grandes transformações. As técnicas e o trabalho se casavam com as dádivas da natureza, com a qual se relacionavam sem outra mediação.

O que alguns consideram como período pré-técnico exclui uma definição restritiva. As transformações impostas às coisas naturais já eram técnicas, entre as quais a domesticação de plantas e animais aparece como um momento marcante: o homem mudando a Natureza, impondo-lhe leis. A isso também se chama técnica.

Nesse período, os sistemas técnicos não tinham existência autônoma. Sua simbiose com a natureza resultante era total (G. Berger, 1964, p. 231; P. George, 1974, pp. 24 e 26) e podemos dizer, talvez, que o possibilismo da criação mergulhava no determinismo do funcionamento. (2) As motivações de uso eram, sobretudo, locais, ainda que o papel do intercâmbio nas determinações sociais pudesse ser crescente. Assim, a sociedade local era, ao mesmo tempo, criadora das técnicas utilizadas, comandante dos tempos sociais e dos limites de sua utilização.

A harmonia socioespacial assim estabelecida era, desse modo, respeitosa da natureza herdada, no processo de criação de uma nova natureza. Produzindo-a, a sociedade territorial produzia, também, uma série de comportamentos, cuja razão é a preservação e a continuidade do meio de vida. Exemplo disso são, entre outros, o pousio, a rotação de terras, a agricultura itinerante, que constituem, ao mesmo tempo, regras sociais e regras territoriais, tendentes a conciliar o uso e a "conservação" da natureza: para que ela possa ser, outra vez, utilizada.

Esses sistemas técnicos sem objetos técnicos não eram, pois, agressivos, pelo fato de serem indissolúveis em relação à Natureza que, em sua operação, ajudavam a reconstituir.


O meio técnico


O período técnico vê a emergência do espaço mecanizado. Os objetos que formam o meio não são, apenas, objetos culturais; eles são culturais e técnicos, ao mesmo tempo. Quanto ao espaço, o componente material é crescentemente formado do "natural" e do "artificial". Mas o número e a qualidade de artefatos varia. As áreas, os espaços, as regiões, os países passam a se distinguir em função da extensão e da densidade da substituição, neles, dos objetos naturais e dos objetos culturais, por objetos técnicos (3).

Os objetos técnicos, maquínicos, juntam à razão natural sua própria razão, uma lógica instrumental que desafia as lógicas naturais, criando, nos lugares atingidos, mistos ou híbridos conflitivos. Os objetos técnicos e o espaço maquinizado são locus de ações "superiores", graças à sua superposição triunfante às forças naturais. Tais ações são, também, consideradas superiores pela crença de que ao homem atribuem novos poderes — o maior dos quais é a prerrogativa de enfrentar a Natureza, natural ou já socializada, vinda do período anterior, com instrumentos que já não são prolongamento do seu corpo, mas que representam prolongamentos do território, verdadeiras próteses. Utilizando novos materiais e transgredindo a distância, o homem começa a fabricar um tempo novo, no trabalho, no intercâmbio, no lar. Os tempos sociais tendem a se superpor e contrapor aos tempos naturais.

O componente internacional da divisão do trabalho tende a aumentar exponencialmente. Assim, as motivações de uso dos sistemas técnicos são crescentemente estranhas às lógicas locais e, mesmo, nacionais; e a importância da troca na sobrevivência do grupo também cresce. Como o êxito, nesse processo de comércio, depende, em grande parte, da presença de sistemas técnicos eficazes, estes acabam por ser cada vez mais presentes. A razão do comércio, e não a razão da natureza, é que preside à sua instalação. Em outras palavras, sua presença torna-se crescentemente indiferente às condições preexistentes. A poluição e outras ofensas ambientais ainda não tinham esse nome, mas já são largamente notadas — e causticadas — no século XIX, nas grandes cidades inglesas e continentais. E a própria chegada ao campo das estradas de ferro suscita protesto. A reação ant-maquinista, protagonizada pelos diversos ludismos, antecipa a batalha atual dos ambientalistas. Esse era, então, o combate social contra os miasmas urbanos.

O fenômeno, porém, era limitado. Eram poucos os países e regiões em que o progresso técnico podia instalar-se. E, mesmo nestes poucos, os sistemas técnicos vigentes eram geograficamente circunscritos, de modo que tanto seus efeitos estavam longe de ser generalizados, como a visão desses efeitos era, igualmente, limitada.


O meio técnico-científico-informacional

O terceiro período começa praticamente após a segunda guerra mundial e, sua afirmação, incluindo os países de terceiro mundo, vai realmente dar-se nos anos 70. É a fase a que R. Richta (1968) chamou de período técnico-científico, e que se distingue dos anteriores, pelo fato da profunda interação da ciência e da técnica, a tal ponto que certos autores preferem falar de tecnociência para realçar a inseparabilidade atual dos dois conceitos e das duas práticas.

Essa união entre técnica e ciência vai dar-se sob a égide do mercado. E o mercado, graças exatamente à ciência e à técnica, torna-se um mercado global. A idéia de ciência, a idéia de tecnologia e a idéia de mercado global devem ser encaradas conjuntamente e desse modo podem oferecer uma nova interpretação à questão ecológica, já que as mudanças que ocorrem na natureza também se subordinam a essa lógica.

Neste período, os objetos técnicos tendem a ser ao mesmo tempo técnicos e informacionais, já que, graças à extrema intencionalidade de sua produção e de sua localização, eles já surgem como informação; e, na verdade, a energia principal de seu funcionamento é também a informação. Já hoje, quando nos referimos às manifestações geográficas decorrentes dos novos progressos, não é mais de meio técnico que se trata. Estamos diante da produção de algo novo, a que estamos chamando de meio técnico-científico-informacional.

Da mesma forma como participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais), a ciência e a tecnologia, junto com a informação, estão na própria base da produção, da utilização e do funcionamento do espaço e tendem a constituir o seu substrato. Antes, eram apenas as grandes cidades que se apresentavam como o império da técnica, objeto de modificações, supressões, acréscimos, cada vez mais sofisticados e mais carregados de artifício. Esse mundo artificial inclui, hoje, o mundo rural. Segundo G. Dorfles (1976, p. 39), este é marcado pela presença de "materiais plásticos, fertilizantes, colorantes, inexistentes na natureza, e a respeito dos quais, de um ponto de vista organolético, táctil, cromático, temos a nítida sensação de que não pertencem ao mundo natural". Num verbete da Encyclopédie Universalia 1981, dedicado aos camponeses franceses, Bernard Kayser mostra como os seus investimentos em bens de produção — terra, edifícios, máquinas, fertilizantes, pesticidas etc. — passaram, recentemente, de 20 para 50 por cento.

Cria-se um verdadeiro tecnocosmo (J. Prades, 1992, p. 177), uma situação em que a natureza natural, onde ela ainda existe, tende a recuar, às vezes brutalmente. Segundo Ernest Gellner (1989), "a natureza deixou de ser uma parte significativa do nosso meio ambiente". A idéia de um meio artificial, avançada por A. Labriola em 1896 (em seu estudo intitulado "Del Materalismo Storico") faz-se uma evidência. A técnica, produzindo um espaço cada vez mais denso, no dizer de N. Rotenstreich (1985, p. 71), tranforma-se no meio de existência de boa parte da humanidade.

Podemos então falar de uma cientificização e de uma tecnicização da paisagem. Por outro lado, a informação não apenas está presente nas coisas, nos objetos técnicos, que formam o espaço, como ela é necessária à ação realizada sobre essas coisas. A informação é o vetor fundamental do processo social e os territórios são, desse modo, equipados para facilitar a sua circulação. Pode-se falar, como S. Gertel (1993), de inevitabilidade do "nexo informacional".

Os espaços assim requalificados atendem sobretudo aos interesses dos atores hegemônicos da economia, da cultura e da política e são incorporados plenamente às novas correntes mundiais. O meio técnico-científico-informacional é a cara geográfica da globalização.

A diferença, ante as formas anteriores do meio geográfico, vem da lógica global que acaba por se impor a todos os territórios e a cada território como um todo. O espaço "no qual o homem sobrevive há mais de cinqüenta mil anos […] tende a funcionar como uma unidade" (J. Bosque Maurel, 1994, p. 40). Pelo fato de ser técnico-científico-informacional, o meio geográfico tende a ser universal. Mesmo onde se manifesta pontualmente, ele assegura o funcionamento dos processos encadeados a que se está chamando de globalização.

Como em todas as épocas, o novo não é difundido de maneira generalizada e total. Mas os objetos técnico-informacionais conhecem uma difusão mais generalizada e mais rápida do que as precedentes famílias de objetos. Por outro lado, sua presença, ainda que pontual, marca a totalidade do espaço. É por isso que estamos considerando o espaço geográfico do mundo atual como um meio técnico-científico-informacional (Santos, 1985 e 1994).

Quanto mais "tecnicamente" contemporâneos são os objetos, mais eles se subordinam às lógicas globais. Agora, torna-se mais nítida a associação entre objetos modernos e atores hegemônicos. Na realidade, ambos são os responsáveis principais no atual processo de globalização.
Ao mesmo tempo em que aumenta a importância dos capitais fixos (estradas, pontes, silos, terra arada etc.) e dos capitais constantes (maquinário, veículos, sementes especializadas, fertilizantes, pesticidas etc.) aumenta também a necessidade de movimento, crescendo o número e a importância dos fluxos, também financeiros, e dando um relevo especial à vida de relações.

Rompem-se os equilíbrios preexistentes e novos equilíbrios mais fugazes se impõem: do ponto de vista da quantidade e da qualidade da população e do emprego, dos capitais utilizados, das formas de organização, das relações sociais etc. Conseqüência mais estritamente geográfica, diminui a arena da produção, enquanto a respectiva área se amplia. Restringe-se o espaço reservado ao processo direto da produção, enquanto se alarga o espaço das outras instâncias da produção, circulação, distribuição e consumo. Essa redução da área necessária à produção das mesmas quantidades havia sido prevista por Marx, que a esse fenômeno chamou de "redução da arena". Graças aos avanços da biotecnologia, da química, da organização, é possível produzir muito mais, por unidade de tempo e de superfície.

O processo de especialização, criando áreas separadas onde a produção de certos produtos é mais vantajosa, aumenta a necessidade de intercâmbio, que agora se vai dar em espaços mais vastos, fenômeno a que o mesmo Marx intitulou "ampliação da área".

Como se produzem, cada vez mais, valores de troca, a especialização não tarda a ser seguida pela necessidade de mais circulação. O papel desta, na transformação da produção e do espaço, torna-se fundamental. Uma de suas conseqüências é, exatamente, o aprofundamento das especializações produtivas, tendentes a convocar, outra vez, mais circulação.(4) Esse círculo vicioso — ou virtuoso? — depende da fluidez das redes e da flexibilidade dos regulamentos.

As possibilidades, técnicas e organizacionais, de transferir à distância produtos e ordens, faz com que essas especializações produtivas sejam solidárias no nível mundial. Alguns lugares tendem a tornar-se especializados, no campo como na cidade, e essa especialização se deve mais às condições técnicas e sociais que aos recursos naturais. A nova fruticultura no vale médio do rio Negro provoca o que se chamou de big-bang de inversões em Chimpay, na Patagônia norte argentina (Ana M. Correa et al, 1993, p. 6).


O conhecimento como recurso

A expressão meio técnico-científico pode, também, ser tomada em outra acepção talvez mais específica, se levarmos em conta que, nos dias atuais, a técnica e a ciência presentearam o homem com a capacidade de acompanhar o movimento da natureza, graças aos progressos da teledeteção e de outras técnicas de apreensão dos fenômenos que ocorrem na superfície da terra.

As fotografias por satélite retratam a face do planeta em intervalos regulares, permitindo apreciar, de modo ritmado, a evolução das situações e, em muitos casos, até mesmo imaginar a sucessão dos eventos em períodos futuros. Os radares meteorológicos, cada vez mais poderosos e precisos, são colaboradores preciosos nessa tarefa, porque permitem que as previsões se realizem com intervalos ainda menores. Cientistas puros e aplicados valem-se desses instrumentos de acompanhamento e previsão, para aperfeiçoar o conhecimento das leis da natureza física, antever o respectivo comportamento e, de posse dessas preciosas informações, alcançar uma implementação conseqüente das atividades econômicas e sociais. As áreas em que tal instrumentação é disponível podem permitir aos seus usuários um maior grau de certeza e sucesso na realização de operações, sabido que, em muitos casos, na agricultura e na indústria, certas etapas do processo produtivo alcançam maior rentabilidade, quando empreendidas em condições meteorológicas favoráveis. A preparação das terras, a sementeira ou o plantio, a utilização de adubos ou de fungicidas podem ter mais ou menos eficácia segundo as condições de tempo em que são feitas. Tudo isso tende a favorecer os empresários, uma vez que tenham prévio conhecimento das condições meteorológicas em que cada fração do trabalho e cada fração de capital serão utilizadas.

Pode-se, de um modo geral, dizer que as porções do território assim instrumentalizadas oferecem possibilidades mais amplas de êxito que outras zonas igualmente dotadas de um ponto de vista natural, mas que não dispõem desses recursos de conhecimento. Imaginando duas regiões com as mesmas virtualidades físicas, aquela mais bem equipada cientificamente será capaz de oferecer uma melhor relação entre investimento e produto, graças ao uso just-in-time dos recursos materiais e humanos. Numa região desprovida de meios para conhecer, antecipadamente, os movimentos da natureza, a mobilização dos mesmos recursos técnicos, científicos, financeiros e organizacionais obterá uma resposta comparativamente mais medíocre.

Tomemos o exemplo do radar meteorológico da Universidade, em Bauru, no Estado de São Paulo, Brasil, durante muito tempo o único existente no país. Seu raio de ação virtual é de 400 km, mas sua captação de sinais é economicamente eficaz num raio de 300 km. Isto significa que as empresas que se encontram nesse perímetro — e podem, desse modo, beneficiar-se de suas informações —, têm condições de operação muito superiores às daquelas localizadas em outros lugares. As atividades que mais se aproveitam das informações são ligadas à cana-de-açúcar e à laranja (D. Elias, 1996). Tais informações são precisas mas genéricas, cabendo a cada firma ou conjunto de empresas (é o caso das Cooperativas) retrabalhar os dados obtidos, em função de objetivos específicos.

Uma nova dinâmica de diferenciação se instala no território. Em primeiro lugar, distinguem-se zonas servidas pelos meios de conhecimento e áreas desprovidas dessa vantagem. E dentro das próprias áreas "conhecidas" as empresas se distinguirão pela sua maior ou menor capacidade de utilização das informações. É possível imaginar que tal seletividade espacial e socioeconômica conduza a mudanças rápidas na divisão territorial do trabalho, com as firmas mais dotadas do ponto de vista técnico e financeiro tendendo a buscar uma localização onde o lucro potencial será mais forte, deixando o resto do território, ainda que com virtualidades naturais semelhantes, a firmas menos potentes. O mesmo raciocínio conduz a admitir que, numa mesma área assim instrumentalizada, a diferença de oportunidades entre produtores tende a aumentar rápida e brutalmente, após a instalação dos novos recursos técnico-científicos de conhecimento. Aliás, o rearranjo de atividades e do respectivo poder econômico seria duplo: na escala da área instrumentalizada e na da região de que tal área é uma parte privilegiada.

O conhecimento exerceria assim — e fortemente — seu papel de recurso, participando do clássico processo pelo qual, no sistema capitalista, os detentores de recursos competem vantajosamente com os que deles não dispõem.


O espaço nacional da economia internacional

Agora, os atores hegemônicos, armados com uma informação adequada, servem-se de todas as redes e se utilizam de todos os territórios. Eles preferem o espaço reticular, mas sua influência alcança também os espaços banais mais escondidos.

Eis por que os territórios nacionais se transformam num espaço nacional da economia internacional e os sistemas de engenharia mais modernos, criados em cada país, são mais bem utilizados por firmas transnacionais que pela própria sociedade nacional. Em tais condições, a noção de territorialidade é posta em xeque e não falta quem fale em desterritorialização. (O. Ianni, 1992, p. 94; J. L. Margolin, 1991, p. 100) atribuindo-lhe alguns significados extremos, como o da supressão do espaço pelo tempo (Virilio, 1984) ou o da emergência do que chamam "não-lugar" (M. Augé, 1992). (5)

Segundo A. Mamigonian (1994, p. 1), referindo-se aos E.U.A. e à América Latina, a globalização "visa conseguir a abertura indiscriminada dos mercados nacionais e assim a quebra da reserva de mercado, a desindustrialização e a diminuição da soberania […]". Daí, também, a freqüente menção de um espaço sem fronteiras (J. Ellul, 1977, p. 17; Y. Masuda, 1982, p. 90, e a um "capitalismo sem fronteiras" (P. Ciccolella, 1993), onde as empresas multinacionais curto-circuitam os Estados (R. Petrella, 1989, M. C. Andrade, 1994), exercendo o que A. Paviani e N. Pires (1993, pp. 125-136) chamam de "gestão externa dos territórios".

Tal atuação das grandes empresas "por cima dos Estados" permite pensar que "presentemente os mercados estão triunfando sobre as políticas dos governos, enquanto o controle do mercado está sendo apropriado pelas empresas que dispõem das tecnologias de ponta" (Ph. Cooke, 1992, p. 205). A globalização, diz P. Veltz (1993, p. 51), deve ser entendida como "uma gestão global de múltiplas diferenciações territoriais".

Sob esse aspecto, os negócios governam mais que os governos (E. Laszlo, 1992) e, com a globalização da tecnologia e da economia, os Estados aparecem como servos das corporações multinacionais (R. Petrella, 1989). Nessas condições, lembram Warf (1989, p. 265) e C. A. Michalet (1993, p. 19), o Estado não seria mais necessário para gerir as transformações internacionais.
Verifica-se uma verdadeira "erosão da soberania nacional", conforme realçado por H. I. Schiller (1986, pp. 21-34). Acreditar, todavia, que o Estado se tornou desnecessário é um equívoco. Na realidade, a emergência de organizações e firmas multinacionais realça o papel do Estado, tornado mais indispensável do que antes (A. Giddens, 1984, p. 135, H. Silver, 1992; G. Boismenu, 1993, p. 13, Groupe de Lisbonne, 1995).

"Se o capitalismo tem hoje dimensões internacional, multinacional, mundial, ele também não perdeu sua dimensão nacional", diz M. Beaud (1987, p. 50). Segundo Hisrt & Thompson (1992) "não temos uma economia completamente globalizada, mas uma economia internacional, cujas respostas são dadas pelas políticas nacionais". Para Peter Dicken, 1994, pp. 103 e 146, que os cita, "não apenas os Estados ainda são atores importantes, como têm a capacidade de encorajar ou inibir a integração global ou nacionalmente responsável frente aos desígnios das empresas transnacionais".

Assinalando essa passagem de uma economia internacional para uma economia global, Savy & Veltz (1993, p. 5) nos convidam "a repensar a relação entre as entidades territoriais nacionais, as estratégias e as organizações das empresas em via de mundialização". Diversas soluções são aventadas, desde o reforço dos blocos regionais (P. Geiger, 1993, pp. 104-106, M. Arroyo, 1994, P. Ciccolella, 1994) à confederação de estados semi-autônomos (B. Barber, 1992, p. 19). A necessidade de intervenção nos setores estratégicos é evocada, com exemplos, por J. L. Whiteman (1990), a essencialidade do Estado para assegurar o bem-estar social numa época de globalização é lembrada por J. Delcourt (1992) e a inelutabilidade de uma resposta popular internacional prevista por S. Picciotto (1991), o que legitima a imperiosidade da elaboração de um projeto nacional (G. Neves, 1994, p. 275) para cada país que deseje ter algum comando no processo de sua inserção na nova ordem global que se desenha.


Universalidade atual do fenômeno de região

Na mesma vertente pós-moderna que fala de fim do território e de não-lugar, inclui-se, também, a negação da idéia de região, quando, exatamente, nenhum subespaço do Planeta pode escapar ao processo conjunto de globalização e fragmentação, isto é, individualização e regionalização.

No decorrer da história das civilizações, as regiões foram configurando-se por meio de processos orgânicos, expressos através da territorialidade absoluta de um grupo, onde prevaleciam suas características de identidade, exclusividade e limites, devidas à única presença desse grupo, sem outra mediação. A diferença entre áreas se devia a essa relação direta com o entorno. Podemos dizer que, então, a solidariedade característica da região ocorria, quase que exclusivamente, em função dos arranjos locais. Mas a velocidade das transformações mundiais deste século, aceleradas vertiginosamente no após-guerra, fizeram com que a configuração regional do passado desmoronasse.

Da mesma forma, como se diz, hoje, que o tempo apagou o espaço, também se afirma, nas mesmas condições, que a expansão do capital hegemônico em todo o planeta teria eliminado as diferenciações regionais e, até mesmo, proibido de prosseguir pensando que a região existe.

Quanto a nós, ao contrário, pensamos que: em primeiro lugar, o tempo acelerado, acentuando a diferenciação dos eventos, aumenta a diferenciação dos lugares; em segundo lugar, já que o espaço se torna mundial, o ecúmeno se redefine, com a extensão a todo ele do fenômeno de região. As regiões são o suporte e a condição de relações globais que de outra forma não se realizariam. Agora, exatamente, é que não se pode deixar de considerar a região, ainda que a reconheçamos como um espaço de conveniência e mesmo que a chamemos por outro nome.(6)

Acostumamo-nos a uma idéia de região como subespaço longamente elaborado, uma construção estável. Agora, neste mundo globalizado, com a ampliação da divisão internacional do trabalho e o aumento exponencial do intercâmbio, dão-se, paralelamente, uma aceleração do movimento e mudanças mais repetidas, na forma e no conteúdo das regiões. Mas o que faz a região não é a longevidade do edifício, mas a coerência funcional, que a distingue das outras entidades, vizinhas ou não. O fato de ter vida curta não muda a definição do recorte territorial.

As condições atuais fazem com que as regiões se transformem continuamente, legando, portanto, uma menor duração ao edifício regional. Mas isso não suprime a região, apenas ela muda de conteúdo. A espessura do acontecer é aumentada, diante do maior volume de eventos por unidade de espaço e por unidade de tempo. A região continua a existir, mas em um nível de complexidade jamais visto pelo homem.


Notas:

(1) "Os meios naturais são, desde as origens da pré-história e por definição, meios relativamente técnicos: Homo faber. A partir do Paleolítico superior, os trabalhos do homem para defender-se, alimentar-se, alojar-se, vestir-se, decorar seus abrigos ou seus lugares de culto implicam técnicas já complexas. Inversamente, não conhecemos, mesmo nos centros mais urbanizados, meio técnico 'puro', do qual esteja excluída qualquer ação de elementos naturais (se bem que em última instância isto se possa conceber)." G. Friedmann, 1966, p. 186. 

(2) "[…] a natureza não era apenas um quadro fixo, ela era também um regulador constante. As nossas ações se incorporavam rapidamente e tudo se podia experimentar sem grandes riscos, porque os equilíbrios naturais, fracamente modificados pela intervenção do homem, logo retomavam seu papel." G. Berber, 1964, p. 231. 

(3) "A mecanização do espaço técnico é muito mais recente do que a 'mecanização da imagem do mundo', retomando o livro de Dijksterhuis. Ela somente se impôs ao longo dos dois últimos séculos, dos quais ela constitui o traço dominante, nos países ocidentais e no Japão. Ela se tornou um fenômeno planetário. Ela se metamorfoseia de 'geração' em 'geração'. Ela povoa o imaginário coletivo: a ciência-ficção somente imagina o futuro como sendo invadido e saturado por máquinas, às vezes dominado e às vezes aniquilado por elas." J.-P. Séris, 1994, p. 154. 

(4) A esse respeito, P. Geiger (1993, p. 108) refere-se à "[…] divisibilidade das operações e sua dispersão geográfica, conduzindo a maiores especializações […]". A esse respeito, ver, também D. Trinca (1993, p. 199). 

(5) A propósito do tema territorialidade-desterritorialidade, tanto para o caso brasileiro como em geral, ver M. Correia de Andrade (1994), Gervásio Neves (1994), R. Lobato Corrêa (1994), Pedro Geiger (1994) e outros. 

(6) Embora seja difícil estabelecer com precisão o significado da palavra região, é certo que, seja qual for a sua definição, ela está intimamente ligada às formas de produção que vigoram em determinado momento histórico." M. A. Faggin Pereira Leite, 1994, p. 14. 

Fonte: Moderna Literatura





Biografias 






"Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias ao próprio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produção; no dizer de Locke, todas essas «boas coisas» que são «realmente úteis à vida do homem», à «necessidade de subsistir», são «geralmente de curta duração, de tal modo que - se não forem consumidas pelo uso - se deteriorarão e perecerão por si mesmas».

Após breve permanência neste mundo, retomam ao processo natural que as produziu, seja através de absorção no processo vital do animal humano, seja através da decomposição; e, sob a forma que lhes dá o homem, através da qual adquirem um lugar efémero no mundo das coisas feitas pelas mãos do homem, desaparecem mais rapidamente que qualquer outra parcela do mundo."


"Precisamos de nos desfazer do actual preconceito que atribui o desenvolvimento da ciência moderna, vista a sua aplicabilidade, a um desejo pragmático de melhorar as condições da vida humana na terra.

A história mostra claramente que a moderna tecnologia resultou não da evolução daquelas ferramentas que o homem sempre havia inventado para atenuar o labor e de erigir o artifício humano, mas exclusivamente da busca de conhecimento inútil, inteiramente desprovido de senso prático.

Assim, o relógio, um dos primeiros instrumentos modernos não foi inventado para os fins da vida prática, mas exclusivamente para a finalidade altamente «teórica» de realizar certas experiências com a natureza. É certo que esta intervenção, logo que a sua utilidade prática foi percebida, mudou o ritmo e a própria fisionomia da vida humana; mas isto, do ponto de vista dos inventores, foi um mero acidente.

Se tivéssemos de confiar apenas nos chamados instintos práticos do homem, jamais teria havido qualquer tecnologia digna de nota; e, embora as invenções técnicas hoje existentes tragam em si um dado impulso que, provavelmente, gerará melhoras até um certo ponto, é pouco provável que o nosso mundo condicionado à técnica pudesse sobreviver, e muito menos continuar a desenvolver-se, se conseguíssemos convencer-nos de que o homem é, antes de tudo, uma criatura prática."

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'





Outro



Fonte:  Portal Tídia Incubadora Virtual  - Fapesp 







Biografia de E. F. Schumacher Publicado em Agosto 21, 2006 por Clavis Prophetarum

por Nancy Jack Todd, extraído de
People, Land and Community: The Collected E. F. Schumacher Society Lectures
copyright 1997 traduzido com a autorização da “E. F. Schumacer Society”

De acordo com o “The London Times Literary Supplement” de 6 de Outubro de 1995, “Small Is Beautiful” de E. F. Schumacher está classificado entre os cem livros mais influentes publicados desde a Segunda Grande Guerra. A selecção foi feita por um grupo de escritores e académicos que procuravam criar um “Mercado Comum da Mente” para estabelecer uma ponte entre as divisões culturais da Europa do Pós-Guerra. Entre estes nomes encontram-se os de Simone de Beauvoir, André Malraux, Albert Camus, George Orwell, Jean-Paul Sartre, Hannah Arendt, Carl Gustav Jung, e Erik Erikson.

Embora menos académico que muitos dos seus outros trabalhos, Small Is Beautiful: Economics As If People Mattered referiu-se com uma extraordinária precisão a muitos dos principais temas com que lidávamos no final do século. Desde a sua publicação em 1973 que a obra foi traduzida para cerca de 20 línguas diferentes. O economista E. F. Schumacher era um homem alto com uma longa sombra, particularmente no reino das Ideias. À época da sua morte em 1977 ele era classificado como “um profeta resistindo contra a maré” e “um homem que coloca as perguntas certas à sua sociedade e a todas as sociedades num momento crucial da sua História”. Estas afirmações permanencem válidas. Num ambiente de crescente frequência dos “takeover  hostis” nas grandes corporações e no uso crescente do termo “downsizing” que originalmente se referia a reduzir o tamanho de carros e agora se usa e abusa no despedimento de pessoal, neste contexto, a compaixão inerente a “uma Economia como se as pessoas importassem” é cada vez mais atraente.

Oposto ao consumo excessivo de materiais, crescimento sem sentido, dominação pelas grandes empresas, e sistemas económicos de escala mundial, Shumacher estaria satisfeito por ver como as suas ideias, têm ganhado impulso à medida que passam os anos, e criaram um movimento significativo para contraiar a presente dinâmica dominada pelo GATT. O génio particular do pensamento de E. F. Shumacher residiu na sua união do teórico com o prático, englobando a rara combinação de uma epistemologia e um sentido pragmático raros. Ele era também um homem profundamente espiritual e com um forte amor e compreensão pelo mundo natural. Embora seja um nome conhecido na Europa desde o final da Segunda Grande Guerra, foi somente com a publicação americana de “Small is Beautiful” que o seu trabalho foi divulgado nos EUA. No momento da sua morte prematura em 1977 o seu nome era reconhecido através dos Estados Unidos e do Canadá e o professor já se tinha encontrado com um número significativo de figuras conhecidas, incluindo o antigo presidente Carter.

A vida de E. F. Schumacher reflectiu directamente os acontecimentos dos primeiros três quartos do século passado. Ele foi, paradoxalmente, um homem muito dentro e muito para além do seu tempo. Como Lewis Mumfords, ele criticava a aceitação irreflectida da inovação tecnológica mascarada como “progresso”, alertando contra as perdas individuais e locais de autonomia e de qualidade de vida. Schumacher, conhecido como “Fritz” pelos seus amigos, nasceu numa família de tradição académica de Bona, Alemanha, em 1911.

De acordo com a sua filha, Barbara Wood, na sua biografia E. F. Schumacher: His Life and Thought demonstrou ser, desde cedo, um aluno rápido e talentoso, e em 1930 ele seria escolhido para representar a Alemanha em New College, Oxford. Dois anos mais tarde ele faria a sua primeira viagem à América, onde descobriu uma liberdade intelectual que desconhecera até então. Em 1934, contudo, uma ansiedade crescente sobre a ascendência do Nacional Socialismo na Alemanha, fê-lo deixar uma carreira promissora em Nova Iorque e regressar a casa. A situação local confirmou os seus piores receios. Muitas das pessoas que ele mais respeitava, compreensívelmente intimidada, estavam a fechar os olhos aos demónios que os rodeavam. No coração da sua oposição aos nazis estava a sua rejeição à manipulação da Informação e sua flagrante violação da verdade. Com profunda tristeza, em 1936, deixaria a Alemanha com a sua nova esposa e estabeleceu-se em Inglaterra, o país que passaria a considerar com a sua nova pátria. A partir de então, quer directamente, quer indirectamente, ele participou nos acontecimentos do seu tempo. Com outros expatriados alemães ele desesperou com o destino do seu país e da Europa. Assim que a Guerra começou, dominado pelo sentimento anti-nazi, Schumacher, foi transferido para o campo para trabalhar como trabalhador rural. A um dado momento foram-lhe retiradas a mulher e filha e conheceu um internamento de 3 meses num Campo de Detenção, onde fez várias alterações no Campo para melhor o sistema sanitário e a qualidade da comida. Mais tarde ele consideraria este período no Campo como sendo a sua verdadeira universidade. Depois de ter sido libertado do Campo, preocupado com a questão dos pré-requisitos para uma paz duradoura no Europa. Os seus escritos sobre o assunto despertaram a atenção a um número de pessoas proeminentes, e cedo surgiram debates sobre a economia do Pós Guerra. Depois de se tornar um cidadão britânico em 1946, ele foi enviado para a Alemanha como membro da “British Control Commission”.

Na reflexão sobre a reconstrução da indústria alemã, as suas ideias sobre o que era apropriado - uma palavra que seria depois associada consigo - em termos de escala e propriedade começaram a ganhar forma. À medida que estudava a reestruturação da economia alemã, o papel estratégico da energia, o seu pensamento consolidou-se. Ficou igualmente convencido da necessidade da reforma monetária como um meio de prevenir a concentração da riqueza entre um pequeno número às custas da maioria, outro dos legados que continuam muitos vivos no movimento actual para restabelecer as moedas locais.

Nos finais de 1949 Shumacher foi convidado a assumir o papel de conselheiro económico do “National Coal Board” da Grã-Bretanha. Shumacher aceitou o cargo e permaneceu no cargo de “Chief Economic Advisor” durante os vinte anos seguintes. Para acomodar a sua família crescente comprou uma casa com um grande jardim em Surrey. Isto haveria de revelar-se um ponto de viragem para o seu pensamento; ficou fascinado com o jardim e tornou-se um fervoroso adepto da “jardinagem orgânica”.

Observando os processos naturais do seu jardim, Shumacher desenvolveu uma compreensão nova da complexidade inter-relacional dos sistemas vivos. Mais tarde, sobre a Tese Gaia escreveria:

Faz sentido que a Natureza seja um sistema incrivelmente complexo e auto-balanceado no qual o uso do conhecimento parcial pode fazer mais mal do que bem. Tanto quanto posso ver, a agricultura química chegou aos seus limites. Trabalha contra a Natureza em lugar de trabalhar com ela.”

Em Small Is Beautiful escreveria:

“O habitat humano alargado, longe de ser humanizado e enobrecido pelo homem e pelas suas actividades humanas, tornou-se degradante pela fealdade.”

Uma das maiores influências no pensamento de Schumacher foi o trabalho de um economista austríaco pouco conhecido de nome Leopold Kohr. No seu Breakdown of Nations Kohr trata o tema da Escala, atribuindo os males do mundo moderno à grandeza da escala.

Escreve a dado ponto, Kohr:

Se uma sociedade cresce acima do seu tamanho óptimo, os problemas vão eventualmente acabar por ultrapassar o crescimento das faculdades humanas que são necessárias para lidar com eles”.

Shumacher haveria de se referir a Kohr como “um professor de quem aprendi mais do que qualquer outro”.

Shumacher interessou-se pelos sábios Budistas e Taoístas e impressionou-se pela mensagem não-violenta de Mahatma Gandhi.

Em 1955 Shumacher recebeu uma proposta da ONU para trabalhar na Myanmar (então “Birmânia”), tendo ficado fascinado pela cultura local. Impressionado com a capacidade da cultura budista em produzir uma libertação do Materialismo com uma aparente felicidade, reforçou a sua inclinação para olhar para além da abstração económica e escreveria:

“A Economia significa uma certa forma de ordenar a vida de acordo com uma filosofia inerente e implícita em Economia. A ciência económica não assenta sobre os seus próprios pés: ela deriva de uma visão do significado e propósito da vida…”

Profeticamente, acrescentaria ainda:

“Uma civilização construída sobre recursos renováveis, como os produtos da floresta e da agricultura, é apenas por esse facto superior a uma outra construída sobre recursos não-renováveis, como o Petróleo, o Carvão, o Metal, etc. Isto é assim porque a primeira pode resistir ao tempo, e a segunda, não. A primeira coopera com a Natureza, enquanto que a segunda rouba a Natureza. A primeira carrega o símbolo da Vida, enquanto que a segunda carrega o símbolo da Morte.”


Mais tarde, num dos seus ensaios mais conhecidos, defendera uma forma budista de Economia baseada na “Forma de Vida Correcta” do “Nobre Caminho Óctuplo” budista. Fundamental a este novo sistema económico seriam a simplicidade e a não-violência, a importância da Comunidade e a necessidade e dignidade do Trabalho.

Schumacher regressaria de Myanmar convencido que era necessário encontrar uma forma sustentável de Economia como um caminho possível para o Mundo em Desenvolvimento, um “caminho intermédio entre o materialismo irracional e a imobilidade tradicional”.

Shumacher dedicaria o resto da sua vida na busca desta via alternativa.

Shumacher foi igualmente visionário na sua análise do mundo industrial. Em 1958, antes da fundação da OPEP e recebendo muitas críticas dos seus colegas economistas, alertaria a Europa Ocidental para “uma posição de dependência máxima do Petróleo do Médio Oriente… As implicações políticas desta situação era demasiado óbvias para exigir discussão.”

Ainda maior era a sua preocupação sobre os conflitos que podiam desencadear uma Guerra Nuclear. Tornou-se num ardente opositor da Energia Nuclear. À acumulação de grandes quantidades de resíduos tóxicos, declarou:

“È uma transgressão contra a vida, ela própria, uma transgressão infinitamente mais séria que qualquer outro crime jamais prepertado…”


Influenciado pela filosofia não-violenta de Ghandi escreveria ainda:

“Uma forma de vida que esvazia cada vez mais depressa a Terra para se sustentar e acumula um número crescente de problemas cada vez mais insolúveis para as próximas gerações só pode ser chamada de Violenta… A Não-violência deve penetrar em todas as actividades do Homem, se a Humanidade quer estar segura contra uma Guerra de Aniquilação
“.

Em 1961, Schumacher fez a sua primeira exposição na Índia sobre a pobreza flagrante neste subcontinente. Shumacher acreditava que a causa desta pobreza moral e física residia no impacto desmoralizador do Ocidente Industrializado nas cultura tradicionais, até então, auto-suficientes.

O que era necessário, sublinhou, era um nível de tecnologia mais produtivo e eficiente que utilizasse as técnicas tradicionais em áreas rurais, de uma forma mais simples e menos intensiva em termos de Capital que as tecnologias ocidentais.

O conceito de “tecnologia intermédia” começou então a ganhar forma. A ideia de ”Tecnologia Intermédia” foi imediatamente adoptada por um dos seus colegas académicos, um escoçês de nome George McRobie, que seria mais tarde o principal responsável pelo desenvolvimento do conceito.

O primeiro artigo de Shumacher sobre “Tecnologia Intermédia” apareceu no jornal britânico “The Observer” em 1965 e receberia um acolhimento entusiástico. Ele e McRobie responderiam formando um pequeno grupo, auto-financiado que seria conhecido com o ITDG (”Intermediate Technology Development Group”), que trataria de realizar pesquisa sobre o tipo de equipamentos que poderiam ser disponibilizados a agricultores de pequena escala e a artesãos. Rápidamente, o grupo elaborou um “Guia de Compras”.

Era intenção de Schumacher combinar conhecimentos tradicionais e avançados para criar novas tecnologias que respondessem a questão de impacto e escala. O ITDG cresceu rápidamente em resultado do grande interesse que despertou na comunidade e em todo o mundo. A “Tecnologia Intermédia” foi identificada como uma ferramenta inovadora para abordar e resolver os problemas da Pobreza no Mundo.

Schumacher foi reconhecido como uma figura de impacto internacional e tornou-se o embaixador da “Tecnologia Intermédia” por todo o mundo. Schumacher acreditava que era vital que os pobres fossem capazes de se ajudarem a si próprios e que a Tecnologia Intermédia os pudesse a realizar essa necessidade. Viajou por todo o mundo, defendendo as vantagens do seu conceito junto de empresas, em seminários e fábricas.

As tecnologias e estruturas comunitárias por ele antevistas produziriam autonomia material em vez de excesso e seriam uma fonte de Trabalho, o qual ele considerava ser necessário para que alguém atingisse a plena humanidade. De novo profético, nas suas visões, convenceu-se que a afluência de emigrantes ao Ocidente não poderia ser mantida indefinidamente e tentou ensinar o conceito de que a esperança para o fim da Pobreza residia na capacidade dos pobres se declararem independentes da dinâmica corporativa.

Com a publicação de “Small Is Beautiful” em 1973, o estatuto de E. F. Shumacher transformou-o em uma espécie de “guru da Economia”. Realizou várias viagens à América do Norte, onde, especialmente entre os jovens, as suas palavras conheceram grande acolhimento.

A sua mensagem não-violenta de “Tecnologia Intermédia” e “Economias de Escala” foi encarada como aplicável ao Mundo Ocidental assim como às ainda não-industrializadas do planeta.

Schumacher escreveria nesta fase da sua vida:

“As palavras-chave da Economia Violenta são Urbanização, Industrialização, Centralização, Eficiência, Quantidade, Velocidade… O problema de evoluir para uma vida económica não-violenta nos países subdesenvolvidos pode revelar-se idêntico ao de evoluir para esta forma de economia nos países desenvolvidos.”


Schumacher alertou as pessoas para que fossem constantemente observadores e questionadoras sobre aquilo que as rodeava, sem olharem apenas para a Tecnologia e para a Economia. Alertou-nos para a necessidade de observar com a maior honestidade a fundação e escala da civilidade das nossas vidas, a nossa vitalidade, integridade, e riqueza espiritual. Shumacher estava envolvida numa busca de uma vida, raramente assentado numa única resposta mas procurando longamente e diligentemente pelos meios mais inteligentes, adaptáveis e sustentáveis que nos permitissem conduzir as nossas vidas como pessoas e como parcelas da própria Natureza.

A biblioteca pessoal de E. F. Schumacher’s está conservada no Schumacher Center e o seu catálogo pode ser consultado on-line.


Fonte:  http://www.schumachersociety.org/about/biographies/schumacher_full_bio.html







Conceitos





1 -  Conceito de Tecnologia



Por  Vinício Carrilho Martinez


O objetivo do texto é apresentar um verbete inicial, mas que aborde algumas faces ou fases da tecnologia e que esteja de acordo com o emprego que o conceito vem sofrendo mais usualmente. O texto está dividido em três partes:

1ª -  Conceito e história;

2ª -  Um caso de poder: o caso da técnica jurídica;

 -  Uma crítica inicial necessária.


De modo simples e direto, por tecnologia pode-se definir o conjunto complexo de técnicas, artes e ofícios (techné) capazes de modificar/transformar o ambiente natural, social e humano (cognitivo), em novas realidades construídas artificialmente. De acordo com este pressuposto, e como bem sabiam os gregos clássicos, a técnica (Techné) não é boa, nem má, nem neutra – mas política.
Portanto, para o bem e para o mal, a tecnologia é parte desse processo de descoberta humana, do seu ambiente natural e/ou social, mas também é a arte de modificar seus usos (abusos) e a si mesma, bem como ainda trata do ofício de transformar o mundo natural em sua casa, em um hábitat artificial. Assim, uma leitura apropriada da tecnologia e da arte técnica é entendê-la como “ecologia da técnica”. Esta Ecologia Tecnológica é que deveria se ocupar da análise especulativa e crítica dos usos/abusos dos meios, instrumentos, artes e ofícios, empregados ao longo da relação espaço-temporal. Além de investigar os materiais e as condições em que foram utilizados pelas inúmeras sociedades humanas (com mais ou menos intensidade depreciativa) a fim de transformar a realidade natural-original em nossa casa artificial permanente.


1ª Parte

Conceito e História


Na interpretação que propomos, devemos entender que a tecnologia é o “estado da arte” da técnica - e assim não está adstrita ao curso estritamente capitalista. Como tem a terminação logos, (tecno)logia será conhecimento, interpretação, aplicação e/ou estudo da técnica e das suas variáveis, enquanto aplicação e aplicativo, ao longo da história e em determinada sociedade. A tecnologia também pode ser entendida como o conhecimento técnico acumulado, a capacidade ou a arte necessárias para projetar, investigar, produzir, refinar, reutilizar/re-empregar técnicas, artefatos, ferramentas, utensílios, equipamentos (e conhecimentos técnicos elaborados), novos e antigos, com a mesma finalidade (mas com maior resultado) ou outros usos diferentes (até inesperados), mas sobretudo que sejam capazes de criar, transformar e modificar materiais, recursos, insumos ou a natureza como um todo, o entorno social e o próprio homem, em virtude do engendramento de novas ações, aportes, suportes, especialmente se resultarem em modificações de todos os envolvidos (base técnica e relações humanas) pelos novos usos e utilidades.
Vejamos o sentido dado por Espinas, considerado um dos pioneiros na análise terminológica da tecnologia — um sentido aproximado, mas também divergente deste que já esboçamos:

Estudo dos procedimentos técnicos, naquilo que eles têm de geral e nas suas relações com o desenvolvimento da civilização. “A tecnologia compreende três espécies de problemas, resultante de três pontos de vista sob os quais as técnicas podem ser encaradas:

 Primeiro é preciso proceder à descrição analítica das artes, tais como elas existem num momento dado numa sociedade dada...

Em segundo lugar, é preciso procurar saber sob que condições, em virtude de que leis , cada grupo de regras entra em jogo, a que causas devem a sua eficácia prática...

Em terceiro lugar, tem lugar um estudo do devir desses mesmos órgãos, quer ele incida sobre o nascimento, o apogeu e o declínio de cada um deles numa sociedade dada, quer incida sobre a evolução de toda a série das técnicas na humanidade...

O conjunto destes três estudos forma a Tecnologia geral.” A. ESPINAS, “As origens da tecnologia”, Revue philosophique, 1890, II, 115-116 (Lalande, 1999, p. 1111).

É interessante notar que mesmo uma definição clássica, mas atual e especializada não destoa muito da que apresentamos acima. Aqui a tecnologia é tida como um conjunto de conhecimentos e de práticas resultantes, da mesma forma como vemos em dicionários de informática: “(1) Estudo e aplicação de técnicas e procedimentos relacionados a um determinado ramo de atividade [...] (2) Ciência que quantifica o desenvolvimento nos estudos de outras ciências, tais como a química, física etc” (Sawaya, 1999, p. 464).

Comparativamente, é como se disséssemos que Espinas já era um autor moderno e pensava a tecnologia moderna. Assim, a tecnologia seria um conjunto complexo formado pelas artes e ofícios, interligados pelo conhecimento (saber) e pelo “saber-fazer”. Porém, para avançar e aprofundar as discussões, é preciso saber o que é a técnica.


Da Techné à Técnica Moderna


O senso comum diz que tecnologia é sinônimo de técnica, mas preferimos guardar as diferenças mais substanciais, inclusive de grandeza e de alcance. Em termos gerais, a técnica pode ser vista como um conjunto de procedimentos regidos por regras e provido de eficácia (ou ao menos uma perspectiva de resultados). Por extensão, tecnologia seria um conjunto complexo de técnicas, artes e ofícios.

Neste sentido, poderiam ser chamadas de técnicas racionais, pois poderiam corrigir o curso da ação (revisão técnica), os sistemas a que se aplicam e a si mesmas, constituindo-se em técnicas auto-corrigíveis. De outro modo, há técnicas mágicas ou religiosas: estas seriam técnicas baseadas em crenças.

Para os gregos clássicos, técnica era um conjunto amplo — pode-se dizer que no Mito de Prometeu a descoberta, o conhecimento, o saber necessário ao domínio do fogo e seu emprego na manufatura de ferramentas , tem o mesmo sentido dado por nós atualmente às mais fantásticas descobertas científicas e tecnológicas.

De modo mais preciso, no entanto, dizemos que os gregos definiam techné como arte e ofício: “Pela boca de Sócrates, Platão se refere com muita freqüência à techné. Segundo Aristóteles, a techné é superior à experiência, mas inferior ao raciocínio (no sentido de um “puro pensar”, mesmo que o pensar também requeira regras)” (Mora, 2001, p. 2821). Mas a techné era tida por inferior ao raciocínio porque o exercício elaborado da razão (pensamento crítico e técnico), aplicado ao “saber-fazer algo”, é justamente o que aqui chamamos de tecnologia: a razão aplicada à técnica, enquanto arte e ofício. Nestes moldes, a técnica também será um “estado da arte”.

A distinção entre técnica e arte é escassa quando o que hoje chamamos “técnica” está pouco desenvolvida. Os gregos usavam o termo (frequentemente traduzido por ars, “arte”, e que é raiz etimológica de “técnica”), para designar uma habilidade mediante a qual se faz algo (geralmente, transforma-se uma realidade natural em uma realidade “artificial”). A techné não é, contudo, uma habilidade qualquer, porque segue certas regras. Por isso techné significa também “ofício”. Em geral, techné é toda série de regras por meio das quais se consegue algo (Mora, 2001, p. 2820).

Na Idade Moderna, ganharam destaque as técnicas mecânicas e incorporaram-se outras concepções técnicas (o como, o “saber-fazer”, o método aplicado) ao saber (agora como ciência). Nessa época, chegou-se a considerar que “o saber é fundamentalmente técnico”. Como aplicação, podemos dizer que a tecnologia (como conjunto complexo de técnicas, artes, ofícios e saberes elaborados e/ou aplicados) é um trabalho exercido sobre a natureza e sobre os homens. Assim, seguindo-se a antropologia da técnica (para o passado e presente) e a epistemologia da tecnologia (para o presente e futuro), teríamos que: A tecnologia é a arte que transforma o mundo natural em realidades artificiais.

Hoje, no entanto, após tantos desvios dos maus usos, é lícito dizer que ainda precisamos elaborar o mapa conceitual que deve cercar esse mesmo conjunto complexo da técnica e da tecnologia, bem como da ciência: “Entre esses conceitos podem ser incluídos os de trabalho, aplicação, transformação e eficiência ou rendimento” (Mora, 2001, p. 2821).

É correto dizer das “técnicas cirúrgicas”, dos “métodos e das técnicas de pesquisa” (Ciências Sociais) e das “técnicas da investigação policial” ou das “técnicas do jornalismo”. Porém, para a análise deste texto, preferimos abordar duas “modalidades técnicas” que são muito mais amplas e de interesse difuso e coletivo:

1. As técnicas jurídicas, no que se referem ao papel do Estado-Legislador;

2. A tecnocracia, quando a técnica é aliada da política e a subjuga, destacando-se o meio (burocracia) acima de qualquer finalidade (ou teleologia política do próprio Estado): há uma burocratização da política.

Portanto, a tecnocracia, como “poder dos técnicos”, faz-nos pensar a tecnologia a partir da incorporação da ideologia à “base material-técnica” existente: “idolatria tecnológica”. Daí que, de acordo com esta visão, tende a predominar apenas a “perspectiva benigna da tecnologia” (tecnocrática), como se não houvesse “tecnologias más”, como as desenvolvidas e aplicadas unicamente nos atos de guerra.



2ª Parte

Um caso de poder: O Caso da técnica jurídica


Nesta segunda parte do verbete, veremos dois usos bastante técnicos ou precisos da terminologia:


1 - “A técnica jurídica”;

2 - “O poder dos técnicos”.



Primeiro Caso

Técnica ou Dominação Jurídica


A técnica jurídica procura a subsunção, isto é, a abstração do caso (ou feito) real, concreto para que possa ser confrontado, tratado e absorvido pela norma jurídica abstrata. Este procedimento seria visto como conjunto de operações ordenadas a um sistema e basicamente seriam: análise jurídica; concentração lógica; construção jurídica. O Conceito é basicamente moderno: “A elaboração da noção é, historicamente, vinculada à formulação ideológica do direito formal moderno” (Arnaud, 1999, p. 778). O objetivo da técnica jurídica seria a construção jurídica. Assim, a forma estaria anteposta à matéria, a disciplinarização viria antes do próprio direito — a forma da regra viria antes do seu conteúdo.

Os meios e os instrumentos práticos desse tipo de técnica jurídica seriam o formalismo e a publicidade e suas categorias estariam pautadas pela construção jurídica, ficção jurídica (a norma é sempre abstrata), presunção e linguagem jurídica (incluem-se os brocardos). Aliás, a linguagem técnica e especializada torna seu acesso e compreensão permitida apenas aos iniciados e doutos, segmentando-se e afastando-se o povo da livre consulta e da interpretação jurídica. Uma outra forma de se compreender a técnica jurídica, mais ampla ou sociológica, destaca a “técnica social ou política”, “toda a ordem ou a dinâmica social que fornecem a matéria e o conteúdo latente (vivo) das regras”.

Mas o que prevalece é a visão anterior, ou seja, de que o sistema jurídico é lógico e determinado por regras internas e rígidas. Portanto, se bem aplicadas tais técnicas e métodos, desde o início do processamento legislativo do direito, então, em tese, o sistema jurídico e o ordenamento jurídico não deveriam conter nenhum tipo de incoerência e/ou contradição. Neste caso, as contradições sociais (originadas das lutas de classes) é que se encontram subsumidas na intenção ficcional do direito. Por este prisma, o direito seria isento de valores contraditórios, bem como não expressaria nenhum desses valores, pois que seria capaz de inibir a ação dos lobbies, por exemplo.

Como técnica jurídica, o direito seria imparcial, independente, racional, legítimo: como direito soberano, superior e não-subordinado. Seria um sistema perito (administrado por peritos e do qual só espera a perícia e a eficiência: aeroportos, sistema legal, cirurgia médica) que não falha ou que almeja a perfeição técnica, a maior eficiência possível. Daí que o direito surge como um convincente e poderoso sistema de dominação e de poder. De modo mais preciso, poderíamos definir o direito como “técnica de manutenção do status quo (coerção) e de legitimação do poder estabelecido (ideologia)”. Desse modo, tenta-se transferir a soberania do Estado para a lei.

Porém, no cotidiano ou a partir do próprio processo de fabricação do direito (Poder Legislativo), vemos perfeitamente como “o direito não corresponde a técnicas de precisão e que, portanto, não obedece a pressupostos lógicos”, mas sim sociais, políticos, econômicos, culturais (até mesmo de certos costumes ).


Segundo Caso

Tecnocracia ou Técnicas de Poder


Como expressão empregada desde os anos 1930, tecnocracia designou primeiro os agentes e atores das áreas mais conhecidas por ciências exatas (químico-físicas). Com o tempo passou a englobar novos “sujeitos e profissionais”, mais diversificadamente: engenheiros, economistas, burocratas do Estado, conselheiros científicos, autoridades, especialistas, diretores e cibernéticos. De qualquer modo, esta categorização mais ampla ajuda-nos a compreender o fenômeno como verdadeiro poder dos técnicos.

Sob certo aspecto, a filosofia política já havia se debruçado sobre o tema: “O mesmo se diga da Nova Atlântida de Francis Bacon, descrita como uma enorme instituição de pesquisa científica, onde grupos de especialistas dos vários ramos do saber trabalhavam para ampliar o domínio do homem sobre a natureza” (Bobbio, p. 1233).

Para Bacon, de fato, deve haver certa reificação ou peracionalização técnica, esquemática da ciência, com vistas a uma produção verdadeiramente técnica, concreta e não só teórica, especulativa a partir do próprio agir científico.

Portanto, postando-se distante do pensamento grego da techné, Bacon será mais taxativo quando se referir ao trabalho da ciência e da tecnologia.

A ciência nos deixa diante de suas “colunas fatais”, que precisamos absolutamente transpor para descobrir este mundo, para nos aventurarmos nele: colunas de Hércules para os navegadores novos que têm a ousadia de passar além dos limites manifestados como definitivos. Esses limites — afirma Bacon — não passam de limites de uma ciência errante, uma ciência especulativa que gira em torno de si mesma em constante verbigeração.

Basta prestar atenção à invenção nas artes técnicas: bússola, pólvora, instrumentos óticos. Essas descobertas permitem esperar outras, desde que disso encarreguemos a matéria através de uma ciência voltada para o concreto, uma ciência operante, ativa (Huisman, 2001, pp. 106-107).

Seguem-se outras definições contemporâneas e usuais de tecnocracia, em que se assegura o poder técnico em detrimento do poder social e/ou político; como se a definição tecnocrática fosse ela mesma isenta de valores e de intenções — como poder técnico que deve servir a todos sem qualquer tipo de distinção ou segregação.

Um importante pressuposto da tecnocracia [...] é a existência de um fenômeno chamado conhecimento “objetivo”, o qual pode ser apreendido e aplicado diretamente a problemas sociais e econômicos, assim como técnicos, e a capacidade dos tecnocratas de combinar esse conhecimento com as aptidões organizacionais e gerenciais, o que faz deles as pessoas em quem mais se pode confiar para realizar e manter esse tipo de organização social. No plano organizacional, ignora as sérias e constantes tensões entre subordinados e dirigentes, entre funcionários com conhecimentos gerais e especialistas, que é possível encontrar em todas as estruturas burocráticas estabelecidas, seja em sociedades supostamente “capitalistas” ou “socialistas”, ou em organizações do setor público ou privado (Outhwaite, 1996, p. 758).

É curioso ver que também se associa esse domínio técnico ao chamado império da lei — Estado de Direito —, como se a tecnocracia fosse parte legítima da chamada dominação racional-legal, proposta pelo sociólogo Max Weber.

A tecnocracia (e os que endossam seus objetivos e métodos) tende também a minimizar ou ignorar as conseqüências de tal pensamento – e a prática que se presume resultar dele – para os interesses legítimos acerca da responsabilidade de funcionários não eleitos em face dos eleitos, e da responsabilidade de funcionários para com os seus eleitores nas democracias representativas que funcionam sob o império da lei. O que decorre com excessiva freqüência dos pressupostos e preferências tecnocráticos é a noção de que os problemas políticos são realmente de natureza administrativa e gerencial, ou que idealmente deveriam ser reduzidos a isso a fim de manter a continuidade e resistir às tendências “desestabilizadoras” ocasionadas pelos partidos políticos, pelas campanhas e pelas eleições. Os tecnocratas preferem infrequentes eleições plebiscitárias caracterizadas por curtas campanhas em que pelo menos uma outra equipe esteja a postos para assumir as posições simbólicas associadas ao governo democrático na eventualidade de um grupo de políticos existente ser derrotado. A ordem social é compreendida, no caso ideal, como uma máquina (ou “sistema”) que pode operar de várias maneiras, desde a máxima eficiência em um extremo até a crassa ineficiência no outro. Além disso, é uma maquina (ou sistema) que, uma vez estabelecida de acordo com os critérios preferidos, só vai requerendo, ao que presume, pequenos ajustes graduais para se manter (Outhwaite, 1996, p. 758).

Aqui, a tecnocracia atua como se fora uma máquina de produzir e de gerir poder, como se o “domínio técnico”, em si mesmo, fosse portador de virtudes imprescindíveis (ou de virtú, seguindo Maquiavel). Porém, é justamente dessa visão totalmente distorcida, substancialmente ideológica, que decorre a crítica de que “a política é a engenharia do mal”.

Sob o sentido expresso, a tecnocracia é tida ora como categoria profissional, ora como refinamento do saber, ora simplesmente como classe social de interesses bem definidos, e que mantém com o Estado a mesma relação de sujeição e de posse das classes possuidoras tradicionais ou clássicas.
Resta-nos dizer, por fim, que os dois exemplos, técnica jurídica e tecnocracia, foram adotados para facilitar uma leitura que fosse mais crítica acerca do próprio processo tecnológico, tendo-se em vista que é crescente o uso cada vez mais restritivo, especializado, limitado, dicotomizado do saber e dos métodos e das técnicas em favor, exclusivamente, do aumento da eficiência tecnológica e do incremento da produção na ordem capitalista.

Sob esta análise mais precisa da técnica jurídica e da tecnocracia, pudemos ver como a técnica não é neutra, sendo antes de tudo política, ou seja, intencional, datada pelos inúmeros interesses vigentes à sua época: sociais, econômicos e culturais preponderantes.

No entanto, como bem sabemos hoje em dia, a técnica conheceu inesgotáveis desvarios aplicados à guerra, ao lucro insano, à dominação tecnológica (tecnocracia), além de alimentar uma imensa indústria de degradação ambiental e de massificação (tecnicismo). Isto nos leva a formular algum nível de crítica a essas observações mais regimentais das técnicas e da tecnologia.
Por fim, passemos à crítica necessária e mais contundente.


3ª Parte

Uma Crìtica Inicial Necessária


Em virtude dos abusos tecnicistas, é preciso pelo menos indicar os perigos reais advindos do desenvolvimento tecnológico, sobretudo a partir do século XIX e da massiva industrialização, no século XX:

exploração intensa dos recursos naturais, acima dos limites de seu restabelecimento natural, portanto o empobrecimento rápido e progressivo desses recursos;

poluição da água e do ar por dejetos industriais, com a multiplicação dos meios mecânicos de transporte e com a maior densidade demográfica;

destruição da paisagem natural e dos monumentos históricos e artísticos, em decorrência da multiplicação das indústrias e da expansão indiscriminada dos centros urbanos;

sujeição do trabalho humano às exigências da automação, que tende a transformar o homem em acessório da máquina ;

incapacidade da T. de atender às necessidades estéticas, afetivas e morais do homem; portanto, sua tendência a favorecer ou determinar o isolamento e a incomunicabilidade dos indivíduos (Abbagnano, 2000, p. 941).

Neste viés bastante utilitário, capitalista, de resultados práticos diretos e imediatos, as técnicas e a tecnologia ainda se relacionam a certo conjunto de procedimentos específicos, definidos e transmissíveis (como mero Know How ou ofício: “arte de saber-fazer”) e, portanto, passam a ser considerados a partir dos resultados que possam ser produzidos (a tecnologia, neste caso, seria apenas fim e não meio). É evidente o sentido utilitário, prático, pragmático que se espera do emprego de certas habilidades e destrezas (técnica prática e não especulativa). E é ainda mais curioso que se espera isso tanto do marceneiro, quanto do médico e do político — certamente que há muito de intuição (nem todas são técnicas exatas), mas há muito mais razão.

O controle sobre os perigos reais do mau uso ou do uso excessivo das técnicas e das tecnologias, e sua reversão em razão do bem público, está na atribuição de responsabilidades sociais, no maior envolvimento e na participação popular , na menor sujeição da tecnologia ao capital , bem como exigiria mudanças nos métodos (como fazer) e não só no foco. Assim, por exemplo, é de se esperar que se desenvolva a dúvida metódica, a criatividade, a serendipidade, o trabalho imaterial, a inteligência coletiva (General Intelect, em Marx), o trabalho vivo, a investigação social, e que a crítica se dirija a todo processo.

A seu modo, Rousseau já nos advertia em seu Discurso sobre as ciências e as artes (1750) para atuarmos contra a predominância dessa sabedoria academicista (livresca) ou, como diria a crítica marxista posterior, contra a separação total entre as atividades do trabalho manual e do trabalho intelectual (alienação).

As espécies de virtude humana que ele louva requerem um adequado entendimento das relações humanas e das necessidades da sociedade. A hostilidade dele é contra a elaboração da investigação erudita de molde a convertê-la numa arte refinada que só serve para satisfazer a vaidade dos seus praticantes. Talvez não estivesse totalmente errado ao vislumbrar isso como o destino que pode estar reservado, mais dia menos dia, ao trabalho acadêmico (Dent, 1996, p. 112).

Na concepção da crítica marxista, pode-se dizer que a tecnologia desenvolve um papel essencial, preponderante no longo processo de hominização e que, assim, a história da tecnologia aparece associada ao desenvolvimento dos modos de produção e à maneira como o homem se apropria da natureza a partir das relações sociais predominantes e do aporte do seu trabalho. Portanto, o trabalho que modifica o homem e a natureza também produzem novas tecnologias capazes de transformar as relações sociais e o processo produtivo. Por isso, ainda se diz que a tecnologia transforma os meios de produção e as relações sociais de produção.

Seria possível dizer que o marxismo é a teoria e a prática socialistas de sociedades especificamente tecnológicas. Ou seja, se o trabalho humano que transforma a natureza tendo em vista objetivos coletivos humanos é de importância fundamental para a concepção marxista de PRÁXIS, a tecnologia é o produto: artefatos que encerram valor e têm valor de uso [...] De acordo com esse modelo, a história da manufatura — tanto dos processos como dos produtos — é a história das relações de classe. Esta, segundo Marx, é a verdadeira natureza antropológica, a natureza transformada pela indústria humana [...] A revolução capitalista, a transformação da manufatura em produção mecanizada [...] na revolução industrial, e posteriormente o taylorismo, o fordismo, a automação e a robótica são considerados como a história da tecnologia na esfera produtiva [...] As atividades humanas foram sempre mediadas pelas tecnologias, e isso acontece cada vez mais na vida doméstica e na cultura (Bottomore, 2001, p. 371).

Portanto, para fugir da alienação, da fantasia, do deslumbramento tecnológico é preciso ver que — quer seja uma máquina mais simples, quer seja uma outra mais sofisticada (não importa) —, trata-se da aplicação racional de certas potencialidades e técnicas humanas. A chamada consciência maquínica, então, é esta percepção consciente, racional do amplo desenvolvimento técnico e tecnológico. O trabalho vivo aplicado à produção da ciência e de novas tecnologias, portanto, deve estar sob controle daqueles que melhor o conhecem e o executam, mas sem desprezar em nenhum momento o real interesse comum.

Uma última nota sobre a bibliografia apresentada: destacamos o uso de dicionários porque são de fácil acesso e manuseio, permitem consultas rápidas e porque o objetivo do texto não foi exaurir o tema (ou tratá-lo academicamente, cientificamente), mas tão-só de apresentar os nexos mais instigantes dessa problemática. Trata-se, na verdade, apenas de um verbete sobre técnica e tecnologia.


Bibliografia


1. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4ª ed. São Paulo : Martins Fontes, 2000.

2. ARNAUD, André-Jean. Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia do Direito. Rio de Janeiro : Renovar, 1999.

3. BOBBIO, N. et. al. Dicionário de Política. Volume 2. Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1993.

4. BOUDON, Raymond & BOURRICAUD, François. Dicionário Crítico de Sociologia. 2ª ed. São Paulo : Ática, 2000.

5. BOTTOMORE, Tom. Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed. 2001.

6. CHÂTELET, F. & DUHAMEL, O. & PISIER, E. Diccionario das Obras Políticas. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1993.

7. DENT, N.J.H. Dicionário Rousseau. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed. 1996.

8. GUIMARÃES, Deocleciano Torrieri. Dicionário Técnico Jurídico. (2ª ed. rev. e atual.). São Paulo : Riddel, 1999.

9. HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos. São Paulo : Martins Fontes, 2001.

10. KURY, Mário da Gama. Dicionário de Mitologia: grega e romana. 6ª Ed. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed. 2001.

11. LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. 3ª ed. São Paulo : Martins Fontes, 1999.

12. MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. Tomo IV. São Paulo : Loyola, 2001.

13. OUTHWAITE, William. BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

14. SAWAYA, Márcia Regina. Dicionário de Informática & Internet. 3ª ed. São Paulo : Nobel, 1999.

15. SILVA, de Plácido. Vocabulário jurídico. 19ª ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2002.

16. TORRIERI, Deocleciano Guimarães. Dicionário técnico-jurídico. 2ª ed. – São Paulo: Rideel,1999.

Fonte: Directório Del Estado







Destaques





Professor Titular (MS-6). Titular (UNICAMP, 1999). Doutor em Economia (Unicamp, 1989). Engenheiro Metalúrgico (UFRGS, 1974).



Publicações



A tecnologia social e seus desafios
Este capítulo explora o processo recente, e em certo sentido único, que se expande rapidamente no Brasil, de conceber tecnologias para a inclusão social (IS). Seu enfoque, interdisciplinar, orientado por problema e para a elaboração de políticas, como convém ao tema, é balizado pelo campo dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia (ESCT) (...)
Ano: 2004,
Autor(es):Renato Peixoto Dagnino
Baixe uma cópia:A tecnologia social e seus desafios.pdf




Sobre o marco analítico-conceitual da Tecnologia Social
A Rede de Tecnologia Social (RTS) tem duas características que a diferenciam de outras iniciativas em curso no país, orientadas à dimensão científico-tecnológica. A primeira é o marco analítico-conceitual que conforma o que aqui denominamos tecnologia social (TS). A segunda é justamente seu caráter de rede (...)
Ano: 2004,
Autor(es):Renato Peixoto Dagnino, Flávio Cruvinel Brandão, Henrique Tahan Novaes
Colaborador(es):Rogério Bezerra da Silva
Baixe uma cópia:Sobre o marco analítico-conceitual da TC.pdf






Artigos



A relação Pesquisa - Produção: em busca de um enfoque alternativo
Como qualquer proposta alternativa baseada numa crítica à situação presente, este trabalho possui muito de particular, de individual. Ele reflete uma opinião acerca da realidade que se descreve, que se quer explicar, e sobre a qual se quer atuar e modificar. Ele supõe, portanto, a concepção e emprego de modelos de tipo descritivo, normativo, prospectivo e institucional que permitam iluminar o caminho que vai de uma situação presente para outra futura, desejada. Por esta razão, e por ser este trabalho uma síntese de uma visão que foi sendo desenvolvida ao longo de anos de reflexão, pesquisa, docência e atuação na formulação, implementação e avaliação de políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação, muitas das obras que se indica como referência para o melhor entendimento das idéias expostas são do seu autor. Assim, a maior parte das notas apresentadas no final deve ser entendida mais como uma indicação da fonte original do que se está referindo, ou uma sugestão de leitura adicional, do que como algo imprescindível para seguir a leitura.
Autor(es):Renato Peixoto Dagnino
Veja o link:http://www.campus-oei.org/revistactsi/numero3/art01.htm




Em direção a uma Estratégia para a redução da pobreza: a Economia Solidária e a Adequação Sócio-técnica
A situação socio-econômica dos países periféricos irá obrigar governos progressistas que venham a se tornar politicamente viáveis a adotar soluções radicais para o enfrentamento da miséria. A palavra de ordem Distribuir para Crescer com que a esquerda respondia nos anos 70 ao mote Crescer para Distribuir da direita liberal e, mais tarde, ao Concentrar para Crescer do neoliberalismo, já não é suficiente para dar conta da intensidade e da profundidade do problema da exclusão.
Autor(es):Renato Peixoto Dagnino
Veja o link:http://www.campus-oei.org/salactsi/rdagnino5.htm




Grupo de Análise de Políticas de Inovação (GAPI)
O Grupo de Análise de Políticas de Inovação (GAPI), é vinculado ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da UNICAMP. O DPCT dedica-se ao estudo das relações Ciência, Tecnologia e Sociedade empregando enfoques como os de Análise Política, economia da tecnologia e sociologia da inovação. As atividades inicialmente desenvolvidas pelo GAPI, através das quais se consolidou a experiência do grupo, se concentraram no desenvolvimento e aplicação de metodologias para Gestão Estratégica da Inovação (prospecção e seleção de oportunidades de inovação, avaliação do potencial de instituições etc) adequadas ao contexto latino-americano.
Veja o link:http://www.ige.unicamp.br/gapi/



Fonte:  Instituto de Geociências - Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP






Especiais 






 Introdução


A Internet é uma mídia informativa recente e suas repercussões e aplicações na sociedade atual ainda  não foram devidamente dimensionadas. O filósofo francês Pierre Lévy, da Universidade de Ottawa,  Canadá, é um dos maiores estudiosos sobre o assunto.  Lévy, de 46 anos, tem formação em História das Ciências, Sociologia e Filosofia, com experiência técnica na concepção de sistemas de informação inteligentes. Seu último livro, Cibercultura, relata diversas experiências realizadas através da Internet.

No final do mês de agosto, Lévy realizou a palestra "Internet e Desenvolvimento Humano", promovido pelo SESC-SP, na unidade Vila Mariana.


As idéias de Lévy


Na palestra, Lévy reafirmou a importância da Internet na sociedade atual, desconsiderando o argumento de que o problema da Internet é a dificuldade ao acesso das pessoas.

"A Internet é um instrumento de desenvolvimento social. Devemos lembrar que a escrita demorou pelo menos 3000 anos para atingir o atual estágio, no qual todos sabem ler e escrever. A Internet tem apenas 10 anos", ponderou. "O importante é ver o índice de pessoas plugadas", concluiu.

Com a popularização da Internet, novos conceitos estão sendo criados para designar os novos fenômenos. Este é o caso da Árvore do Conhecimento, um programa desenvolvido por Lévy, no qual os membros de um grupo alimentam um banco de dados com informações sobre o que podem e gostam de fazer.

O programa mapeia as listas de todos os membros e identifica a árvore de conhecimento daquele grupo.


Inteligência coletiva


Outro termo desenvolvido por Lévy é o da Inteligência Coletiva, um princípio onde as inteligências individuais são somadas e compartilhadas por toda a sociedade, potencializadas com o advento de novas tecnologias de comunicação, como a Internet.

"Ela possibilita a partilha da memória, da percepção, da imaginação. Isso resulta na aprendizagem coletiva, troca de conhecimentos", disse o filósofo francês.

Há uma espécie de ecossistema das idéias humanas, na qual as informações são trocadas e selecionadas por cada indivíduo.

"Somos nós que fazemos viver. Fazemos viver num mundo das idéias", afirmou.


Evolução do homem


Lévy lembrou que a evolução do homem foi possível graças às habilidades que desenvolvemos e que nos difere dos animais. São elas:

- a construção de diálogos (mundo de significados). Nos questionamos, conversamos com o outro, estabelecemos diálogos.

- o contar histórias (percepção do tempo)

- a organização do pensamento (estabelecemos relação de causa e efeito)

"Os mitos são relatos. Hoje não são muitos, mas nós contamos histórias e as pessoas guardam essas histórias que são somadas ao acervo da humanidade. Isso é inteligência coletiva", disse.


Estágios da comunicação


Na palestra, Lévy também situou o ciberespaço no desenvolvimento da comunicação humana. São cinco estágios:

- oralidade: mitos, ritos, transmissão oral.

- escrita: memória, técnica autônoma da imagem.

- alfabeto: universalização e digitalização da escrita.

- Imprensa: reprodução técnica do alfabeto e das imagens

- Ciberespaço: ecossistema de idéias e constituição da noosfera


Fonte: Centro de Referência em Educação Mário Covas






Interações





Hélice Tripla e os Escritórios de Patentes



Por Joelmo Oliveira* 


A Revolução Acadêmica nos EUA e a Revolução Industrial Alemã


No final do século XIX, EUA e Alemanha avançavam firmemente rumo à hegemonia econômica do mundo Ocidental.  

Os EUA tinham já uma forte indústria petrolífera que floresceu com a demanda por gasolina e diesel estabelecida pela invenção e difusão do motor a combustão interna em meados deste mesmo século.

Já a Alemanha, unificada sob Bismarck, experimentou a sua revolução industrial com o incremento da siderurgia e o surgimento da indústria química. 

Embora a Alemanha já fosse um país de longa tradição intelectual e acadêmica, foi nos EUA que a “universidade” deu-se conta da importância estratégica de sua participação no desenvolvimento econômico nacional através de uma maior interação com os diversos setores da sociedade. Esta percepção é hoje conhecida como “Primeira Revolução Acadêmica”.  

Enquanto nos EUA a comunidade acadêmica resolveu estreitar seus laços com a sociedade, na Alemanha a tendência parecia ainda apontar para a manutenção da tradicional dicotomia entre universidade e sociedade. Weber em seu texto “Ciência e Política: duas vocações” realizou uma análise descritiva do ambiente intelectual acadêmico na Alemanha, quando lamenta a excessiva burocratização e as dificuldades que encontra para manter diálogos e debates profícuos neste ambiente. 

Por outro lado, a Alemanha detinha a vanguarda do processo que hoje denominamos de “Inovação”. A indústria alemã era responsável por sua própria evolução tecnológica em termos de processos e produtos, não foi por outra razão que Joseph Schumpeter, economista alemão, anos depois identificaria o “empresário inovador” como o verdadeiro responsável pela retomada de ciclos virtuosos de atividade econômica. 


Interação Universidade-Indústria: o caso Albert Einstein 

É neste contexto que, ainda na Alemanha do final do século XIX, surgem os primeiros trabalhos em torno de um conjunto de teorias que dariam origem a chamada física moderna, estas teorias foram responsáveis pelas maiores realizações tecnológicas do século XX. 

Um dos mais festejados cientistas de origem alemã responsáveis pelos primeiros alicerces da física moderna é Albert Einstein. Suas biografias são unânimes em confirmar as dificuldades que tinha com a educação formal acadêmica na Alemanha. 

Estas biografias também contam que seus grandes trabalhos científicos publicados em 1905 (o "ano miraculoso") foram realizados enquanto Einstein ocupava-se com a análise de pedidos de patentes para invenções num escritório de registro de patentes na Suíça. 

Os trabalhos de Albert Einstein são o resultado de algo incomum naquela Alemanha: o contato próximo entre a virtude intelectual desperdiçada pelo burocratismo acadêmico descrito por Weber e o ambiente intrinsecamente motivado para a inovação tecnológica representado pelas indústrias da Alemanha, com a qual Einstein manteve contato durante anos através da análise de propostas de inovação tecnológica para registros de patentes.


A Hélice Tripla 

O processo que conduziu Einstein à publicação em 1905 dos trabalhos que tanto impactaram o mundo do século XX pode servir de modelo para a proposição de políticas cujo intuito seja o de estabelecer ambientes permanentemente profícuos para o desenvolvimento científico e tecnológico.

Os parques tecnológicos ou tecnopólos são uma tentativa de emular um ambiente onde a universidade esteja próxima e atenta às demandas de desenvolvimento científico e tecnológico do setor produtivo. 

O primeiro parque tecnológico surgiu nos EUA, em 1951, em torno da Universidade de Stanford. Criou-se ali um ambiente que agregou indústrias e laboratórios, com apoio do governo, cujo propósito era o de capitalizar a então recente invenção do transistor em 1948 e as possibilidades econômicas que a partir dali se delineavam: surgia o Vale do Silício, celeiro da eletrônica, microeletrônica, dos computadores, da informática. 

O argumento da “Hélice Tripla” serve como referência para modelar um ambiente como o dos parques tecnológicos. As “hélices” são formadas pelo governo, pelo setor produtivo e por universidades, laboratórios e centros de pesquisa. Mais abrangente que o “Triângulo de Sábato”[A2] , o argumento da “Hélice Tripla” propõe, em linhas gerais, que os atores do sistema de inovação não tenham papéis rígidos, propõe que estejam igualmente preparados para assumir a iniciativa de ações que levem à concretização de inovações tecnológicas. 

É sob o argumento da “Hélice Tripla” que muitas das políticas nas áreas de Ciência, Tecnologia e Inovação são levadas a cabo.  

Nestes ambientes de intensa sinergia entre diferentes atores sociais com o propósito de intensificar a proposição de inovações tecnológicas para o setor produtivo, a força de trabalho desempenha um papel crucial.

______________________________________

 [A1]   Foi justamente esse perfil inovador intrínseco da indústria alemã daqueles anos que motivou o próprio Schumpeter a estabelecer, mais tarde, linhas oficiais de crédito para o financiamento
de atividades de inovação tecnológica nas indústrias quando trabalhou para o governo alemão na década de 1920.  [A2]  (Ver texto “O Triângulo de Sábato”)




Por Joelmo Oliveira

CEPAL e Política Industrial

As idéias do argentino Raul Prebisch e do brasileiro Celso Furtado durante os anos de 1950/60 forneceram o arcabouço teórico para a implementação dos programas de substituição de importações nos países da América Latina. Para eles a situação de "subdesenvolvimento" desses países seria creditada a uma estrutura econômica exportadora de produtos primários, de baixo valor agregado e sujeito às imprevisibilidades do mercado internacional e, ao mesmo tempo, importadora de produtos industrializados.

A política econômica adotada no Brasil desde Getúlio Vargas, na década de 1930, já buscava a industrialização do país tendo a substituição de importações como pano de fundo. Na década de 1950 Juscelino Kubitschek impõe novo fôlego à substituição de importações, adotando uma política que facilitava o crédito aos setores industriais e promovia crescentes déficits públicos. O Estado brasileiro investia intensamente na garantia da infra-estrutura para a nova onda de industrialização, mais tarde a inflação cobraria seu preço.

O desenvolvimentismo latino-americano esbarrou na difícil conjuntura econômica internacional do final da década de 1960. Os militares brasileiros mantiveram o país em "marcha forçada", veio o "Milagre Brasileiro" de 1968 até 1972, esbarrando também na nova conjuntura econômica internacional delineada pelo rompimento do acordo de Bretton Woods, em 1971, por parte dos EUA (acordo este que exigia desse país o lastreamento em ouro para a realização de emissões de dólar) e pelo aumento do preço do petróleo em 1973.


O Triângulo

A crise do desenvolvimentismo latino-americano na segunda metade da década de 1960 incitava novas abordagens teóricas para a questão do desenvolvimento da região. O que havia de errado nas idéias dos cepalinos Prebisch e Furtado? Acaso não estava correta a idéia de manter juros baixos e sustentar déficits públicos com o propósito de dinamizar a economia dos países da região? Por que não funcionou? Por que a crise econômica nos EUA e Europa arrastaram também as economias latino-americanas recém-industrializadas para a vala comum da crise? Por que essas economias não tiveram força para reagir por conta própria?

Em 1968, numa conferência na Itália (World Order Models Conference), os argentinos Jorge Sábato e Natalio Botana tentaram responder as questões formuladas acima. Para eles, um programa de substituição de importações eficiente deveria levar em conta a necessidade constante do setor produtivo em aprimorar seus processos e seus produtos, para isso seria necessário que houvesse nos países da América Latina uma infra-estrutura científica e tecnológica articulada com o setor produtivo e com o governo. O modelo descrito passou a ser conhecido como "Triângulo de Sábato". Neste "Triângulo" o vértice superior seria ocupado pelo governo, ligado por um lado ao setor produtivo e por outro à infra-estrutura científica e tecnológica. Mas a base do "Triângulo" seria a interação entre o setor produtivo e a infra-estrutura científica e tecnológica disponível no país. 

Dessa forma, Sábato e Botana completaram a idéia de substituição de importações de Prebisch e Furtado, adicionando o desenvolvimento tecnológico como fator fundamental para a sustentabilidade nacional do desenvolvimento econômico.

Algumas críticas ao esquema de Sábato e Botana incluem a rigidez preconizada para as interações entre os três setores descritos no modelo. Uma generalização do "Triângulo de Sábato" foi proposta em 1996 por Loet Leydesdorff e Henry Etzkowitz, e é conhecida como modelo da Hélice Tripla.


* Físico do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron do Ministério da Ciência e Tecnologia e Diretor de Política de Ciência e Tecnologia do SINTPQ.


Fonte: Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia - SP






Investigações






IVAN ILLICHIvan Illich*

É chegada à altura de ressuscitar uma velha tradição, que distingue dois tipos de investigação: a que estuda as coisas como são e a que estuda como as coisas podem ser feitas. O uso de termos fortemente conotados, como "teoria" e "prática" mais importados do alemão do que do grego, confunde ainda mais a questão. À investigação que se preocupa com a natureza das coisas chamarei, ciência , e à investigação que se preocupa com a decisão acerca do uso das coisas chamarei tecnologia. Assim, a tecnologia implica sempre uma atitude ética, já que as coisas não podem ser usadas sem me afectarem a mim e a todos os outros. Desde que a UNCTAD foi fundada, esta questão ganhou importância. Aprendemos agora a compreender que a mesma descoberta científica pode ser aplicada com duas atitudes diferentes acerca do uso que deve ser dado às coisas. Ao primeiro tipo de investigação tecnológica chamarei produtivista e ao segundo convivencial. Coloco cada um deles nas extremidades de um espectro. Numa perspectiva produtivista os utencílios deverão servir essencialmente para permitir à pessoas ocupadas em trabalho assalariado o aumento de produção de bem de serviços. Numa perspectiva convivencial, os utencílios deverão servir, antes de mais para permitir às pessoas obter satisfação, não tanto da sua contribuição para a economia de mercado, mas antes daquilo que fazem com esses utencílios. A investigação destinada a aplicar a ciência ao aumento de produtividade designa-se geralmente por  " Investigação-e-Desenvolvimento". A  investigação que aplica a ciência a uma crescente autonomia em relação ao mercado tem sido designada, por mim e por outros, por "Contra-Investigação" ( counterfoil research ). 


* Do autor foram já editados em Portugal: Libertar o Futuro, D. Quixote, 1973; Inverte as Instituições, Moraes, 1973; Educação  Sem Escola, Teorema, 1974; Limites para a Medicina, Sá da Costa, 1975; A Convivencialidade, Europa-América, 1976 e Aprender Sem Escola, In A Escola e a Repressão dos Nossos Filhos, I ILLICH, et  al. , Europa-América, 1976. O  presente trabalho foi apresentado no fórum sôbre a ciência e a tecnologia para o desenvolvimento, na UNCTAD, realizado em Viena em 24de agosto de 1979.

Fonte: Revista Crítica de Ciências Sociais, 3 de dezembro de 1979:9-27



por Rosiska Darcy de Oliveira - escritora, presidenta do Centro de Liderança da Mulher, para O Globo, de 25 de dezembro de 2002.

Neste mês de dezembro, cheio de emoções para os brasileiros, passou despercebida a morte na Alemanha de um certo Ivan Illich. Para os jovens, esse nome talvez não queira dizer nada ou, no máximo, uma vaga referência ao personagem de Tolstoi. No entanto, o homem real, personagem de si mesmo, peregrino, cosmopolita e rebelde insolente, que alimentou tantas lendas, foi quem melhor entendeu as arapucas em que entrava nossa civilização.

Para quem o conheceu e teve a chance de debater com ele idéias insólitas e subversivas, é impossível enfrentar um engarrafamento sem lembrar-se que ele, já nos anos sessenta, dizia do absurdo que é consagrar uma parte dos seus dias a trabalhar para comprar e manter um automóvel, que supostamente nos faz andar mais rápido, e acabar por deslocar-se na velocidade de um jumento da Idade Média. Esse um de seus primeiros insights sobre os problemas sem solução que estamos vivendo, e que podem ser sintetizados no sentimento de perda de poder diante da tecnologia. Aquela que deveria libertar os homens da servidão do trabalho e que acabou, cumprindo a profecia de Illich, por nos escravizar a todos, não só pela dependência que cria, mas sobretudo por nos algemar a um mundo produtivo cada vez mais invasivo e exigente, onde ganhamos duramente o necessário para comprar os novos produtos que a sociedade de consumo impõe como indispensáveis. Inverteu-se o projeto: a relação dos humanos com a tecnologia virou a relação da tecnologia com os humanos.

Amigo e debatedor de Paulo Freire, Illich substituiu a proposta de uma “pedagogia dos oprimidos” pela crítica à “opressão da pedagogia”. Hoje, uma reunião de educadores, em que todos se queixam do fracasso da escola, ecoa quem primeiro percebeu que a educação se transformara em um bem de consumo, um produto como qualquer outro, fabricado, garantido e vendido pela instituição escola, embora seja fora dos seus muros que aprendemos a maior parte do que sabemos.

É assim porque a escola é parte integrante de uma sociedade que acredita no consumo ilimitado. A corrida aos diplomas e a acumulação de títulos avalizam o bom funcionamento intelectual e são condição prévia do êxito social. Enquanto isso, toda iniciativa pessoal no sentido da auto-educação ou de uma educação entre pares carece do selo de garantia que só os diplomas são capazes de fornecer. Concluir a escolaridade por que meios for passa a ser sinônimo de competência, o que, pelo avesso, desqualifica os que não têm diplomas. Illich investiu na criação de instituições educativas diferentes que, dizia, pertenciam a uma sociedade que ainda não existia, mas que essas instituições ajudariam a criar. As “redes de saber” que propunha deveriam dar acesso aos recursos existentes a todos que quisessem aprender em qualquer época da vida; permitir que os que desejavam partilhar seus conhecimentos o fizessem, encontrando quem quisesse partilhá-los ou trocá-los por outros conhecimentos; os portadores de idéias novas deveriam poder se fazer ouvir. Illich escreveu antes da internet, mas quem hoje troca conhecimentos na rede tem um parentesco certo com essas idéias que, na época, eram acusadas de utópicas e sem apoio na realidade. Mas a realidade foi ao encontro de suas idéias, como acontece com todos os pioneiros. No debate sobre meio ambiente, a humanidade, confrontada com o xeque-mate da limitação de recursos naturais, descobriu que o problema não é escassez, mas o desperdício, o modelo de civilização que ele tanto criticava: o crescimento ilimitado, o consumo demencial de energia, a criação incessante de novas necessidades. Esbanjamento que desequilibra o acesso à energia entre ricos e pobres, reproduzindo no consumo de bens naturais a desigualdade de sempre que marca a relação entre os países desenvolvidos e o resto do mundo.

Frenético, insaciável, destituído de sentido outro que a acumulação de bens, esse modelo de civilização adoece o planeta, esgotado, como esgota os nervos de cada um. As pessoas doentes voltam-se, então, para mais uma instituição, a que distribui saúde, como a escola distribui educação. O hospital, a medicina, são os novos alvos de um pensamento ferino, rigorosamente coerente: é preciso devolver aos indivíduos a capacidade criativa de que foram expropriados, permitindo-lhes educar-se no convívio e na experiência, cuidar da sua própria saúde, vivendo uma vida física e mentalmente saudável, encontrando sentido na existência. A grande descoberta de Ivan Illich foi a natureza tragicômica de um modelo de desenvolvimento empenhado em resolver problemas que ele mesmo cria. No início deste ano, a Unesco convocou um encontro com título instigante: “Desfazer o desenvolvimento, refazer o mundo.” Lá estava Illich, o pioneiro Illich, que acaba, este mês, de cumprir o seu destino. “Tentei viver como um peregrino, um passo depois do outro, adentrando meu tempo, vivendo no meu horizonte, que espero alcançar com o passo, o surpreendente passo que darei ao morrer."


Fonte:  Pensamento Ecológico







Mesas  Redondas






A necessidade de aprofundar a relação entre a C&T e as demandas da sociedade, assim como de uma universidade pública mais preocupada com os interesses sociais, são discursos que não encontram muita resistência no Brasil atual. Porém, quando se fala da importância da relação entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) muitas vezes não se considera que a sociedade é formada por inúmero segmentos e interesses. A mesa-redonda “Tecnologias Sociais e Desenvolvimento Sustentável”, que ocorreu no final da tarde de terça-feira (15) no Ciclo Básico II, trouxe esse ponto de vista e alertou para a necessidade de uma produção de C&T focada nas necessidades da maioria da população brasileira. Uma tecnologia voltada para necessidades distintas do mercado tradicional para o qual geralmente se pensa as inovações.A chamada tecnologia social, segundo Maíra Corrêa, pesquisadora da Fundação Universidade Federal do Rio Grande, é um termo próximo ao de inovação social, que designa tecnologias diferentes das tecnologias convencionais. São concebidas a partir da participação dos “usuários”, que, nesse caso, são “co-produtores” das tecnologias. Outra diferenciação é um desenvolvimento destinado à inclusão social de segmentos que estão geralmente fora do circuito das tecnologias convencionais. “A tecnologia social envolve uma mudança no próprio paradigma da Ciência Moderna, propondo uma produção de conhecimento integrada às necessidades sociais. Também propõe que a relação entre universidade e sociedade aconteça não pela ótica da obtenção do lucro e da empresa”, completa. O pesquisador Pedro Almeida Costa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ofereceu um panorama mais concreto das possibilidades e desafios mostrando os resultados de uma tecnologia social específica, o projeto de “Residência Solidária”. Um dos maiores desafios apontados pelo pesquisador é justamente tornar profícua a interação social entre os integrantes de uma realidade acadêmica e a população para qual a tecnologia é concebida. Para ele, uma tecnologia social pode ser reaplicada em outros locais, mas não apenas replicada. Para Gonçalo Dias Guimarães, pesquisador da Incubadora de Empresas (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o problema central das tecnologias voltadas para inclusão é atuar na dimensão do trabalho, diminuindo a dimensão da informalidade e permitindo que segmentos que não têm acesso à tecnologia se apropriem delas. “As políticas públicas voltadas para inclusão ainda colocam os estratos menos favorecidos apenas como alvos de projetos de capacitação. Os programas que pensam a tecnologia são voltados para os estratos superiores. É fundamental que a questão da técnica seja pensada também para incorporação dos que estão de fora”, analisa.

Fonte: Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência Tecnologia -SP 






Resenhas





I  -  Free culture - How big media uses technology and the law to lock down culture and control creativity

II -  Revolution OS





Autor: Lawrence Lessig
346 páginas, Editora
Penguim Press
2004.


Por Ana Luiza Serio


Cultura livre - Como a grande mídia usa tecnologia e a lei para enclausurar a cultura e controlar a criatividade, o título do último livro do advogado norte-americano Lawrence Lessig já deixa claro a que veio. O autor não esconde sua opinião contra a forma de controle exercida, atualmente, pela grande mídia sobre a propriedade intelectual.

Lessig acredita que, idealmente, os mecanismos que regulam a propriedade intelectual devam estabelecer um equilíbrio entre controle e liberdade. Afirma que a forma pela qual as leis são estabelecidas hoje em dia provoca dois tipos de problemas. Além de limitar o uso que artistas e criadores fazem de outras obras, freando o processo criativo, elevam o custo da produção cultural, numa época em que a tecnologia possibilitaria reduzi-lo.

As questões tratadas por Lessig não são muito recentes, a defesa da livre circulação do conhecimento, nas suas diversas formas de expressão, já existe há bastante tempo. A contribuição do autor é a análise do papel da internet como agente multiplicador e a sua conseqüência no processo de construção de cultura. "Meu foco não é apenas a concentração de poder produzida pela concentração de propriedade, mas mais importante porque menos visível, a concentração de poder produzida por uma mudança radical no escopo da lei. A lei está mudando, o que transforma também a maneira com a cultura se forma. Essas mudanças deveriam preocupar você, quer você se preocupe ou não com a Internet, e independente da sua posição política" explica Lessig.

O autor defende que as leis deveriam acompanhar os avanços da tecnologia e cita exemplos. Quando os primeiros aviões começaram a sobrevoar os solos norte-americanos, ainda não existia legislação sobre o espaço aéreo. Apareceu, então, uma questão que até aquele momento não havia sido pensada, se a propriedade se estendia até o céu, seria um crime voar em cima do território de outro país. Para produtos culturais o problema surgiu de forma semelhante. Antes da invenção da imprensa era desnecessária uma lei que garantisse o direito autoral do autor de um livro. A indústria fonográfica sofreu o mesmo impasse, com a criação de equipamentos que permitem a cópia e reprodução de filmes e músicas, tornou-se necessária a proteção dos direitos das gravadoras. A revolução tecnológica também transformou todas essas questões. Hoje em dia, texto, música e vídeo são criados e usados em formato digital, o que permite cópias perfeitas com pouco custo, usando computadores pessoais. Para Lessig, as leis deveriam acompanhar essa evolução.

No caso do direito autoral, por exemplo, foram estabelecidas limitações de tempo para garantir, tanto o processo criativo, quanto o direito das editoras e gravadoras. Mas Lessig ressalta que uma cultura livre não é uma cultura sem propriedade, nem uma cultura na qual artistas não sejam pagos. Numa cultura assim, teríamos anarquia e não liberdade. O que o autor defende é um meio termo entre anarquia e controle. "É contra o extremismo que esse livro foi escrito", afirma.

Lawrence Lessig é professor de direito da Stanford University, e estuda aspectos legais das tecnologias modernas, particularmente da internet. Nos últimos três anos publicou livros importantes sobre o tema: em 1999 saiu "Code and other laws of cyberspace" (Código e outras leis do ciberespaço), e em 2001 "The future of ideas" (O futuro das idéias) e em 2004, "Free culture: How big media uses technology and the law to lock down creativity" (Cultura livre - Como a grande mídia usa tecnologia e a lei para trancar a cultura e controlar a criatividade). Além disso, é colunista da revista Wired Magazine, publicação norte-americana sobre novas tecnologias e internet.

Em Free culture, Lessig conclui: "a tecnologia nos deu uma nova liberdade. Devagar, alguns começaram a entender que essa liberdade não significa anarquia. Nós podemos fazer uma cultura livre do século 21, sem que artistas percam, nem que o potencial da tecnologia digital seja destruído." E completa: "a cultura livre foi o nosso passado, mas apenas será nosso futuro se nós mudarmos a direção que caminhamos." Coerente com seu conteúdo, o livro pode tanto ser comprado em livrarias, quanto adquirido gratuitamente pela internet no endereço
http://www.free-culture.org


Fonte: SBPC/Labjor Brasil
 







Documentário
Direção: J. T. S. Moore;

EUA - 2001

Por Rafael Evangelista


Sentir-se motivado a abandonar tudo o que já se sabe sobre como usar um computador (onde estão seus arquivos, como executar um programa, que aplicativo faz o quê, quais as teclas de atalho) e começar a aprender quase tudo de novo é algo raro. Mas pode se tornar menos difícil após assistir ao documentário Revolution OS. Em formato jornalístico, ele conta a fascinante história da filosofia do software livre e a explosão do Linux, ainda durante a bolha de investimentos da internet da década de 1990. Com depoimentos das maiores figuras do software livre e do open source tais como Richard Stallman, Linus Torvalds, Eric Raymond, Bruce Perens e outros, o filme convence a qualquer um a aventurar-se pelos sistemas operacionais livres, cuja filosofia de compartilhamento, liberdade e comunidade remonta a ideais que pareciam esquecidos após duas décadas de yuppies e neoliberais individualistas.

Mas nem tudo é tão fraterno e comunal no mundo do software livre. Revolution OS tem méritos também por mostrar as contradições da própria comunidade. Um sistema de produção de software em que um dos itens motivadores é o reconhecimento dos pares, é claro que só poderia ser entremeado de vaidades. Criado originalmente por Richard Stallman, a cabeça por trás do conceito de copyleft (a antítese do copyright), o termo software livre (do inglês free software) é renegado por aqueles que querem torná-lo mais palatável a gostos empresariais. Estes querem então substituí-lo por open source (fonte aberta, em português), para que os investidores percebam que podem ganhar dinheiro com ele já que o free de free software quer dizer liberdade e não grátis.

Stallman, com seu visual hippie e seu bom humor, é um capítulo à parte. Incansável, ele luta para manter a integridade de sua filosofia de liberdade e para que o gigantesco trabalho dos desenvolvedores GNU seja reconhecido. Insiste que o Linux é uma pequena parte (essencial, mas uma parte) que se acoplou com perfeição ao sistema operacional GNU, desenvolvido de modo colaborativo desde a década de 1980. Quer, com justiça, que o sistema seja chamado de GNU/Linux, pois foi usando as ferramentas já prontas e a filosofia de trabalho colaborativo que o Linux pôde ser desenvolvido. Linus, o finlandês que gerenciou o trabalho colaborativo em torno do Linux, reconhece: "Ele é o grande filósofo, eu sou o engenheiro".

O conceito de software livre surge em 1984, quando Stallman funda a Free Software Foundation e postula as liberdades que são os pilares do movimento pelo conhecimento compartilhado: liberdade para qualquer uso, cópia, alteração e distribuição. Ele afirma que o software, desde os primeiros computadores, sempre foi livre. Os programadores na década de 1960 e 1970 desenvolviam tudo em um sistema colaborativo, trocando idéias e linhas de código assim como cozinheiros trocam suas melhores receitas. Foi na década de 1980 que se consolidou a opção de algumas empresas tornarem o conjunto de comandos padronizados enviados às máquinas, o software, também um produto, a ser vendido separado do hardware.

Mas a semente, a idéia da propriedade do software foi lançada por aquele que seria o homem que mais enriqueceu com a passagem dos códigos de computador de bem coletivo, compartilhado, a produto de direito de determinadas corporações: Bill Gates. O filme mostra uma carta dirigida há um clube de desenvolvedores, escrita por ele em 1976, logo após fundar a Microsoft, em que ele chama o compartilhamento de software de roubo e afirma que nenhum software de qualidade seria desenvolvido se os programadores não fossem bem pagos. Ao som de uma música que lembra os filmes de suspense a narradora lê o conteúdo da carta com uma agressividade crescente, dando um clima assustador a frases como: "Como a maioria de vocês já deve saber, grande parte de vocês rouba software. O hardware é algo a se comprar, mas o software é algo a se compartilhar. Quem se importa se aqueles que trabalharam nele são pagos? Isso é justo? O que vocês estão fazendo é impedir que bons softwares sejam escritos. Quem pode suportar um trabalho profissional que não é pago?"

Na ocasião, em tom acusador e agressivo, Gates reclamava que o trabalho dele e de seus outros dois sócios não estava sendo remunerado adequadamente devido às cópias não autorizadas. Menos de 10% dos usuários do Altair BASIC, que fora desenvolvido por eles, haviam comprado o software e, se calculado o tempo gasto na produção do produto, a remuneração seria de menos de US$ 2 a hora.

Quase trinta anos depois, o vitorioso modelo proprietário de Gates enfrenta novamente o modelo cooperativo, concretizado na filosofia do software livre. Se os dois modelos irão coexistir ou se algum deles prevalecerá é algo que o futuro irá dizer. Enquanto isso, é impossível não se encantar com a letra de autoria de Richard Stallman cantada pela banda GNU/Stallmans no final do filme:

"Junte-se a nós e compartilhe o software; vocês serão livres, hackers, vocês serão livres. Acumuladores podem ganhar pilhas de dinheiro; isso é verdade, hackers, isso é verdade. Mas eles não podem ajudar seus vizinhos; isso não é bom, hackers, isso não é bom".


Free Software Song

Letra de Richard Stallman

Join us now and share the software;
You'll be free, hackers, you'll be free.
x2

Hoarders may get piles of money,
That is true, hackers, that is true.
But they cannot help their neighbors;
That's not good, hackers, that's not good.

When we have enough free software
At our call, hackers, at our call,
We'll throw out those dirty licenses
Ever more, hackers, ever more.

Join us now and share the software;
You'll be free, hackers, you'll be free.

Baixe aqui a música cantada por Richard Stallman.

Baixe aqui o vídeo da banda GNU/Stallmans exibido em Revolution OS.

Baixe aqui Direto de Tunis: Richard Stallman e Gilberto Gil Cantam Juntos


Fonte:  SBPC/Labjor  - Brasil
 





Revoluções




1 - Revoluções Tecnológicas

2 - Revolução tecnológica, Internet e Socialismo





Esquemas sucintos



Período Pré-Agrícola  (meio milhão de anos)



Sistema tecnológico


* Domínio do fogo, instrumentos


Sistema  associativo


* Tribos de caçadores e coletores

* Algumas instituições reguladoras da vida familiar e grupal


Sistema  ideológico


* Patrimônios de SABER e CRENÇAS que explicavam as experiências  e guiavam a ação

* Fantasmagorias - busca de segurança emocional

* Tabu do incesto e exogamia





I   Esquema - 1a. Revolução Tecnológica: Revolução Agrícola

(Egito - 8.000 AC; Índia - 6.000 AC; China - 5.000 AC; Europa - 4.500 AC; África - 3.000 AC; Américas - 2.500 AC)



Sistema tecnológico


* Primeiras formas de agricultura e domesticação de animais

* Transfiguração da condição humana

* Efeito Crucial : incremento demográfico (só comparável ao da Revolução Industrial - de 20  milhões para 650 milhões)


Sistema associativo


* Aldeias agrícolas indiferenciadas e

* Hordas pastoris nômades

* Sociedades SEM estratificação social: o grupo inteiro dedica-se às tarefas de subsistência

* Divisão do trabalho conforme o sexo e a idade

* Não há acumulação privada de bens

* Não há apropriação dos produtos do trabalho alheio

* Excedentes alimentares: consumidos em ritos festivos e atos de fé


Sistema ideológico


* Crenças e cultos destinados a impor a dominação masculina (guerras)

* Especialistas no trato com o sobrenatural (mas não em tempo integral)

* Cada indivíduo SABE o mesmo que outro, salvo papéis diversificados de chefes e sacerdotes

* Um pequeno mundo onde todos se conhecem e se tratam de maneira pessoal e igualitária 


Texto  -  1ª  Revolução Tecnológica Agrícola 

 
O primeiro processo civilizatório corresponde à Revolução Agrícola, que se desencadeou originalmente, há cerca de 10 mil anos passados sobre os povos da Mesopotâmia e do Egito e se repetiu, mais tarde, por efeito da difusão ou como desenvolvimentos independentes, na Índia (6000 a. C.), na China (5000 a. C.) na Europa (4500 a. C.), na África Tropical (3000 a. C.) e nas Américas (2500 a. C.).

Essa revolução tecnológica desdobrou-se em dois processos civilizatórios com os quais surgiram a agricultura e o pastoreio, determinando duas novas formações sócio-culturais: 1) Aldeias agrícolas indiferenciadas (não estratificadas em classes) dos povos que se fizeram lavradores de tubérculos ou de cereais, a exemplo das tribos da floresta tropical nas Américas, e de inúmeros povos tribais de outros continentes. Alguns deles combinaram, mais tarde, a agricultura com a criação de animais, mas ainda não os utilizavam na tração. 2) Hordas pastoris nômades dos povos que, posteriormente, se especializaram na criação de animais ajustando todo o seu modo de ser às condições de sobrevivência e de multiplicação dos rebanhos.

O homem vivera sempre em pequenos bandos móveis de coletores de raízes e frutos, de caçadores e pescadores, rigidamente condicionados ao ritmo das estações, engordando nas quadras de fartura e emagrecendo nos períodos de penúria. Só em regiões excepcionalmente dadivosas, como as costas marítimas, ricas em mariscos, e, por isso mesmo, muito disputadas, esses bandos podiam alcançar maiores concentrações. Ainda assim o montante de cada grupo era limitado pela capacidade de provimento alimentar nas quadras de maior escassez e pelas dificuldades de ordenar socialmente o convívio de unidades sociais maiores.

Nesse largo período de vida pré-agrícola, avaliado em meio milhão de anos, o homem dominara o fogo; aprendera a fabricar instrumentos de trabalho que compensaram suas carências físicas com meios de ataque e de defesa, e aumentaram sua eficiência produtiva. Desenvolvera idiomas, criara instituições sociais reguladoras da vida familiar e grupal e intensificadoras do sentimento de lealdade étnica. Acumulara patrimônios de saber e de crenças que explicavam sua experiência e orientavam sua ação, bem como fantasmagorias, através das quais procurava alcançar segurança emocional em face dos riscos a que estava sujeito e dos quais se tornara consciente, como a dor e a morte..

Em alguns núcleos, por efeito da acumulação de observações e de experimentos, através de milênios, surgiram as primeiras formas de agricultura. Estas se iniciam, provavelmente, pela horticultura de frutos e tubérculos nas áreas tropicais e, nas regiões temperadas e frias, pelo cultivo de cereais, uns e outros anteriormente coletados nos mesmos sítios. Tais procedimentos acabam por fixar-se como um processo produtivo novo que, permitindo reordenar intencionalmente a natureza, a colocava a serviço do homem para prover a massa principal de alimentos vegetais de que carecia.

A domesticação de animais, surgida em certas áreas, permitiria enriquecer a dieta humana com uma provisão regular de carne e também de leite e peles. Mais tarde, alguns dos animais domesticados proporcionariam uma nova fonte de energia muscular, além da humana, como montaria ou força de tração de arados e carros, multiplicando, dessa forma, a capacidade produtiva do homem e sua mobilidade espacial.

Tal como a agricultura, a domesticação de animais desenvolveu-se progressivamente, a partir de procedimentos ocasionais que familiarizaram o homem com as condições de sobrevivência e de reprodução dos animais. Segundo o testemunho etnográfico, os grupos caçadores têm gosto em levar para suas moradas, e entregar ao cuidado das mulheres e das crianças, filhotes dos animais que eles caçam, para serem criados como um brinquedo animado. Essa atividade está, provavelmente, na base da domesticação que, começando pelos cães de caça, se estenderia às aves, porcos e muitas outras crias de terreiro e, depois. a animais de maior porte, criados já em rebanhos, como as renas, os camelos, as ovelhas, os eqüinos e os bovinos, cujas condições de crescimento conduziriam ao pastoreio como atividade especializante.

O efeito crucial da agricultura e do pastoreio na esfera das relações do homem com a natureza foi um enorme incremento demográfico, causado pela relativa fartura alimentar que proporcionou.

 

Aldeias Agrícolas Indiferenciadas e Hordas Pastoris Nômades 

 
As sociedades estruturadas nos dois tipos de formação sócio-cultural as aldeias agrícolas indiferenciadas e as hordas pastoris nômades dedicam-se, essencialmente, à reprodução do seu modo de vida através de economias de subsistência

Tal como as economias precedentes de caça e coleta, essas novas economias agrícolas e pastoris incipientes ainda não ensejam condições de diferenciação de categorias sócio-econômicas capazes de estamentar as comunidades. O grupo étnico inteiro apenas dividido em famílias e distribuindo as atribuições produtivas segundo o sexo e a idade - devota-se às tarefas de subsistência como um esforço coletivo que ocupa igualitariamente todos os seus membros. O domínio tribal coletivo das áreas de caça, pesca e coleta, estendendo-se, depois, às áreas de cultivo e de pastoreio, permite manter cada família como unidade de produção e de consumo. Nessa etapa não há lugar ainda para a acumulação privada de bens, nem para a apropriação dos produtos do trabalho alheio. Os excedentes alimentares ou de outro tipo - geralmente produto da dadivosidade da natureza em certas quadras do ano - são destinados a gastos supérfluos, com atos de fé, ou ao consumo festivo. Mesmo quando esses bens são apropriados pelos chefes dos grupos familiares, revertem geralmente à coletividade, após sua morte, ou são transferidos segundo regras de parentesco classificatório que incluem grande parte, senão a totalidade, do grupo local.

A renovação institucional mais assinalável dessa etapa encontra-se, provavelmente, no aprofundamento da divisão de trabalho entre os sexos, que atribui às mulheres as tarefas relacionadas com a semeadura, a colheita e a preparação de alimentos cultivados. Essa nova carga de trabalho reacentua a linha tradicional que já atribui à mulher funções rotineiras e ao homem as tarefas mais cansativas. Assim como a ele cabia antes a caça. agora lhe incumbe a derrubada dos bosques e o preparo dos terrenos para a lavoura. Ambas são tarefas grandemente exigentes. mas episódicas, porque concentradas no tempo, ensejando-lhe oportunidades de refazer-se dos esforços despendidos em longos períodos de repouso. Às mulheres, todavia cabem novas tarefas cotidianas que, como a manutenção da casa, o preparo da comida, a coleta, o cuidado das crianças, exigem um esforço continuado e sem interrupções para repouso.

Simultaneamente com essa diferenciação de papéis produtivos surgem crenças e cultos destinados a impor a dominação masculina, que se vira virtualmente ameaçada. Com o apelo a mitos e ritos - como os do Jurupari entre os grupos Tupis do Brasil, de instituições como a casa dos homens e os sistemas de castigos a que ambos estão associados - perpetua-se uma precedência social que já não corresponde ao papel masculino na nova economia dos povos agricultores.

As hordas pastoris nômades não parecem enfrentar esses problemas, em virtude da relevância do papel masculino no sistema produtivo. Em conseqüência, nelas se aprofunda essa dominância que assume as formas patriarcais mais despóticas. Também nos grupos de economia mista, em que o cuidado dos animais de criação cabe aos homens, a precedência social destes se ressalva. Por último, a guerra age também como fator de fortalecimento da precedência masculina dentro das sociedades agrícolas e pastoris, determinando, desde muito cedo, o aparecimento de diferenciações sociais que ampliam e dignificam as antigas formas de chefia, cujas responsabilidades vinham sendo aumentadas. Agora lhes cumpre fazer face aos riscos de saque das safras e dos rebanhos e a condução das lutas pela conquista de novas áreas de cultivo e de pastagens.

Amplia-se, igualmente, na mesma etapa, o número de especialistas no trato com o sobrenatural, que são chamados ao exercício de funções mais complexas, como a salvaguarda do grupo contra variações estacionais e a garantia da fertilidade do solo e das sementes, junto aos povos agricultores, e da saúde e da multiplicação dos rebanhos, junto aos pastores.

Ainda no curso da Revolução Agrícola, algumas sociedades experimentam grandes progressos na sua capacidade produtiva, devidos à substituição da enxada pelo arado puxado por animais e ao uso de fertilizantes. A tecnologia geral se enriquece com a descoberta e a generalização da cerâmica, que introduz o hábito de consumir principalmente alimentos vegetais cozidos, e, também, com o surgimento da fiação e da tecelagem, que substitui as vestimentas de couro por tecidos de fibras vegetais e animais e enriquece a tralha doméstica com uma multiplicidade de utensílios.

Essas atividades artesanais recairão principalmente sobre as mulheres, tomando mais penosa sua rotina, que se vira aliviada com a substituição da coleta de frutos e tubérculos silvestres pela produção dos roçados. Ao homem incumbe, agora, menos que caçar e pescar, preparar a terra para a lavoura e cuidar dos animais domesticados.

Essa nova tecnologia agrícola e artesanal não supõe, ainda, o surgimento de especialistas de tempo integral e, por essa via, a estratificação da sociedade em classes econômicas. Todos se dedicam à produção de alimentos e apenas conhecem formas elementares de troca de produtos e serviços. Dentro de cada comunidade local, os novos membros alcançam direitos iguais aos de todos os outros, pelo mesmo processo através do qual aprendem a língua e se tomam herdeiros do patrimônio cultural comum. A qualidade de membro do grupo é que os faz usuários do domínio coletivo sobre a terra e o rebanho e co-participantes do esforço coletivo de provimento das condições de sobrevivência e de crescimento de sua sociedade. Cada indivíduo sabe fazer o mesmo que qualquer outro; dedica-se a tarefas idênticas - exceto os papéis já diversificados de chefes e sacerdotes -, convivendo em um pequeno mundo social em que todos os adultos se conhecem e se tratam pessoal e igualitariamente.



II  Esquema - 2ª Revolução Tecnológica: Revolução Urbana


(Egito, Mesopotâmia:4.000 AC; Índia:2.800 AC; Palestina: 1.000 AC; Atenas: 600 AC; Rússia:1.000 AC)


Sistema tecnológico

* Técnicas rudimentares de irrigação e adubagem do solo propiciam colheitas cada vez mais fartas, gerando excedentes que vão desligar pessoas em número cada vez maior das atividades de subsistência.


Sistema associativo 


* Estados Rurais Artesanais: 

- De modelo privatista 

. propriedade privada (terra, escravos) 
. poder patronal (exploração econômica) 

- De modelo coletivista 

. propriedade nominal da terra (rei) 
. poder patricial (funções técnico-burocráticas) 
. vassalagem. 


* Estratificação Social: 

- Camadas parasitárias apropriadoras dos excedentes X produtores (alienação) 


* Escravagismo que afeta:

- povos dominadores: senhores x escravos x trabalhadores 
- povos dominados: instrumentos de produção.


* Propriedade Individual de Bens: agentes da produção (animais, escravos) e TERRA.


* Institucionalização do poder político: 

- Estado: Senhores vão exercer seu domínio não apenas sobre seus escravos mas sobre a sociedade inteira a fim de conservar e ampliar seus privilégios.


Sistema ideológico


* Cidade: (10% a 20% da população)

- Centro do Poder
- Estilo de vida voltado para o lucro, competição, poderio, riqueza - complexo de superioridade


* Campo : (80% a 90% da população)

- Disciplina, tradição, rotina, laços de solidariedade e parentesco


* Força de Coesão Social:

-Velhas tradições religiosas foram redefinidas para legitimar a ordem social estabelecida, para conformar os pobres com sua pobreza e com a riqueza dos ricos, permitindo encontrar gosto e satisfação no viver tão contrastante.


* Conclusão:

- Promessa de libertação e fartura. Mas... (representou para a maioria) escravidão e vassalagem até então desconhecidas! 


Texto  -  2ª Revolução Tecnológica Urbana 

 

(Egito, Mesopotâmia:4.000 AC; Índia:2.800 AC; Palestina: 1.000 AC; Atenas: 600 AC; Rússia:1.000 AC) 

 
Com o desenvolvimento da Revolução Agrícola, algumas sociedades foram acumulando inovações tecnológicas que ampliaram progressivamente a eficácia produtiva do trabalho humano, provocando alterações institucionais nos modos de relação entre os homens para a produção e nas formas de distribuição dos produtos do trabalho.

Essas sociedades aumentaram o número de plantas cultivadas, aprimoraram as qualidades genéticas destas e revolucionaram suas técnicas agrícolas com a adoção de métodos de trabalho e de instrumental mais eficazes para o preparo do solo destinado às lavouras, transporte e estocagem das safras. Algumas sociedades de economia pastoril ou mista também alcançaram os mesmos resultados mediante a seleção genética dos rebanhos e a especialização do criatório para obter animais de montaria e de tração ou para o provimento de carne, de leite e de lã.

As inovações mais importantes da Revolução Urbana consistem, porém, na descoberta das técnicas ainda incipientes de irrigação e de adubagem do solo que, controlando os dois fatores essenciais da produtividade agrícola, asseguram colheitas cada vez mais fartas. Outras inovações fundamentais foram: a generalização do uso do arado e de veículos de roda, ambos de tração animal, bem como de barcos à vela capacitados para a navegação costeira.

Com base em diferentes combinações dessa tecnologia diversos povos revolucionam sua capacidade de produção de alimentos, ensejando o advento das primeiras cidades e, nelas, de novas técnicas de fabrico de tijolos e ladrilhos, a arte da vidraria, a metalurgia do cobre e do bronze, os silos, a escrituração ideográfica, a numeração, o calendário e, por fim, a arquitetura monumental.

As sociedades vanguardeiras dessa revolução tecnológica, ampliando a capacidade de produção de cada lavrador, passaram a contar com excedentes de alimentos que permitiram desligar um número cada vez maior de pessoas das atividades de subsistência. Ensejou-se, desse modo, o surgimento de formas mais complexas de divisão social do trabalho através da especialização artesanal e do comércio, tanto interno como externo, entre lavradores e pastores.

Dentro de algumas dessas sociedades de tecnologia avançada, os prisioneiros de guerra já não são sacrificados nos cerimoniais de antropofagia ritual, mas apresados como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo. A presença de escravos tomados a outros povos e despersonalizados para serem possuídos como instrumentos de produção afeta profundamente todo o modo de vida dessas sociedades, que deixam de ser igualitárias, ao mesmo tempo em que se transformam em comunidades multiétnicas caracterizadas pela polarização de escravos em contraposição a senhores e em competição com os trabalhadores livres.

Surgem as classes sociais, diferenciando os produtores das camadas parasitárias de apropriadores dos excedentes produzidos. Estas se concentram, de preferência, nas vilas que começam a configurar-se como cidades, atuando como exatores de impostos ou como intermediários entre os setores já diferenciados de lavradores e pastores ou entre todos eles e os artesãos. Também estes, à medida que se especializam no fabrico de instrumentos de trabalho, de objetos de uso comum e de bens supérfluos, tendem a abandonar as atividades de subsistência alimentar e, por isso, a se concentrarem nas cidades nascentes.

Em algumas sociedades, a propriedade individual de bens, circunscrita originariamente aos produtos do trabalho de cada indivíduo ou de cada família, se estende, progressivamente, com o aumento da capacidade produtiva, até fazer-se o principal sistema de ordenação da vida social. Acaba por abranger os próprios agentes da produção os animais de tração, os trabalhadores escravizados e, finalmente, a condição básica da produção agrícola, que é a terra.

Em outras sociedades, preservam-se as formas coletivas de propriedade, geralmente em associação com o desenvolvimento de técnicas novas, como o regadio, e a criação de instituições extrafamiliares reguladoras das atividades produtivas e de integração do artesanato com a agricultura em comunidades auto-suficientes. Nesses casos, a estrutura social pode evoluir para formas mais altas de comunitarismo.

Com base nessa diferenciação configuram-se dois modelos de sociedades: as regidas por princípios coletivistas, fundados na propriedade coletiva ou estatal da terra e em procedimentos não escravistas e as regidas por princípios privatistas, principalmente a propriedade privada e a escravização da força de trabalho. Essas linhas diferenciadoras devem ser classificadas como dois processos civilizatórios: estados rurais artesanais de modelo coletivista e estados rurais artesanais de modelo privatista.Com o alargamento das camadas servis e dos estratos correspondentes de amos liberados da obrigação de trabalhar, surge um modo peculiar de vida, sustentado por novos valores, não mais assentados na virilidade ou na operosidade, mas na riqueza ou no poder. Aos poucos, esses novos estratos se configuram como uma camada senhorial tendente a exercer domínio não apenas sobre seus escravos, mas sobre a sociedade inteira, a fim de preservar e ampliar sua condição privilegiada.

Um dos desafios principais com que se defrontaram essas primeiras sociedades estratificadas consistiu na necessidade de desenvolver princípios integradores capazes de dar unidade social e coesão moral a suas populações divididas em estratos sociais profundamente diferenciados e contrapostos, a fim de torná-las entidades políticas unificadas e operativas. A fonte básica dessa coesão foi encontrada nas velhas tradições religiosas, que para isso tiveram de ser redefinidas. a fim de resignar o pobre com sua pobreza e também com a riqueza dos ricos, a todos permitindo viver e interagir e encontrar gosto e significação para suas existências tão contrastantes.

Os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas tentando fixá-la para todos os tempos. Esse caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas nas divindades a que eram atribuídas.

Os xamãs convertem-se, assim, em sacerdotes e, para atender às novas funções, organizam-se em corpos burocráticos e institucionalizam em igrejas a antiga religiosidade co-participada. Estas se tornam, em seguida, as principais agências de ordenação da sociedade a partir de centros cerimoniais construídos com crescente magnificência.

Os dois modelos básicos de estados rurais artesanais configuram-se com o surgimento de unidades políticas supra-comunitárias, como centros de poder instalados em cidades que dominam populações rurais muito maiores que elas (80 a 90% da população total). Estas têm sua vida disciplinada por uma tradição milenar e não experimentam as alterações radicais que se desencadearam sobre as populações citadinas. Nelas, as unidades familiais e a solidariedade fundada no parentesco continuam representando o papel de princípios ordenadores da vida social; a existência permanece rotineira, marcada apenas pelo suceder das estações, cada uma das quais as obriga a reiterar as mesmas atividades. Homens e mulheres trabalham, sucessivamente, na lavoura, na criação de animais domésticos e nas indústrias caseiras de fabricação de artefatos. Há pouca margem para a especialização, já que todos conhecem as técnicas produtivas básicas, não obstante atribuídas segundo linhas de sexo e de idade. Tampouco há lugar para a competição aberta ou para o espírito aventureiro e renovador. O que prevalece é antes um profundo sentimento de que a vida é sempre igual, de que a tradição contém todo o saber, de que os bens terrenos são limitados. Ante as populações das cidades, desenvolvem um arraigado sentimento de aversão, fundado na idéia de que os citadinos são incapazes de dedicar-se a um trabalho verdadeiro, vivem da exploração dos camponeses e são os culpados das desgraças desencadeadas sobre o mundo rural, como as guerras e as pestes. Nas cidades nascentes começa um estilo de vida voltado para o futuro, pleno de elã expansionista e de ambição, informado por um saber explícito que, conquanto deificador da tradição, permite o cultivo de certo espírito de indagação. Uma mobilidade social maior estimula a competição pelo controle das fontes de riqueza, de poder e prestígio, entendidas todas elas de modo mais objetivo e enfrentadas de forma prática e combativa.

Como se vê, a Revolução Urbana não apenas aprofundou as diferenças entre os modos de vida agrícola e pastoril, mas também os contrapôs um ao outro, da maneira mais drástica.

O exercício das funções de poder instituidor e mantenedor da ordem social interna e de poder promotor do expansionismo étnico conduz o Estado a ampliar incessantemente seus serviços administrativos, de controle social, de repressão e de guerra. Para custeá-los, introduz tributos que consomem parcelas cada vez maiores da produção, ao mesmo tempo em que absorve massas crescentes de pessoas em atividades não produtivas, como a guerra, as edificações suntuárias e a burocracia. Simultaneamente, o Estado passa a assumir novas funções, antes exercidas por outros órgãos. A justiça deixa de ser matéria privativa da família ou do clã para se tomar atribuição de especialistas. A tranqüilidade social se torna, por igual, objeto das polícias estatais. Por fim, a atividade guerreira, outrora obrigação de todos os homens, passa a ser cumprida por chefes especializados e tropas permanentes mobilizáveis não só contra inimigos externos, mas, também, contra as ameaças de sublevação das classes subalternas.

Vemos, assim, que os progressos da Revolução Urbana, embora potencialmente mais libertários pela promessa de fartura com que acenavam, representaram para a maior parte das populações humanas a condenação à escravidão ou à vassalagem, desconhecidas antes.

Nos dez milênios em que vem atuando a Revolução Agrícola, e nos 6 mil anos que já dura a Revolução Urbana, elas acabaram por afetar todos os povos. Mesmo os grupos marginais que resistem, ainda hoje, à integração nos estilos de vida por elas criados, sofreram profundamente seus efeitos reflexos.



III  Esquema -  3ª revolução tecnológica:  Do Regadio


(Mesopotâmia - 2350 AC; Egito -  2070 AC; Asteca, Inca - 1250 AC)



Sistema tecnológico


* Agricultura de regadio: Engenharia Hidráulica

* Excedentes Alimentares: " Massas humanas aliciadas" (obras faraônicas, guerras etc.)


Sistema associativo


* Impérios Teocráticos do Regadio: 

- Apropriação das terras pelo Estado Teocrático 
- Sistemas administrativos de controle da força de trabalho 
- Estratificação social: Rei = divindade x Nobreza, sacerdotes x Guerreiros, Artesãos x servos, escravos


Sistema ideológico


* Estado-Igreja (entidade política monolítica e todo-poderosa, detentora do saber técnico, escrita, matemática, astronomia etc.)


* Tendências dissociativas: 

- Custo econômico das camadas parasitárias e gastos suntuários nos atos de fé 
- Militarismo. 
  


Texto  -  3ª  Revolução Tecnológica do Regadio 

 
A Revolução do Regadio, que provê as bases tecnológicas dos impérios teocráticos de regadio, que surgem primeiro na Mesopotâmia, com os impérios Acádio (2350 a. C.) e Babilônico (1800 a. C.); no Egito, na Índia, na China, na Indochina. Mais tarde, estruturam-se nas Américas com os maias (300 E. C.) e, finalmente, com os incas e os astecas, que o conquistador espanhol ainda encontrou pujantes e rapidamente esmagou. O Japão emerge também para a civilização no corpo de uma formação teocrática de regadio, inspirada no modelo chinês.

Seus requisitos tecnológicos. institucional e ideológicos, que se vinham acumulando, havia muito, nos estados rurais artesanais de modelo coletivista. configuram-se plenamente como civilizações baseadas na agricultura de regadio, através de complexos sistemas de comportas e canais, regidos por centros urbanos que, a seguir, se tornariam metropolitanos, como cabeças de extensas redes de cidades.

Algumas dessas civilizações brotaram da gestação de descobrimentos técnicos e institucionais desenvolvidos depois da sedentarização das comunidades agrícolas e de sua estruturação em sociedades estratificadas. Dentre eles tiveram papel decisivo os sistemas de engenharia hidráulica. que abriram novos horizontes à agricultura irrigada e adubada, dirigidos por governos centralizados, que propiciaram um prodigioso acréscimo da produtividade das áreas cultivadas, com o aumento correspondente dos excedentes alimentares. Essas disponibilidades não somente ensejaram novos ascensos demográficos, mas permitiram a manutenção de grandes massas desobrigadas das atividades de subsistência, aliciáveis para outras tarefas, que variavam desde a construção de grandes obras hidráulicas necessárias à irrigação em alta escala até a edificação de obras faraônicas e as guerras de conquista. Suas contribuições tecnológicas fundamentais, além da engenharia hidráulica, em que se assentava a agricultura de regadio em alta escala, foram a generalização da metalurgia do cobre e do bronze e a cerâmica, a invenção dos azulejos, de novas técnicas e novos materiais de construção, de novos procedimentos baseados na polia, na prensa e nos cabrestantes e, ainda, o desenvolvimento da escrita ideográfica e da notação numérica. Essas invenções, em combinação com outros elementos, conduziriam algumas sociedades humanas a avanços revolucionários, na linha da aceleração evolutiva, e, em outras, provocariam as mais profundas alterações reflexas, por via da atualização histórica.

O provimento das matérias-primas, sobretudo minérios, tornadas indispensáveis, levou os impérios teocráticos de regadio a melhorar as técnicas de transporte por terra e por mar e impôs vínculos externos, em que se combinavam e alternavam a guerra e o comércio. As manufaturas instaladas no campo e nas cidades se padronizaram e, em alguns casos, se orientaram para a produção mercantil. Onde a metalurgia se difundiu mais amplamente, a guerra passou a fazer-se com armas de metal e com carros de rodas reforçadas. O comércio, exigindo formas mais elevadas de troca, ensejou o surgimento, em certas áreas, da moeda metálica.

 

Impérios Teocráticos de Regadio 

(Théos = deus; kratein = governar)

No plano sócio-político, essa nova formação caracterizou-se pelo poderio alcançado pela organização estatal, grandemente centralizada e poderosamente integradora de todas as forças de compulsão social, o que não ensejava qualquer oposição de interesses que lhe fosse inibitória. Tal concentração de forças foi atingida pela unificação, dentro de uma mesma entidade, dos controles políticos e militares, bem como da capacidade reguladora e integradora da religião, e, ainda, pela monopolização das atividades produtivas e comerciais. Por esse motivo, em tais formações não surgem igrejas independentes, nem empresariados privatistas que se oponham ao poder central. Ao contrário, todos se unificam nele, cada qual contribuindo com elementos de integração e fortalecimento do seu domínio.

Armados desse poder monolítico, os impérios teocráticos de regadio se capacitam a alargar as bases de sua economia interna através da ampliação portentosa dos sistemas de irrigação e de defesa contra inundações e da construção de enormes obras hidráulicas, a fomentar o crescimento das cidades através de programas de urbanização e da construção de aquedutos, diques e portos e, ainda, a edificar gigantescos templos, palácios e sepulcros, bem como amplíssimas redes de caminhos, monumentais muralhas defensivas e enormes canais de navegação.

A base econômica dessas estruturas imperiais era a apropriação das terras cultiváveis pelo Estado teocrático e o desenvolvimento de complexos sistemas administrativos de controle da força de trabalho.

A primeira condição foi alcançada mediante a atribuição ao faraó, ao inca ou seu equivalente, enquanto divindade viva, da propriedade nominal de todas as terras. Isso permitiria intervir na rotina de trabalho dos camponeses e regular a sucessão hereditária, de modo a fomentar a produtividade e criar procedimentos regulares de apropriação, depósito e distribuição dos excedentes. Dentro desse sistema, as terras de cultivo permaneceram entregues em usufruto às comunidades locais, sem a intermediação de proprietários individuais. Mas se conseguiu romper com a auto-suficiência das aldeias camponesas e transformá-las em parcelas ativas de um sistema econômico global.

A segunda condição foi preenchida com a criação de formas complexas de controle da totalidade da força de trabalho e de sua direção na realização de grandes obras através de um vasto corpo sacerdotal, tendente a estruturar-se como uma burocracia gerencial. A envergadura dos empreendimentos estatais e a complexidade técnica dos mesmos obrigaram esse corpo burocrático a especializar-se e, em certa medida, a secularizar-se, de modo a capacitar o pessoal necessário ao planejamento e à direção das obras de engenharia hidráulica, rodoviária e construtiva, à implantação de sistemas uniformes de pesos e medidas, de tributação, de medição e alocação de terras de cultivo, de recolhimento de excedentes de alimentos e sua distribuição, à criação de procedimentos contábeis de registro de bens e de sistemas de constrição e capatazia da mão-de-obra, ao exercício monopolístico do comércio exterior para o suprimento de certas matérias-primas, como minérios, madeiras e sal, além da implantação de instituições educacionais de transmissão formal do saber tradicional e também do técnico-científico.

Esse desenvolvimento organizacional fez crescer, ao lado da nobreza hereditária e dos corpos sacerdotais que originalmente se haviam incumbido dessas tarefas, um vasto corpo de servidores do Estado. Seu recrutamento, que de início devia proceder-se pela seleção de talentos, tendeu, depois, a circunscrever-se ao mesmo círculo social, em virtude da atuação de dois fatores: primeiro, a necessidade imperativa de capacitação dos corpos técnico-burocráticos através da educação formal; segundo, os impulsos de defesa dos privilégios e direitos adquiridos por parte das camadas dominantes. A burocracia foi-se fazendo, assim, uma casta, pela sucessão dos filhos aos pais nos mesmos postos, mediante o adestramento seletivo e a crescente vinculação com a nobreza e com o clero, bem como pela oposição de interesses entre todos esses estratos e o conjunto da população.
Um outro elemento organizacional dos impérios teocráticos de regadio foi a profissionalização de uma camada guerreira tornada indispensável para compensar a debilidade combativa das populações agrícolas sedentarizadas e, sobretudo, a vulnerabilidade dos sistemas de irrigação em face de ataques externos.

Nos impérios teocráticos de regadio, o camponês, permanecendo, embora, jungido à terra e obrigado a sofrer a extorsão dos excedentes que produzia, só encontrava acima dele, como estrutura dominante, a própria comunidade solidária dentro da qual vivia, e, num segundo plano, a burocracia real, representada por agentes apropriadores dos excedentes de produção, através da cobrança de tributos ou formas similares de captação de bens e de imposição de serviços forçados. Entretanto, mesmo essas formas de apropriação e de constrição encontravam certa justificativa social, porque não se destinavam ao enriquecimento de um senhor, mas, em grande parte, ao custeio de serviços públicos fundamentais, a cargo do poder central, como a construção e manutenção dos enormes sistemas de irrigação, de barragens e canais, da rede de transportes, da produção de instrumentos de trabalho, do comércio de matérias-primas e da guerra.

Mesmo quando aliciados para a edificação de obras faraônicas, como os templos e as pirâmides, o camponês e o artesão estavam contribuindo para o culto a valores, crenças e glórias que também para eles tinham sentido. Os próprios cativos trazidos de terras longínquas para trabalhar nessas obras podiam viver juntos, criar seus filhos e preservar a língua e os costumes que fossem compatíveis com a nova vida. O cativeiro dos judeus no Egito mostra-nos que essas massas avassaladas não se inseriam no sistema como propriedade de senhorios individuais, mas como povos vencidos e subjugados a um poder estatal que poderia libertá-los amanhã ou fixá-los em novas terras e assim integrá-los etnicamente como parte do campesinato e dos corpos de artesãos e soldados da macroetnia imperial. Todavia, a situação dos cativos concentrados nas minas e nas edificações ciclópicas, ainda que distinta do escravismo individual, era a da sujeição mais despótica.

O aliciamento dessas grandes massas humanas para o trabalho produtivo deve ter sido facilitado pelo próprio caráter do Estado-Igreja, polarizado em tomo de reis-divindades que outorgavam ao clero uma soma extraordinária de funções sociais, políticas e econômicas e atuavam em nome dos valores mais transcendentes. Com base na autoridade de porta-vozes de uma regência sagrada, os sacerdotes podiam compelir as massas trabalhadoras a produzir excedentes, ao pagamento de tributos e ao provimento de mão-de-obra para grandes empreendimentos públicos, com maior eficácia do que qualquer outro setor da sociedade.

Um exemplo do desenvolvimento extremo dessa atribuição aliciadora e coordenadora dão-nos os templos egípcios. Um deles, ao tempo de Ramsés III (1198-67 a.C.), atuou como uma vastíssima empresa financiadora e administradora de um enorme patrimônio produtivo. Contava com 750 mil acres de terras cultiváveis, 107 mil cativos engajados no trabalho, 500 mil cabeças de gado e uma frota de 88 navios, além de 53 fábricas e estaleiros. A esse papel econômico dentro do sistema egípcio, a Igreja acrescia outras funções gerais, como as de reguladora da vida social através de corpos de normas que atingiam todo indivíduo. Ela é que prescrevia e celebrava os ritos que marcavam sua existência, do nascimento à morte e para além dela, e que compunha e executava o calendário de atividades religiosas e produtivas. Era ainda ela que dirigia as instituições educativas que preparavam seu próprio corpo sacerdotal e os quadros superiores dos outros estratos dominantes. Somando a seu poderio econômico e às suas funções reguladoras o seu caráter de intermediária entre o mundo dos vivos e as forças sobrenaturais, a Igreja alcançava um extraordinário poder de compulsão e de disciplinamento. Fundida com o Estado, formava uma entidade política monolítica e todo-poderosa.

O aspecto mais negativo dessa forma de ordenação da sociedade era o seu custo, representado pela manutenção do corpo sacerdotal parasitário, a edificação de templos e, sobretudo, das tumbas reais, que absorviam a parcela maior do excedente produzido pela sociedade inteira. Avalia-se que a edificação da pirâmide de Quéops tenha ocupado 100 mil trabalhadores durante cerca de vinte anos. Sua alimentação e vestimenta, mesmo no padrão mais baixo, ao nível do desenvolvimento tecnológico egípcio. devem ter absorvido a capacidade de produção de excedentes de cerca de 3 milhões de camponeses.

Nessas grandes metrópoles cosmopolitas. as camadas diferenciadas de intelectuais - quase sempre sacerdotes - acrescentam à cultura societária, já bipartida num patrimônio rural e outro citadino, um conteúdo novo, de caráter erudito, mais especulativo e já capaz de desenvolver um corpo de conhecimentos explícitos distinto do saber vulgar, transmitido oralmente entre a população comum. Por seus esforços desenvolveram-se a escrita, as matemáticas, a astronomia, bem como, pela fusão do saber erudito com as técnicas correntes de produção, a arquitetura monumental, o aprimoramento da metalurgia do cobre e do bronze e, mais tarde, do ferro. Os artefatos de metal, que já eram um progresso em si - espadas, pontas de arado, ferragens de rodas e eixos -, passando a ser utilizados como ferramentas, possibilitam a fabricação de todo um complexo de bens materiais, como as pirâmides, os templos, os palácios, as casas, os barcos, os moinhos etc.

Duas tendências dissociativas manifestam-se, porém, nessas formações. Primeiro, o custo econômico da vasta camada parasitária, tendente a ampliar-se e a enriquecer pela acumulação de regalias, na forma de concessões de terras e de trabalhadores para exploração privada ou de atribuição a indivíduos do monopólio de certas atividades econômicas, sobretudo as comerciais, e, ainda, o crescimento dos gastos suntuários nos atos de fé, como a construção de templos e pirâmides. Segundo, o desenvolvimento do militarismo, que fortaleceu um componente societário capaz de impor sua hegemonia sobre os demais e tendeu a deformar o sistema econômico pela expansão do poderio imperial sobre áreas não exploráveis pela tecnologia do regadio, mas cuja posse era cobiçada pela existência de minérios ou para provimento de mão-de-obra cativa ou de tributos.

Assim é que, uma vez atingido certo nível de desenvolvimento e de exploração do seu contexto, essas formações monolíticas caíam todas em regressões feudais. Para tanto contribuíram ainda vários outros fatores, como o esgotamento das potencialidades da tecnologia de regadio sobre terras superexploradas, o desestímulo de empreender inovações técnicas em virtude da disponibilidade quase ilimitada de mão-de-obra e a carência de inquietações intelectuais ou o seu cerceamento pelo peso das tradições religiosas estatizadas, que faziam da intelectualidade um corpo de guardiões do saber sacramentado, só muito raramente capaz de criatividade.



IV Esquema  -  4ª Revolução Tecnológica: Metalúrgica


(Gregos: século V a VI AC; Romanos século I AC a IV DC)



Sistema tecnológico


* Metalurgia do ferro forjado (ferramentas, armas, embarcações etc.)

* Agricultura dependente das chuvas


Sistema associativo


* Impérios Mercantis Escravistas

* Economia mercantil por terra e mar

* Da subsistência à troca

* Manufaturas (serrarias, curtumes, ergasterions  etc.)

* Ordenação social radical

* Roma, Atenas - 4/5 de escravos;

- Comerciantes e proprietários de terras e escravos de um lado e
- Escravos de outro


Sistema ideológico


* Competição pelo enriquecimento estimulada pela economia do dinheiro

* Secularização, usura,

* Escravização por dívida

* Estado a serviço do empresariado

* Minoria rica cada vez mais rica e massas cada vez mais miseráveis

* Consequência: Feudalismo


Texto  -  4ª Revolução Tecnológica Metalúrgica


A expansão dos impérios teocráticos de regadio se viu restringida por uma limitação essencial: a inviabilidade de generalizar a irrigação sobre as áreas conquistadas, em virtude das exigências ecológicas que lhe são inerentes. Entretanto, a tecnologia desenvolvida pelos impérios teocráticos de regadio, uma vez aprimorada e aplicada a sistemas produtivos novos, pôde florescer e expandir-se amplamente, atingindo extensas áreas e revolucionando o modo de vida de inúmeros povos. Foi uma nova revolução tecnológica, a Metalúrgica, responsável pela configuração de uma nova formação sócio-cultural: os impérios mercantis escravistas.Sua base tecnológica consistiu, essencialmente, na generalização e no aprimoramento da metalurgia, do ferro forjado para a fabricação de ferramentas, armas, machados, pontas de arado, rodas e eixos e partes metálicas de embarcações, e ainda da moeda cunhada, dos carros de transporte e de guerra, dos barcos mercantes e de guerra. do alfabeto fonético e da numeração decimal. A esses elementos. tomados de outras formações e transfigurados pela nova, ele acrescentou máquinas hidráulicas, moinhos movidos à água, o aqueduto, a nora, a mó rotativa, cabrestantes e gruas, bem como os faróis marítimos.

 

Os Impérios Mercantis Escravistas


Os impérios mercantis escravistas, como desenvolvimentos dos estados rurais artesanais de modelo privatista, caracterizam-se pela institucionalização da propriedade individual da terra, pelo incentivo à liberdade de comércio e pela mais ampla generalização do apresamento de prisioneiros de guerra para convertê-los em escravos pertencentes a senhorios individuais. São modelos característicos dessa formação. em sua maturidade, a civilização assíria (séculos XII a VII a. C.), a helênica (séculos V a I a. C.), a cartaginesa (séculos VII a II a. C.), a romana (séculos I a.C. a IV de nossa era) e a bizantina (séculos VI a X de nossa era). Todas essas civilizações são, porém, variantes de uma mesma formação sócio-cultural, fundada na escravidão da maior parte da mão-de-obra e no fomento do colonialismo mercantil.

. Com a técnica do ferro forjado, que se podia produzir em qualquer parte pela ampla distribuição do minério e a simplicidade do processo produtivo, generalizam-se os instrumentos de metal. Torna-se com isso possível abater as florestas para abrir extensas áreas de cultivo dependentes das chuvas, menos produtivas por unidade-área do que a agricultura de regadio, mas passíveis de expandir-se por amplíssimas regiões. Os mesmos efeitos foram alcançados no aprimoramento dos veleiros marítimos e dos carros de transporte e de guerra. A escrita fonética, facilitando a alfabetização, permitiu recrutar uma intelectualidade numerosa e independente do sacerdócio, ensejando a ampliação de todos os conhecimentos. A moeda cunhada, dando lugar à economia do dinheiro, alargou extraordinariamente os horizontes do comércio externo. Todos esses desenvolvimentos associados criaram um tipo de sociedade mais livre, que estimulava façanhas individuais, ensejando, aos tipos empreendedores, amplas oportunidades de enriquecimento.

O principal incentivador desse processo foi a economia mercantil que, por terra e por mar, vinculava centenas de comunidades, levando a cada uma delas as necessárias transformações internas para saltar da produção de subsistência para a produção de artigos de troca. Nas principais cidades de cada império mercantil escravista multiplicam-se as manufaturas organizadas como ergasterions, serrarias, carpintarias e marcenarias; estaleiros, metalúrgicas e caldeirarias; olarias e cerâmicas; vidrarias, curtumes, e oficinas de ourives, seleiros, correeiros, sapateiros, onde dezenas e até centenas de artesãos, na sua maioria escravos, produziam artigos padronizados para comércio.Expressões superiores dessa formação seriam alcançadas com a civilização grega, a expansão colonialista cartaginesa e, sobretudo, o Império Romano. Estas últimas, começando pela ampliação e multiplicação de cidades-estados regidas por patronatos de comerciantes, proprietários de terras agrícolas e de escravos, acabaram por estruturar-se em vastos sistemas unificados pela guerra e integrados pelo comércio. Após largos períodos de amadurecimento como cidades dominadoras dos territórios rurais circunvizinhos, fundadas na igualdade de sua camada patrícia, todas elas se entregaram ativamente à fundação de colônias externas, na Europa e na África. Aí concentraram mão-de-obra escrava apresada na guerra, instaurando os primeiros ergasterions e plantations destinados a produzir alimentos e manufaturas para exportação. Configurou-se, assim, um mercado internacional ativado por uma economia monetária e uma cultura erudita que se desenvolveram simultaneamente em várias cidades. O passo seguinte foi a disputa entre essas cidades-estados por áreas externas de dominação, que abriu o caminho para a constituição dos impérios mercantis escravistas.

O caráter mercantil escravista do novo sistema econômico, conduzindo a uma radicalização das formas de ordenação social, levou ao extremo as guerras de conquista e apresamento de escravos para prover mão-de-obra, bem como a competição interna pelo enriquecimento, estimulada pela economia de dinheiro. Em Atenas e em Roma, as massas de escravos alcançaram quatro quintas partes da população, e concentrações e percentagens ainda maiores nas colônias externas, distribuídas por todo o contorno europeu e africano do Mediterrâneo (G. Childe, 1946; K. Marx, 1966).

A racionalização dos procedimentos econômicos alcança, também, desenvolvimentos assimiláveis, liquidando com as sobrevivências das formas comunais de propriedade (ager publicus) e com as últimas instituições reguladoras fundadas no parentesco. Este, de classificatório - que designava os parentes colaterais e lineares com os mesmos nomes, formando grandes categorias de pessoas solidárias -, transforma-se em descritivo, que distingue com termos especiais os parentes lineares, restringindo a este o âmbito da solidariedade familiar e da herança. Mais tarde, dão-se novos passos nesse caminho de racionalização da conduta, através da secularização de uma série de setores antes regidos por critérios religiosos e da individualização das relações sociais. Institucionaliza-se a usura, cria-se a hipoteca sobre a terra e com ela a escravização por dívida; legaliza-se o regime de herança de bens através de testamento. Por fim, o empresariado se toma hegemônico em todos os setores, colocando os poderes do Estado a seu serviço.

A minoria rica torna-se cada vez mais poderosa, e as massas subalternas, livres ou escravas, cada vez mais miseráveis, agravando as tensões sociais até limites extremos. Legaliza-se o direito de o cidadão vender-se a si próprio e aos filhos, o que vem a ocorrer com certa freqüência nos períodos de penúria; generaliza-se a prática de submeter os devedores à servidão temporária e até mesmo a do apresamento de cidadãos da mesma etnia, nas guerras entre cidades, para fazê-los servir como escravos. Simultaneamente, escravos libertos, enriquecidos no comércio especulativo, se fazem senhores, estabelecendo como critério de qualificação social, acima da condição de plebeus ou de cidadãos, a condição de ricos e pobres. A cidadania, que fora uma função pública geral que fazia de todos os patrícios co-governadores de sua cidade, responsáveis pela justa condução da vida social e política, se dilui, tornando-se uma condição generalizada e irresponsável. A cidadania romana, antes limitada aos descendentes das antigas linhagens, generaliza-se a toda a camada não servil. Nessas novas condições, intensificam-se as tensões sociais e as disputas entre cidades-estados que se haviam aglutinado em impérios, até que o último deles, superestendido a ponto de cobrir todas as terras conhecidas, esgota as potencialidades do sistema.

Na derrocada dos impérios mercantis escravistas tiveram papel detonador da maior importância certas chefias pastoris nômades, parcialmente herdeiras da Revolução Urbana, que, em virtude de condições especiais - ecológicas e culturais -, se fizeram produtoras e consumidoras de instrumental metálico sem se fazerem agricultores sedentários. Nessas condições não perderam suas antigas qualidades guerreiras; pelo contrário, ativaram-nas até níveis extremos de audácia e combatividade.

Esses povos extra-imperiais, etnicamente coesos em torno de suas chefias, e irresistivelmente atraídos pelas riquezas acumuladas pelos povos cêntricos, é que deram o golpe de misericórdia na velha formação mercantil escravista, exausta de sua civilização, incapaz de novas crenças integradoras, com suas massas dependentes de escravos e de camponeses livres rebelados contra a sujeição despótica a que eram submetidos.

Aqui também, a desvinculação entre as classes subalternas e os estratos dominantes contribuiu para tomar a sociedade incapaz de defesa. Na Europa, toda a soberbia romana desaba diante da audácia de um punhado de bárbaros que, somando menos de meio milhão, assolaram, venceram e avassalaram 80 a 100 milhões de europeus e africanos romanizados. Esses bárbaros, nada tendo a dar à civilização dos povos que dominaram, porque sua vitória só se baseava em serem Herrenvölker, acabaram por inserir-se no que restava da velha formação. Seus chefes se fizeram as aristocracias e realezas das antigas províncias imperiais; seus guerreiros transformaram-se em massas sedentarizadas de camponeses ou em novos contingentes de artesãos citadinos. Muitos deles se romanizaram lingüisticamente e todos se romanizaram culturalmente.

Os antigos escravos se convertem em colonus, pagadores de foro pelo uso da terra e, finalmente, confluem para constituir o campesinato feudal, transformados todos em servos de senhorios locais ou em artesãos citadinos amparados por corporações. Essa transição do escravismo à servidão opera-se menos como uma evolução resultante da luta dos escravos contra seus senhores do que em virtude da deterioração do sistema econômico anterior, em que os escravos representavam papel fundamental como produtores de bens para o comércio. Na realidade, troca-se o escravo, que já não produz mercadorias vendáveis e deve ser alimentado e vestido, por servos atados à terra, que pagam tributos em bens ou em trabalho e se mantêm a si mesmos. Acresce, ainda, que a escravaria, desgastando-se rapidamente no trabalho, exige uma reposição constante através de guerras de conquista, impraticáveis na economia fechada de senhorios isolados.

Na cúpula situa-se a nobreza de sangue dos descendentes de invasores bárbaros, transformados em proprietários de feudos. Como seus servidores mais destacados seguem-se o clero e os vassalos, de onde se recrutam os corpos de cavaleiros senhoriais mais predispostos a prélios desportivos do que a guerras. Abaixo, encontra-se a população urbana, de pequenos mercadores e artesãos, estes últimos segmentados em mestres, oficiais e aprendizes, divididos por ofícios e dedicados à produção para um comércio local de trocas. Na base da pirâmide social situam-se os camponeses, presos à gleba, como servos ou dependentes O sistema econômico passa a atuar para manter e reproduzir essa mesma composição social, regida por um corpo de instituições destinadas a perpetuá-la.

Nesse mundo feudal, agitado apenas por novas invasões, como as muçulmanas, por guerras religiosas e por disputas entre nobres, acaba por implantar-se a paz da estagnação. A velha civilização romana que nele se dissolvera transforma-se numa mera tradição, tal como havia ocorrido antes com os impérios teocráticos de regadio quando caíram, também, em regressão feudal. Sua única força integradora será, de então por diante, uma religião herdada de um dos povos do contexto imperial romano que, no esforço por explicar o drama de sua própria dominação, redefiniria suas concepções tribais, fazendo-as mais inclusivas.

Assim, um grupo minoritário, detentor de uma fé consoladora de suas aflições, que não reconhecia privilégios étnicos nem graduações sociais, mas era capaz de falar aos homens de uma destinação mais nobre que a mera existência, se faz herdeiro do mundo greco-romano feudalizado, tal como outras minorias religiosas os budistas, os confucionistas e os hinduístas - alcançam a mesma dominância sobre diferentes contextos igualmente submersos no feudalismo.

A Igreja Católica converte-se paulatinamente na grande monopolizadora da vida econômica, organizada já não como um sistema mercantil, mas como um duplo sistema de apropriação dos poucos excedentes gerados, mediante a cobrança de dízimos e a obtenção de legados e doações, e a distribuição desses bens na “política de misericórdia" e na edificação de catedrais que vieram a ser, depois dos grandes castelos do feudalismo nascente, as únicas criações arquitetônicas da Idade Média. Sua riqueza cresce sem cessar pela monopolização das terras e dos rebanhos, pela ampliação das áreas de cultivo em poder das terras e dos rebanhos, pela ampliação das áreas de cultivo em poder das abadias, pela gerência das únicas obras capazes de proporcionar empregos e pela rapacidade dos mosteiros e das ordens religiosas. Simultaneamente, vai-se constituindo na grande força ordenadora da vida social, fundada agora não no igualitarismo do cristianismo primitivo. mas numa rígida estamentação social e no culto do conformismo, da disciplina e da obediência.



V  Esquema  -  5ª Revolução Tecnológica: Pastoril


(Islamismo - século VII até XV (Ibéria)



Sistema tecnológico


* Ferro na cavalaria de guerra (sela, ferradura, estribos etc.)

* Moinhos eólicos e hidráulicos



Sistema associativo


* Impérios Despóticos Salvacionistas

* Estado - Igreja

* Expancionismo (conquista, dominação despótica, colonização escravista, doutrinação, miscigenação, novas técnicas produtivas)

* Estratificação:  

- Guerreiros - Camada burocrática
- Funcionários - Escravos ou servos


Sistema ideológico


* Corpo de crenças religiosas messiânicas - Alcorão (força integradora, reguladora, aliciadora)

* Reordenação do mundo

* Vigor de guerreiros na missão de ordenar

* Educação: preparação de quadros (desumanização, alienação, alta competição pelas carreiras brilhantes de eunucos, artesãos, sábios educados em "casas criatórios". 

* Esforços de revitalização salvacionista:

- Séc. X e XII - Cruzadas
- 1ª forma de expansão européia ocidental

* Fracasso!


Texto  -  5ª  Revolução Tecnológica Pastoril


Com o amadurecimento da Revolução Pastoril que, armando alguns povos até então atrasados na história com uma nova tecnologia militar, lhes permite atacar áreas feudalizadas de altas civilizações e resistir à assimilação pelo povo conquistado, para configurar uma nova formação sócio-cultural: impérios despóticos salvacionistasEsse novo processo civilizatório configura-se, originalmente, como uma nova onda de expansão pastoril, fundada principalmente na aplicação da tecnologia do ferro à cavalaria de guerra. Seus elementos mais assinaláveis foram: a sela de montaria, dotada de estribos que deram maior segurança e mobilidade aos ginetes; a ferradura, que prolongou a vida útil dos animais e lhes permitiu enfrentar qualquer terreno; os freios de ferro, sob o comando de rédeas que possibilitaram uma direção firme e segura.

A essas inovações se acrescentaram mais tarde, no corpo das formações despóticas salvacionistas, diversos aperfeiçoamentos no sistema de tração dos animais de tiro, que multiplicaram sua força útil livrando-os da sufocação jugular dos velhos colares. Um destes foi um sistema de fixação dos varais em selas e, depois, a introdução do arnês rígido. Outras contribuições técnicas difundidas no mesmo ciclo foram os alambiques e, sobretudo, os novos modelos de moinhos eólicos e hidráulicos, aplicáveis à elevações de água, à moagem de cereais e à prensagem de sementes oleaginosas, e mais tarde ao martelamento de minérios e de metais, ao acionamento de serras e de foles, bem como a outros dispositivos. Dentre esses progressos tiveram caráter crucial, na etapa expansiva, os que revolucionaram a cavalaria de guerra e armaram os guerreiros de espadas e lanças mais eficientes, e, na etapa de construção das novas formações sócio-culturais, a propagação das novas formas de utilização da energia muscular animal com atafonas e almanjarras aperfeiçoadas para as tarefas de aração da terra e de transporte e de aplicação da energia dos ventos e das correntes de água a serviço do homem.

As primeiras dessas inovações tecnológicas exerceram um efeito vitalizador sobre antigas chefias pastoris nômades que se estavam integrando na tecnologia do ferro forjado, permitindo-lhes enfrentar os sistemas defensivos de sociedades mais desenvolvidas. Atacam áreas feudalizadas para as dinamizar e integrar numa formação totalmente distinta de todas as anteriores. Esses seriam os 1mpérios despóticos salvacionistas, estruturados segundo princípios ordenadores novos, em que representava um papel crucial um corpo de crenças religiosas de caráter messiânico. Essas crenças passam a operar como forças aliciadoras de todas as energias étnicas de suas populações para a destinação sagrada de impor ao mundo a verdade divina de que eram depositários. A essa missão divinal aliam-se, naturalmente. os interesses econômicos, em que importava sua transformação em senhorios de um mundo reordenado de conformidade com a palavra de seus profetas.

Aquela tecnologia nova de cavalaria de guerra e esta armadura ideológica os transformaria, de simples saqueadores da riqueza entesourada por outros povos ou exploradores de sociedades rurais artesanais sedentarizadas, em guerreiros invencíveis e em reformadores ensandecidos de fúria sagrada. Nessas circunstâncias, o inimigo deixava de ser visto como o objeto de saque do guerreiro vitorioso para ser tido como o ímpio, cuja só existência ofendia a Deus. Os povos pastoris, dinamizados por esse novo processo civilizatório, lançam-se, assim, sobre o mundo circundante, com todo o seu antigo vigor de guerreiros, que adestravam seus cavalos e a si próprios para as façanhas mais ousadas, robustecidos pela missão de salvadores, destinados a erradicar do mundo a impiedade e a heresia.

 

Os Impérios Despóticos Salvacionistas


A primeira dessas expansões salvacionistas dinamizou um conjunto de povos irânicos, transformando-os em instauradores de um vasto império que dominou por séculos (III a VII D. C.) o Irã e a Mesopotâmia e se estendeu até a Índia e China.

Um expansionismo salvacionista mais maduramente configurado se alçaria no século VII com o islamismo, que mobilizou as energias dos povos pastoris da Arábia e do Irã para lançá-los como os cruzados do maior movimento religioso de conquista que a história registra. Sua inspiração básica era o velho espírito de saque de terras e de bens das hordas pastoris, a que se somava, agora, um sentido de destinação sagrada, formulado por Maomé. A doutrina maometana, recolhida no Alcorão, sintetizava antigas tradições judaicas, helênicas e iranianas, redefinindo-as como uma nova religião universalista, orientada mais do que qualquer outra para o salvacionismo de conquista, como expansão da glória divina.

O islamismo se configura, assim, como um credo messiânico que põe mais empenho na expansão do domínio de Alá sobre todos os povos e terras do mundo do que no esforço missionário de converter almas para salvá-las da perdição. O próprio paraíso é descrito bizarramente como o jardim de repouso do guerreiro divinal, conseqüentemente, não desenvolve um Estado-Igreja assentado num corpo sacerdotal profissionalizado. Estrutura-se pela fusão, numa mesma unidade, do sistema político e do religioso, através da atribuição a cada homem válido de uma destinação de cruzado subjugador de povos infiéis, de colonizador das áreas conquistadas e de braço divinal impositor da submissão a Alá.

Esse espírito de missão divina, armando de fúria sagrada os guerreiros árabes muçulmanos, fez com que arremetessem em todas as direções como uma avalanche diante da qual sucumbiram inúmeras sociedades feudalizadas. Infundiu-lhes também a capacidade de resistir à amalgamação cultural em contextos mais evoluídos, como ocorrera antes com os antigos invasores pastoris. E. sobretudo, incutiu-lhes o vigor necessário para estruturar os povos conquistados em imensos sistemas imperiais despóticos integrados numa nova ordem moral, fundada na palavra do Profeta.

Em poucas décadas, o domínio muçulmano se alastrou por quase todo o Oriente Médio e daí para o Oeste, sobre o Norte da África, as ilhas mediterrâneas e a península Ibérica, e para o Leste, sobre a Alta Ásia, sobre a Índia e, para além dela, a Indonésia e a Indochina. Seu domínio se estenderia, mais tarde, por outras áreas, penetrando profundamente, de um lado, na África Tropical, do outro, na Eurásia e nos confins do Oriente. Essas últimas ondas seriam conduzidas por povos islamizados, como os turco-mongólicos que, a certa altura, se colocam no centro do expansionismo muçulmano como sua força mais dinâmica.

Através de ondas sucessivas implanta-se o Islã (isto é, submissão incondicional - à vontade de Alá) sobre uma área muito mais extensa que a de qualquer civilização imperial anterior, com uma capacidade de permanência também muito maior e com um poder de assimilação de povos e de aculturação compulsória jamais atingido antes. Seu domínio sobre a Ibéria, como Califado de Córdoba, se estendeu de 750 a 1350; sobre a Índia se prolongou por seis séculos. Mesmo quando caem, posteriormente, em regressão feudal. deixam transfigurados os povos que haviam dominado, tanto os do Oriente Próximo e do Norte da África como os da África Tropical ou da Eurásia, modelando uma das mais vastas configurações sócio-culturais modernas, que engloba mais de 900 milhões de pessoas, maior fenômeno religioso mundial deste final de milênio.

Através da construção de vastas estruturas de domínio imperial e de sujeição religiosa, atuaram como agentes de um dos mais vigorosos processos civilizatórios, cuja capacidade de atualização de povos atrasados na história para a modernização tecnológica, social e ideológica só teria paralelo no curso da Revolução Mercantil e da Revolução Industrial.

Seus mecanismos essenciais de expansão e aculturação compulsória foram a conquista, seguida da dominação mais despótica, a colonização escravista, a doutrinação religiosa e a miscigenação racial. Atuaram, freqüentemente, através da eliminação dos estratos dominantes das sociedades subjugadas e sua substituição por uma nova camada de caráter burocrático. Esta era integrada inicialmente por guerreiros, aos quais se atribuía o controle e exploração de extensas áreas; mais tarde, por corpos de funcionários cuidadosamente preparados para o exercício da dominação político-militar e das funções administrativas de organização econômica e de arrecadação de rendas.

No preparo dessa burocracia, apelaram largamente para sua experiência original de pastores nômades, sistematizando as práticas de adestramento de animais para aplicá-las a homens escravizados. Para tanto, capturavam crianças nas áreas conquistadas, selecionando-as inicialmente pelo vigor físico, e as encaminhavam para casas-criatórios, onde um meticuloso sistema de treinamento, de prêmios e de punições explorava as potencialidades de cada peça. Através desse procedimento, suscitavam o máximo de ambição e de espírito competitivo, levando seu adestramento a níveis extremos (A. J. Toynbee).

Essa forma despótica de preparação de quadros, assentada num recrutamento tão ampliável quanto se desejasse e numa disciplina educativa inalcançada por qualquer outro processo, permitia formar castas de funcionários e de guerreiros de uma eficiência a toda prova. Se, por um lado, desumanizava e alienava seus componentes, a alguns deles ensejava carreiras tão brilhantes que, entre as populações dominadas, se desenvolveu antes uma competição pelo ingresso nessas casas do que uma oposição ao sistema.

Por esse processo obtinham-se escravos superespecializados para o exercício das funções mais díspares, como eunucos - guardiões de haréns -, artesãos, conselheiros políticos, sábios e altos funcionários capacitados a atuar como fiéis exatores do seu sultão, que podiam chegar a exercer funções de grão-vizires. As casas-criatórios produziam, porém, principalmente guerreiros superadestrados, que se celebrizariam na história, fixando os conceitos de janízaros, de sipaios e, sobretudo, de mamelucos. Estes podiam alcançar os mais altos níveis de poder e de riqueza, mas permaneciam sempre presos ao seu estatuto de escravos, como peças possuídas por seus senhores, que através deles exerciam seu domínio.

Esses corpos de agentes superespecializados da dominação islâmica permitiram manter por séculos um poder de outra forma impraticável para simples guerreiros ensandecidos de fúria sagrada. Após a conquista e o saque, cumpria organizar as novas possessões, civilizar a gente, inclusive os seus próprios soldados e os descendentes destes. Essa tarefa de organização, bem como a colonização e introdução de novas técnicas produtivas, exigindo outras habilitações além do elã combativo, impuseram a criação e o aperfeiçoamento de instituições educacionais, a partir da tradição irânica das casas-criatórios.

Estas experimentam, assim, um grande desenvolvimento, até se configurarem como um procedimento generalizado de formação de quadros militares e administrativos. Napoleão ainda encontraria o Egito dominado por uma casta mameluca que se autoperpetuara após a queda do Império Otomano.

Novos esforços de revitalização salvacionista tiveram lugar entre os séculos X e XIII, com o movimento das cruzadas, que representou a primeira forma de expansão européia Ocidental. Fora impulsionado, porém, mais pela ambição de Conquista e enriquecimento dos senhores feudais franceses e da burguesia nascente das cidades italianas do que pelo elã salvacionista. Assim, ao chamamento papal para as cruzadas, não correspondeu um chihad - a guerra santa dos muçulmanos -, mas tão-somente uma irrupção messiânica. Milhares de camponeses europeus abandonaram os feudos e se puderam em marcha com suas mulheres e filhos rumo à Terra Santa, desorganizados e inermes como um exército maltrapilho que se mantinha da mendicância e da pilhagem. Só mais tarde as cruzadas se organizam como empreendimento guerreiro mercantil mais disciplinado e eficaz. Mas então seu motor fundamental já era a conquista de antigos domínios muçulmanos que haviam entrado em feudalização. Despertos por esses ataques, os muçulmanos reagiram, liquidando prontamente as colônias militares implantadas pelos cruzados em todo o Oriente Próximo, encerrando-se, assim, o primeiro ciclo do expansionismo salvacionista cristão europeu.

Em todas as áreas de dominação dos impérios despóticos salvacionistas implantou-se uma mesma ordenação básica. Suas linhas gerais foram, em primeiro lugar, a prática da concessão do usufruto vitalício, mas não transmissível, da terra aos vencedores das guerras de conquista, transformada, mais tarde, em propriedade livremente alienável. Segundo, a concessão às mesmas camadas das funções de exatores dos impostos imperiais sobre a terra e as pessoas. Terceiro, a adoção do escravismo e da servidão, que vinculava o camponês à gleba e fazia recair sobre ele uma taxação per capita. Quarto, uma ativação do comércio externo livre, ainda que sujeitando os mercadores a controles estatais e a confiscos. Quinto, o desenvolvimento de um artesanato produtor de artigos de luxo e de armas de guerra, através da criação de grandes manufaturas, freqüentemente estatizadas. Sexto, a instalação de empresas monopolísticas oficiais mediante concessões Imperiais para explorar certos ramos produtivos. Sétimo, a implantação de um vasto sistema cartorial de recenseamento e controle da população das áreas dominadas e de arrecadação de tributos.



VI  -  Esquema  -  6ª Revolução Tecnológica: Revolução Mercantil



Sistema tecnológico


* Tecnologia produtiva: 

- Navegação oceânica, fábricas, tipografias

* Tecnologia militar:

- Armas de fogo, artilharia naval



Sistema associativo


* Impérios Mercantis Salvacionistas (séc. XV - Ibéria) e Capitalismo Mercantil (Holanda - 1609, Inglaterra e França)


* Contraparte :

- Empresariado
- Massas assalariadas


* Colonialismo:

- Escravista
- Mercantil


* África, Ásia e Américas:

- Áreas de saque e exploração (hemisfério Sul)


* Povoamento:

- Camadas gerenciais subalternas
- Massas escravizadas


* Acúmulo de Capital: 

- Saque de dezenas de povos 
- Excedentes arrancados de milhões de escravos 
- Tráfico negreiro



Sistema ideológico


* Transfiguração da Europa:

- Movimento de renovação inaugurado com o Renascimento e intensificado pela Reforma 
- Alfabetização em massa 
- Redescoberta do mundo greco-romano 
- Teólogos reformistas: ideologia enobrecedora do enriquecimento 
- Despersonalização das relações de trabalho 

* Mundo Colonial:

- Instrumento de prosperidade das metrópoles. Culturas Espúrias. 


Texto  -  6ª  Revolução Tecnológica Mercantil 

 
No corpo dos impérios despóticos salvacionistas (Islamismo) se foi desenvolvendo uma tecnologia produtiva e militar que alcançou o nível de uma nova revolução tecnológica nos albores do século XVI, fazendo amadurecer duas novas formações sócio-culturais: os impérios mercantis salvacionistas e o capitalismo mercantil.

Tal foi a Revolução Mercantil, fundada numa nova tecnologia da navegação oceânica, baseada no aperfeiçoamento dos instrumentos de orientação (bússola magnética montada em balancins, o quadrante, a balestilha, o astrolábio, cartas celestes e portolanos, cronômetros e outros) e de navegação (as naus e caravelas, a vela latina, o leme fixo, as carretilhas e os barcos de guerra). Baseava-se, por igual, na descoberta de procedimentos mecânicos, como as bielas-manivelas, os eixos-cardan etc., e numa nova metalurgia revolucionada com a descoberta de processos industriais de fundição do ferro, de laminação do aço, de trefilação de arames, de fusão de novas ligas metálicas e de produção de artefatos com tornos de rosca e mandril e com máquinas de talandrar, afiar e polir metais. Baseava-se, também, na renovação das artes de guerra com armas de fogo aperfeiçoadas - canhões, morteiros, espingardas - que em terra permitiram enfrentar a mobilidade das cavalarias armadas de arcos e lanças que haviam prevalecido no último milênio e, no mar, criavam a artilharia naval. Baseava-se, por igual, na generalização de outras técnicas, como modelos aperfeiçoados de moinhos de vento de cabeça móvel e de rodas hidráulicas horizontais impulsionadas pela força da gravidade, aplicáveis para acionar foles siderúrgicos, marteletes, serras, afiadoras e outras máquinas. Baseava-se, ainda, na instalação de fábricas de papel, de tipografias para a impressão de livros com tipos móveis, bem como na produção de instrumentos óticos. Algumas combinações dessas técnicas, como a do veleiro com canhões, tiveram efeitos extraordinários, permitindo o domínio da terra a partir do mar.

As potencialidades da nova revolução tecnológica realizaram-se através de dois processos civilizatórios: impérios mercantis salvacionistas, e capitalismo mercantil. Ambos tiveram de peculiar, em relação a todos os anteriores, seu caráter mundial, expresso tanto na sua projeção geográfica sobre a Terra inteira quanto na sua capacidade de estancar o desenvolvimento paralelo de outros processos civilizatórios.

Os impérios mercantis salvacionistas surgem na passagem do século XV ao XVI, na península Ibérica.

Avançada sobre o Atlântico, lança-se à conquista e à subjugação de novos mundos no além-mar. Portugal, que vinha explorando a costa africana desde o começo do século XV, descobre sucessivamente o Cabo Verde e a Costa do Ouro, contorna o Cabo da Boa Esperança e, afinal, estabelece a rota marítima para a Índia. Subjuga, a seguir, a costa ocidental e parte da oriental da Índia e de Málaga. Ocupa Aden e Ormuz, interceptando a antiga via das especiarias. Apodera-se do arquipélago de Sonda, da Indochina e do Brasil. A Espanha, atingindo as Antilhas com as expedições de Colombo, se expande, a partir daí, por todo o continente americano e implanta, também, domínios coloniais e feitorias no Extremo Oriente.

A Ibéria, bastião ocidental do domínio islâmico, vinha intensificando as lutas pela Reconquista desde o século XIV, mas só a completou no ano da descoberta da América. Essa guerra de emancipação, extremamente destruidora, conduzida sob a direção do papa e do rei, custou-lhe tantos sacrifícios que no seu decorrer toda a sociedade se transfigurou para servir a esse propósito, tornado obsessivo. As ordens religiosas se tomaram mais ricas e mais poderosas do que a nobreza, e a Igreja Católica se fez herdeira de boa parte da terra reconquistada aos infiéis. A Ibéria consegue do papa o titulo de domínio exclusivo sobre todas as terras que se descubram para além de uma linha imaginária, e a monarquia espanhola obtém os privilégios de erigir e dirigir a Santa Inquisição através de sacerdotes intermediários, de cristianizar o gentio.

Assim se estabeleceu uma estrutura de poder aristocrático-clerical que regeria, daí por diante, os destinos dos povos ibéricos. Entretanto, com a vitória sobre os núcleos islâmicos da Ibéria também se destrói o sistema agrário que haviam implantado com base numa agricultura de regadio de alta tecnologia e que permitira manter, por séculos, densas populações mesmo nas zonas mais áridas. À medida que os novos senhorios aristocrático-clericais se apossavam das antigas áreas intensamente cultivadas, transformavam-nas principalmente em pastagens para a criação de ovelhas, fazendo com que a penúria sucedesse à antiga fartura. Multidões de camponeses foram enxotados e reduzidos à mendicância, e a própria população entrou a diminuir drasticamente, tanto no campo como nas cidades. Nem todo o ouro saqueado da América. nos séculos seguintes, foi suficiente para compensar esse retrocesso.

A Ibéria, com um fanatismo religioso só comparável ao dos primeiros impulsos muçulmanos, se lança, com igual furor, à erradicação das heresias do seio de suas próprias populações, através da flagelação dos suspeitos de impiedade, das festas públicas de cremação de hereges e da expulsão de centenas de milhares de mouros e judeus.

Esse êxodo, concebido pela classe dominante como uma extraordinária oportunidade de enriquecimento pelo confisco e rateio dos bens de judeus e muçulmanos, resultou também num retrocesso econômico da maior gravidade. Efetivamente, o que se conseguiu foi erradicar da Ibéria, junto com as heresias, quase todos os setores intermédios de artesãos, pequenos granjeiros e comerciantes, compostos principalmente por "castas infiéis". A destruição desse estrato social fez cair imediatamente o nível técnico das atividades agrícolas e manufatureirãs, contribuindo decisivamente para tomar a Espanha e depois Portugal inaptos para a Revolução Industrial.

Os impérios coloniais ibero-americanos, estruturados como contraparte dessa formação mercantil salvacionista, por via da atualização histórica, conformar-se-iam nos moldes de um novo colonialismo escravista, inserido dentro de um sistema econômico unificado e interativo.

Os procedimentos fundamentais de dominação das colônias escravistas das Américas foram: a erradicação da antiga classe dominante local, a concessão de terras como propriedade latifundiária aos conquistadores, a adoção do escravismo e a implantação de patriciados burocráticos, representantes do poder real, como exatores de impostos. Nas áreas dos impérios teocráticos de regadio da Meso-América e do Altiplano Andino, onde se concentravam grandes contingentes de mão-de-obra, condicionados já à disciplina do trabalho, a escravização se institucionaliza sob a forma de mita e de encomienda de serviços. Nessa forma de conscrição, os índios eram entregues em usufruto à exploração mais desumana. Justificava-se e disfarçava-se o sistema, porém, em nome do zelo pela salvação eterna do gentio, pela atribuição da função de catequistas aos encornenderos. Mais tarde, a encomienda progride para uma forma de tributo pagável em dinheiro que os indígenas só podiam obter trabalhando nas minas e nas terras, sob as mais penosas condições. Para que esse regime de escravização, ainda mais opressivo e insidioso, pudesse funcionar, os caciques foram transformados em aliciadores da força de trabalho válida das comunidades indígenas para entregá-la à exploração dos encomenderos, como condição para que os velhos sobreviventes e as crianças pudessem continuar nas aldeias.

Sob esse sistema as populações dos antigos impérios teocráticos de regadio foram tão drasticamente reduzidas que a depopulação das colônias chegou a preocupar seriamente a Coroa. Temia-se, agora, o desastre econômico que poderia representar a perda daquela escravaria barata, porque custara apenas o preço da conquista, e aparentemente inesgotável, porque montara a milhões. Flagelada pelas pestes com que o europeu a contaminou e desgastada sob o peso do trabalho, a população indígena minguava em proporções tão alarmantes que ameaçava desaparecer e era sucedida por uma nova casta de mestiços resistentes à escravização, tendentes à rebeldia. Além de desgastada numericamente, aquela população se via degradada pela contingência de servir como mera força de trabalho que não existia para si própria, mas como produtora dos poucos artigos que interessavam à economia colonial e, sobretudo, como extratora de metais preciosos. Perde, assim, os altos níveis de qualificação tecnológica e de saber erudito que havia alcançado.

Nas outras áreas americanas restaurou-se o escravismo greco-romano em sua forma mais crua. Primeiro, pela escravização dos indígenas locais e, mais tarde, desgastados estes, pela transladação de enormes massas de negros da África.

Criou-se, desse modo, uma enorme força de trabalho escravo, de cuja capacidade de produção, nas condições mais espoliativas, passavam a viver espanhóis e portugueses.

Esse foi o maior movimento de atualização histórica de povos jamais levado a efeito, mediante a destribalização e deculturação de milhões de índios e negros e seu engajamento em novos sistemas econômicos, na qualidade de camadas subalternas. O poder deculturador e aculturador desse processo de atualização histórica foi ainda maior que o dos processos equivalentes de romanização e de islamização, como se constata pela uniformidade lingüística e cultural dos povos americanos, muito mais homogêneos, embora numérica e espacialmente maiores, do que as populações da própria península Ibérica e de qualquer outra área do mundo.

 

O Capitalismo Mercantil e os Colonialismos Modernos


Enquanto se processava a expansão salvacionista, as forças renovadoras da Revolução Mercantil avançavam através de um outro processo civilizatório: o capitalismo mercantil. Dotado de maiores potencialidades de tecnificação, de reordenação social e de progresso, era o esforço de restabelecimento do sistema mercantil europeu, primeiro no continente, depois em todo o mundo, que voltaria a ativar as economias regionais estagnadas durante o milênio de feudalização.

Seus desencadeadores foram um complexo de eventos e a adoção de novos procedimentos técnicos e institucionais que, ensejando o restabelecimento do comércio exterior, permitiram reimplantar manufaturas nas cidades italianas, francesas, flamengas e holandesas e, mais tarde, na Inglaterra e na Espanha, primeiro para o mercado interno e, posteriormente, para os de ultramar. À medida que cresciam os mercados, essas manufaturas se transformavam: de simples ajuntamentos de artesãos possuidores de seus instrumentos de trabalho e financiados por um capitalista a unidades maiores, com divisão interna do trabalho, em que o empresário já era proprietário dos meios de produção e pagava salários aos trabalhadores, lucrando com o acréscimo de produtividade de todos eles.

Inicialmente, essas manufaturas centralizadas instalaram-se no campo, para fugir ao controle dos grêmios artesanais urbanos. Ocupavam camponeses em fiações e tecelagens, depois em serrarias, refinarias de açúcar, fábricas de sabão, de tintas, de cerveja etc. e, mais tarde, em estaleiros, metalurgias e fábricas de papel. Riquezas monetárias acumuladas no comércio, na usura, na exploração das finanças públicas e nos monopólios estatais passaram a aplicar-se produtivamente nessas manufaturas, transladando-as progressivamente para as cidades, que voltaram a crescer. A necessidade de alimentar e vestir os trabalhadores urbanizados gerou uma procura crescente de bens, criando um mercado interno cada vez mais amplo para a produção agrícola e manufatureira. Os proprietários rurais, interessados em produzir para esse mercado, passaram a forçar o campesinato a uma produção maior. Os governos passam, então, a fomentar essas atividades, que se vão tomando a fonte principal de rendas públicas. Emprestam-lhe todo o apoio, através de medidas alfandegárias protecionistas e de reformas das instituições cerceadoras da liberdade de aliciamento de mão-de-obra ou da expansão do mercado interno. Derrogam-se, assim, as antigas normas que dificultavam a comercialização da produção agrícola, criando-se os mercados nacionais. Decreta-se o direito de cercar as propriedades fundiárias, acabando com os campos comunais. Liberam-se os cultivos e anulam-se os tradicionais direitos de pasto.

Por todos esses procedimentos desagregam-se as estruturas comunitárias em que primavam as atividades de subsistência as relações de mutualidade, para se imporem relações contratuais de trabalho definidas como legais e livres. Contingentes rurais cada vez maiores se desvinculam da economia ou são compelidos a fazê-lo para se converterem em mão-de-obra aliciável para o trabalho assalariado por haverem perdido as bases de provimento de sua subsistência.*

A reação dos camponeses a essa reforma estrutural espoca em guerras na defesa do antigo modus vivendi, ou na reivindicação da propriedade das terras para as trabalharem por conta própria como produtores para o mercado.

Nesse ambiente de renovação social tudo é posto em causa. A ordem social deixa de ser concebida como sagrada ou passa a ser definida em termos de reavaliação do conteúdo do sagrado.

A partir do século XIII, ondas sucessivas de levantes convulsionaram a Europa. Como insurreições de classes subalternas, estavam historicamente condenadas ao malogro pela impossibilidade de reordenar a sociedade inteira de acordo com seus interesses. Sua eclosão teve, no entanto, um papel decisivo na implantação de uma nova ordem capitalista mercantil, uma estrutura de poder liderada pelo empresariado capitalista, e no triunfo dos movimentos de Reforma.
Um processo simultâneo de desenraizamento e relocação de trabalhadores ocorria nas cidades, desligando os artesãos dos vínculos corporativos dos grêmios para torná-los assalariados dos novos empreendimentos. Como mão-de-obra mais qualificada, esses artesãos emprestaram à revolução tecnológica o concurso de sua destreza acumulada secularmente e acrescentaram à força de trabalho um estrato diferenciado de técnicos e especialistas. Em cada país, à medida que progredia a conversão da economia aos padrões capitalistas, foram sendo abolidas as corporações de ofício, os regulamentos de aprendizagem, as juntas de salário. Todas essas ordenações protetoras foram substituídas progressivamente pelo ideário liberal da igualdade perante a lei e do livre direito de contrato.

A combinação da disponibilidade de capital acumulado com a oferta de mão-de-obra livremente aliciável e de bens de subsistência oferecidos à venda tomou possível montar estruturas urbanas de produção e de comércio que se fariam cada vez mais amplas até dominarem todo o sistema econômico, convertendo-o em formações sócio-culturais capitalistas mercantis. Esse processo civilizatório experimentou uma aceleração prodigiosa quando a ele se somaram os resultados da expansão oceânica conduzida pelos povos ibéricos. Carreando para a Europa o produto do saque de dezenas de povos e, depois, os excedentes arrancados a milhões de escravos que tinham seu consumo supercomprimido nas minas e nas plantações tropicais, o capitalismo mercantil pôde saltar alguns séculos no seu processo de amadurecimento.

A formação capitalista mercantil implanta-se, primeiro, na Holanda (1609), onde assume a forma de república moderna de perfil oligárquico, governada por comerciantes e banqueiros. No curso dessas lutas, a Holanda apossa-se de diversos domínios coloniais portugueses e espanhóis na África (Cabo), nas Américas (Antilhas), no Oriente (Ceilão, Indonésia) e torna-se a principal potência européia. Cria a primeira organização bancária moderna (1609), que passa a atuar como financiadora e seguradora da expansão mercantil holandesa, alçada à condição de empório distribuidor da produção mundial nos mercados europeus.

Segue-se a Inglaterra, com a revolução de Cromwell (1652-79), que lhe permite estruturar-se também como uma formação capitalista mercantil revestida dos atributos institucionais de uma monarquia parlamentar. A Inglaterra alça-se também através da guerra contra os salvacionistas ibéricos e contra os holandeses, graças à apropriação de alguns dos seus antigos domínios coloniais na América do Norte, na Índia, na China e na África. Uma das fontes de sua modernização foi o ingresso de uma centena de milhares de perseguidos religiosos, que elevaram substancialmente a qualificação de sua força de trabalho e suas disponibilidades de capital financeiro. Mas seu enriquecimento se fez, nessa primeira etapa, principalmente através do saque pelo corso sustentado pelo Estado e, mais tarde, mediante o contrabando com as colônias americanas, principalmente com a exploração do tráfico negreiro por meio de contratos monopolísticos com as nações ibéricas, operados por companhias oficiais cujos principais acionistas eram as casas reais espanhola e inglesa. A eficiência capitalista aplicada ao tráfico negreiro permitiu organizar racionalmente as operações de caça de escravos no interior, de amontoamento de reservas na costa africana, de transporte marítimo, de depósito, distribuição e venda através de todas as Américas. Nesse processo, as nações européias, pioneiras do desenvolvimento capitalista mercantil, aliciaram, no curso de quase três séculos, mais de 100 milhões de africanos, uma terça parte dos quais deve ter chegado a seu destino para aí serem consumidos, em sua grande maioria, no trabalho escravo.

A integração da França à nova formação amadurece lentamente no nível econômico. Eclodiu, no plano político, com a revolução social de 1789, comandada, inicialmente, por lideranças antiaristocráticas e completada, mais tarde, por um regime militar que impõe as ordenações napoleônicas. Implanta-se, assim, o primeiro sistema estatal de instrução pública; derroga-se o regime legal anterior e delineia-se o modelo básico de instituições liberais capitalistas que seriam prontamente adotadas em todo o mundo. Esta última formação capitalista também se apropria de antigas áreas coloniais ibéricas, pela anexação, ao seu domínio colonial, de vastas áreas da América do Norte, do Canadá, da Indochina e do Senegal.

Para assumir essa posição pioneira, aquelas nações haviam reativado sua vida econômica interna, rompendo com as barreiras feudais que continham suas forças produtivas, e confiscado os bens eclesiásticos, os latifúndios das abadias e mosteiros, para integrá-los no sistema produtivo. Seus empresários aplicaram capitais nas manufaturas, que passaram a produzir para todo o mercado nacional e, depois, para exportação. Criaram-se, assim, grandes empresas de investimento nos setores mercantis, fabris, agrícolas e de obras públicas que, excedendo a capacidade financeira de um só capitalista, apelavam para vários processos de captação de recursos. E incentivaram a constituição de uma força de trabalho altamente qualificada, a partir do artesanato medieval.

Como efeito maior de todas essas mudanças, refez-se própria estratificação social, que opunha uma camada de proprietários aliciadores de mão-de-obra assalariada ou escrava e uma camada de despossuídos, conscritos como a força de trabalho do sistema, na posição de dois proletariados, um interno, outro externo.

Em sua expansão ultramarina, todas as formações capitalistas mercantis apelaram também para o colonialismo escravista, criando novas áreas de plantações tropicais. Mas, simultaneamente, inovaram o antigo modelo, complementando-o, primeiro com as colonizações mercantis, na forma de entre-postos comerciais implantados em países longínquos, com os quais não se pretendia transfigurar os povos autóctones, mas tão-somente traficar com eles, e, mais tarde, com colônias de povoamento, estabelecidas através da transladação de populações européias para além-mar. Estas últimas se destinavam, essencialmente, a aliviar a Europa dos excedentes populacionais gerados no próprio processo de integração da economia agrícola em padrões capitalistas. Em conseqüência, os pequenos núcleos de colônias de povoamento - que eram as menos prósperas das colônias na formação anterior - entram a crescer, tendo por objetivo menos prover lucros do que ocupar gente desenraizada e marginalizada, cuja presença começava a representar um risco permanente de insurreição.

Uma dessas colônias de povoamento, que crescera como economia ancilar dos ricos empreendimentos escravistas coloniais das Antilhas, amadureceria, pouco mais tarde, para o capitalismo mercantil. Era a América do Norte, onde uma ordenação capitalista incipiente, fundada nos próprios princípios que regeram a colonização, se fortificaria no curso da guerra de emancipação. Essas características se acentuariam, em virtude do caráter singular de sua implantação como uma extensão ultramarina da sociedade inglesa. Na América do Norte, se erige o modelo básico de República federativa moderna, estruturada como uma formação capitalista mercantil, tendente à industrialização. Contando com enormes áreas desertas para a autocolonização, a América do Norte só tardiamente se lança à expansão colonialista, mas o faz, também, pela apropriação de antigas áreas de domínio ibérico, como as Antilhas e as Filipinas, além de algumas ilhas do Pacífico.

Como se vê, a formação capitalista mercantil também nasce bipartida em dois complexos complementares. Primeiro, o complexo metropolitano das nações as estrutura por aceleração evolutiva como centros de poder e de comércio ultramarino. Segundo, o complexo colonial, implantado através de movimentos de atualização histórica, que gera as colônias mercantis e as colônias escravistas e as colônias de povoamento das Américas, da Austrália e da Nova Zelândia.

Por meio dessas duas faces complementares - a metropolitana e a colonial - o sistema passa a atuar gerando, numa delas, o capital e os capitalistas contrapostos a massas crescentes de assalariados, e, na outra, camadas gerenciais subalternas e massas escravizadas e avassaladas. Estas últimas não representavam para o sistema mais do que uma espécie de combustível humano explorado localmente ou importado da África para produzir artigos de exportação, metais preciosos e minérios. Não eram "propriamente trabalhadores, mas apenas trabalho", tal como aquele que seria oferecido amanhã pelas fontes inanimadas de energia (K. Marx). Nessa qualidade, propiciavam uma acumulação de capital muito maior do que a obtida pela exploração de assalariados e ensejavam a reversão para as economias metropolitanas, amadurecidas como estruturas capitalistas, de recursos cada vez mais vultosos.

A expansão oceânica européia, iniciada pelos ibéricos, torna-se, nesse passo, uma empresa coletiva que multiplica colônias escravistas, mercantis e de povoamento por todo o mundo, acelerando a ação do processo civilizatório capitalista mercantil. Nesse processo, milhares de povos atados a formações tribais, aldeãs, pastoris, rural-artesanais, bem como antigas civilizações, tanto as vigorosas como as já estagnadas em regressões feudais, foram integrados num sistema econômico de base mundial, como sociedades subalternas e culturas espúrias. Sua razão de existência deixara de constituir a natural reprodução do seu modo de ser, para se converter no fator de existência e no instrumento de prosperidade dos centros metropolitanos que geriam os seus destinos.

A espoliação desses povos possibilitou às cidades européias retomar e superar amplamente o brilho que haviam alcançado no esplendor do Império Romano, implantando-se como metrópoles suntuosas e opulentas. Deu, também, aos europeus nórdicos, até então marginais aos processos civilizatórios, um sentimento de superioridade e de destinação civilizadora que passou a justificar todas as formas de opressão colonial como o exercício necessário do papel de agentes civilizadores, convictos de que representavam uma ordem moral superior e o motor do progresso humano.

As riquezas que se acumularam com as novas atividades produtivas e com os saques de tesouros alheios elevaram a níveis jamais alcançados a economia de dinheiro metálico, tornando disponíveis capitais cada vez maiores para financiar novos empreendimentos.* Essa abrupta disponibilidade de metais preciosos provoca uma elevação constante de preços, que contribui fortemente para desorganizar as economias camponesas ainda sobreviventes. Dessa forma, novas massas são lançadas ao mercado de trabalho ou obrigadas a emigrar, ao mesmo tempo em que sobrevém uma violenta substituição das antigas camadas patronais conservadoras pelo empresariado de mentalidade capitalista.

Simultaneamente, a Europa se transfigura ideologicamente, aprofundando o movimento de renovação inaugurado com o Renascimento e intensificado pela Reforma. A alfabetização em massa nas línguas vernáculas, levada a efeito para ler a Bíblia, permitiria, de então por diante, recrutar a intelectualidade em bases muito mais amplas e assegurar-lhe maior liberdade de indagação e de pesquisa. Desse modo, a Europa pós-medieval, que redescobrira o mundo grego assumindo sua postura mercantil e sua atitude especulativa, pôde levar à frente o saber e as artes a partir do ponto em que haviam estagnado e pôde retomar também os modelos mercantis escravistas de estruturação política em seus conteúdos democráticos.

Nas áreas onde mais amadureceu a formação capitalista mercantil, a Igreja Católica, de um poder autônomo ordenador das estruturas sociais e legitimador da autoridade, reduz-se à instituição auxiliar modeladora de consciências individuais. Mas é prontamente chamada a atuar como sustentáculo espiritual da nova classe dominante. Teólogos reformistas dedicam-se, agora, a formular uma ideologia enobrecedora do enriquecimento conceituado como sinal de benesse divina dignificadora do trabalho e condenatória de antigas atitudes senhoriais de ócio e fruição, bem como da sua contraparte popular, a mendicância. Por todas essas formas de ação, a Igreja da Reforma ajuda a burguesia nascente a adotar o perfil ético que lhe corresponde e a destruir as bases morais do antigo sistema, que encarava a propriedade como mais passível de deveres que de direitos e a estamentação social rígida da Europa feudal como uma expressão da vontade divina (M. Weber).

Com o capitalismo mercantil estabelecem-se, assim, as bases para a despersonalização das relações de trabalho, transformando a mão-de-obra em um bem livremente negociável; entrona-se uma classe empresarial de novo tipo para a qual se prescrevem direitos mas não deveres; e implanta-se um regime econômico marcadamente racionalista e venal. Nesse ambiente liberto de peias religiosas tudo se põe em causa. As ciências e as artes experimentam um desenvolvimento sem paralelo, lançando-se as bases para uma nova revolução no plano da tecnologia. Uma onda de criatividade renova as velhas ordenações medievais através de uma geração de livres-pensadores que se ocupam da regulamentação racional das relações humanas, com base nos conceitos mais generosos de liberdade e de igualdade e com uma atitude de plena confiança no progresso humano. Opera-se, desse modo, uma primeira transição saintsimoniana do governo das pessoas, que prevalecera no mundo feudal, para um governo das coisas, que regeria o capitalismo. Mas só se consegue efetivar essa renovação coisificando as pessoas, a fim de tratá-las juridicamente como coisas.

Em sua forma plenamente amadurecida, a nova formação sócio-cultural assenta-se na propriedade privada das empresas, na mais aguda competição destas entre si e em face dos consumidores e na implantação de um regime de espontaneismo no plano econômico e de completa irresponsabilidade social para com o destino dos trabalhadores. Velhas tendências espoliativas e alienadoras surgidas com as primeiras formas de estratificação social, e que haviam alcançado extremos na formação mercantil escravista e, mais tarde, nas formações despóticas salvacionistas e mercantis salvacionistas, reimplantam-se e aprofundam-se mais ainda.

A riqueza social aumenta até níveis inatingidos antes, mas a pobreza das camadas despossuidas também se agrava como nunca. As populações européias crescem mais aceleradamente do que a capacidade do sistema para absorver os novos contingentes de mão-de-obra, transformando-os em "excedentes" que se devem exportar como emigrantes.

A Revolução Mercantil, que gerara o maior movimento expansionista da história humana, tendente a unificar o mundo inteiro num só sistema de intercâmbio econômico, experimenta, nesse passo, um movimento oposto de segmentação dos povos em entidades étnico-nacionais carregadas de hostilidade umas para com as outras. O mesmo processo civilizatório que alargara o mundo, pondo todos os povos em contato, e que ampliara o âmbito interno de cada sociedade, pelo rompimento de barreiras regionais, encontra seu termo nas fronteiras nacionais.

Configuram-se os espaços nacionais modernos. Cada um deles compreende uma comunidade que, durante gerações, participara das mesmas crenças e costumes. Seus membros passam agora a identificar-se como nações definidas em termos de entidades solidárias excludentes de todas as demais, com direito ao domínio político do território que ocupavam ou pleiteavam.

Após séculos de elaboração de sua forma, como resultante de múltiplas fusões de povos, essas etnias alcançavam, afinal, consciência de sua especificidade em virtude do poder aglutinador do sistema político, empenhado em reservar ao seu empresariado o monopólio do mercado nacional. Incentivada por essas forças aliciadoras, a intelectualidade passa a criar auto-imagens nacionais motivadoras, na forma de obras literárias redigidas em língua vernácula, com o propósito de ressaltar o valor de suas tradições, a qualidade de seus heróis e a superioridade de seu “vínculo de sangue". Por esses processos de organização e de afirmação nacionalista, as entidades étnico-nacionais se conformam como os quadros econômicos e sociais em que suas populações realizarão seu destino, em face das outras. Aquelas que se estruturaram precocemente como Estados e alcançaram maior desenvolvimento como economias capitalistas lançam-se à expansão. Estalam os conflitos. São as lutas nacionais que através de três séculos de crises, tensões, revoluções e guerras, irão configurando o quadro étnico europeu e correlacionando com ele todo o mundo extra-europeu, transformado em área de saque e de exploração.



VII  -  Esquema  -  7ª Revolução Tecnológica: Revolução Industrial



Sistema tecnológico


* Descoberta da energia inanimada para mover dispositivos mecânicos, em 3 etapas:

- Máquinas a vapor
- Motores elétricos
- Motores a explosão


* Tecnologia industrial, agrícola e pastoril


* Incremento demográfico



Sistema associativo


Empresariado  X  Toda a mão de obra, inclusive a Escrava, transformada em Assalariada



* Imperialismo Industrial  X  Neocolonialismo


* Inglaterra, França, Holanda, USA X  Países subdesenvolvidos (áreas de espoliação)


* Centros de dominação


* Dominação em três etapas:

- Exportação de manufaturas  
- Exportação de capitais 
- Instalação de subsidiárias


* Crescente dependência:

- Povos condenados ao atraso,
- Degradados pela desculturação,
- Impedidos de desenvolver sua própria tecnologia


* Ruptura:

- Formações socialistas - surgem de tensões geradas pelos progressos da industrialização


* Socialismo Revolucionário:

- Prevê uma nova etapa da evolução humana e de projeto intencional de reordenação das sociedades segundo os interesses da maioria da população através da socialização dos "Meios de Produção" onde se torne impraticável a opressão econômica, a desigualdade social, a oposição campo x cidade
- Trabalho físico x trabalho intelectual.



Sistema ideológico


* Socialismo Evolutivo (países nórdicos, França, Inglaterra...)


* Valores liberais e anti-mística pessimista


* Socialismo Revolucionário: valores igualitários e mística libertária utópica.


Texto  -  7ª  Revolução Tecnológica Industrial 

 
Os processos civilizatórios fundados na Revolução Mercantil ainda atuavam quando emergiu a Revolução Industrial e, com ela, dois novos processos civilizatórios.

Sua capacidade de reordenação das sociedades humanas só seria comparável à da Revolução Agrícola que, desde dez mil anos passados, vinha remodelando os povos.* Afetaria também todas as sociedades, acrescentando às que lograram Industrializar-se um poderio antes inimaginável e submetendo as demais a formas de dominação cada vez mais sutis e imperativas. Remodelaria internamente cada sociedade, tanto as diretamente industrializadas quanto às modernizadas reflexamente, alterando sua estratificação social e, com ela, as estruturas de poder e redefinindo profundamente sua visão do mundo e seus corpos de valores.

O efeito crucial da nova revolução tecnológica consistiria, porém, no lançamento das primeiras bases de uma futura civilização humana, afinal unificada pelo acesso de todos os povos à mesma tecnologia básica, pela sua incorporação às mesmas formas de ordenação da vida social e pela sua integração aos mesmos corpos de valores. Essa civilização humana unificada não se cristalizaria, contudo, no curso dessa revolução, que apenas conseguiria torná-la uma aspiração generalizada de todos os povos.

A tecnologia da Revolução Industrial não se expande como uma difusão de novos conhecimentos livremente adotáveis, mas como uma reordenação de povos que, situando os pioneiros da industrialização em posição superior de domínio e de riqueza, conduzia todos os demais à subordinação dentro de vastos complexos de nações dependentes e exploradas. Os povos atrasados na história, que haviam escapado às compulsões da Revolução Mercantil, seriam, assim, atingidos, onde quer que vivessem, e chamados a engajar-se na nova ordem econômica e social, como "proletariados externos" provedores de matérias-primas agrícolas e de minérios e consumidores de produtos industriais.

A Revolução Industrial surge no corpo das formações capitalistas mercantis pela acumulação de inventos mecânicos que permitiriam multiplicar fantasticamente a produtividade do trabalho humano. Por isso mesmo, implanta-se, primeiro, nas áreas em que se atendera mais completamente às exigências de renovação estrutural imposta pela Revolução Mercantil, desobstruindo resistências oligárquicas à alteração do Status quo. Tais condições encontravam-se quase idealmente amadurecidas na Inglaterra e nos Estados Unidos e, de forma mais rudimentar, na França, na Alemanha e nos países escandinavos.

As formações sócio-culturais geradas pela Revolução Industrial têm como classe dirigente uma burguesia urbana que desde a etapa anterior se vinha fortalecendo e forçando a reordenação da sociedade segundo seus interesses. Tal era o empresariado que crescera tirando proveito das oportunidades de enriquecimento ensejadas pela restauração do sistema mercantil europeu, pela apropriação dos bens eclesiásticos tornada possível pela Reforma, pelo confisco dos baronatos feudais e dos direitos comunitários do campesinato. A essa acumulação de recursos acrescentara-se, depois, a riqueza proveniente do saque colonial, da exploração maciça do escravismo e da monetarização das economias.

Inicialmente, esse empresariado atuava como os antigos mercadores, na exploração da usura, na especulação comercial com a escassez de bens, na monopolização de certas mercadorias e nos riscos marítimos. Agora se dedica, principalmente, à exploração da nova fonte de riqueza representada pela aplicação de capitais em sistemas fabris de produção em massa, movidos por novas fontes de energia inanimada, cuja expansão demandava uma reordenação mais radical na estrutura da sociedade. Com a nova tecnologia tornara-se possível e vantajosa a conversão de toda mão-de-obra, inclusive a escrava, em força de trabalho assalariado, e fizera-se necessário operar urgentemente essa conversão para liquidar as formas de produção artesanal, ainda sobreviventes em todo o mundo, a fim de atribuir novas funções aos trabalhadores. Impunha-se, também, elevar seu nível de produtividade e consumo com o objetivo de alargar o mercado dos produtos industriais para dar lugar a uma expansão continuada do sistema fabril.

Desde princípios do século XVIII, a Inglaterra, que havia ampliado seu poderio naval e o sistema capitalista mercantil de base mundial nele assentado, vinha acumulando aplicações tecnológicas de princípios científicos aos processos produtivos, na forma de fábricas e de explorações minerais. Conseguira, dessa forma, implantar uma economia industrial essencialmente urbana, que passara a produção agrícola para um segundo plano, gerara transformações radicais em sua estrutura social e lançara as bases da Revolução Industrial.

Essa renovação tecnológica enseja o amadurecimento do novo empresariado, que promove o recrutamento maciço de antigos artesãos desempregados e de trabalhadores rurais desalojados do campo. para organizá-los em fábricas, como operadores de engenhos mecânicos movidos por novos conversores de energia. Esse desenvolvimento processou-se em três passos, o primeiro dos quais com a invenção e a difusão das máquinas a vapor que utilizavam o carvão como combustível. Sua aplicação às minas, na forma de bombas de água e elevadores de carga, permitiu ampliar fantasticamente a produção de carvão.

Como mecanismo de conversão do vapor em energia mecânica, pôde ser atrelado a diversos dispositivos industriais para produzir máquinas operatrizes, com as quais se multiplicou a produtividade das tecelagens e metalúrgicas. Como locomotiva, revolucionou os transportes terrestres e, como navio a vapor, os marítimos. A partir de 1820, protótipos cada vez mais aperfeiçoados dessas máquinas multiplicaram-se na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França, de onde passam a ser exportados como mercadorias para todo o mundo, alargando as bases de expansão da civilização industrial.

Aos conversores de energia baseados em dispositivos de queima do carvão para produção de vapor acrescentaram-se depois outros conversores cada vez mais eficazes. Esse foi o segundo passo da Revolução Industrial, que se deu na passagem do século XIX ao XX com o surgimento e a generalização do uso de motores elétricos, fundados na energia hidráulica. O terceiro passo corresponde ao desenvolvimento e difusão, depois da Primeira Guerra Mundial, dos motores a explosão que utilizam combustíveis de petróleo.

A essas inovações da tecnologia industrial somaram-se aperfeiçoamentos dos processos produtivos agrícolas e pastoris, que tiveram um papel da maior relevância na ampliação das disponibilidades de alimentos, viabilizando o aumento populacional das áreas recém-modernizadas. Tais foram: a generalização das técnicas de cultivo anual de toda a terra arável através da rotação de culturas e do uso de fertilizantes; a melhora do sistema de aração e da erradicação de pragas; a mecanização das atividades agrícolas; a seleção de sementes; o aprimoramento genético dos rebanhos de gado de corte, de leite e de lã. Esses avanços foram acompanhados da difusão de plantas cultivadas originariamente nas Américas, como um novo tipo de algodão e, sobretudo, a batata, o milho, a mandioca, o amendoim, o cacau, o tomate e muitas outras, que enriqueceriam extraordinariamente a dieta humana.

Surgem, desse modo, os primeiros países "desenvolvidos" como economias capitalistas industriais, cujo objetivo supremo e cuja condição de existência passam a ser a expansão constante de sua riqueza e poder através da elevação da produtividade do trabalho, da maximização dos lucros e do domínio de mercados de escala mundial.

 

Imperialismo Industrial e Neocolonialismo


No desdobramento de suas potencialidades, o primeiro processo civilizatório fundado na Revolução Industrial vai impondo tamanhas alterações nos modos de ser das sociedades humanas que acaba por integrá-las todas num só sistema interativo e por configurar uma nova formação sócio-cultural, também bipartida em dois complexos tecnologicamente defasados e economicamente contrapostos, mas complementares: o superior, de algumas nações capitalistas mercantis, de dominação imperialista industrial, e o inferior, de áreas coloniais como o surgimento de uma nova forma de dependência: o neocolonialismo.Nos seus primeiros passos, o processo de industrialização é principalmente dissociativo e extremamente conflitivo.

Internamente, agrava ainda mais os efeitos deletérios da reordenação capitalista, aprofundando a diferenciação social. Provoca uma intensificação do êxodo rural-urbano, acumulando nas cidades enormes massas marginalizadas. Quando estas ameaçam desencadear uma pressão irresistível de reordenação do sistema, intensificam-se os movimentos migratórios induzidos pelas autoridades governamentais, a fim de se livrarem dos ”excedentes" populacionais. Essas transladações humanas e o consumo de gente em guerras sucessivas devem ter retirado do quadro europeu cerca de 100 milhões de pessoas no último século e meio, propiciando a indispensável distensão consolidadora do sistema capitalista industrial.* Se a essa redução se acrescentassem os efeitos constritores da restrição da natalidade, que então se generalizara nas nações industrializadas, o montante duplicaria.A Inglaterra e a França são as nações que primeiro amadurecem como formações sócio-culturais imperialistas industriais. A mesma façanha é cumprida, logo a seguir, pelos Estados Unidos. Este país, contando com imensas disponibilidades de terras virgens e de recursos naturais, consegue mesmo industrializar-se, incorporando à força de trabalho toda a sua população e, ainda, enormes contingentes europeus.

Graças ao constante crescimento da produtividade do trabalho e ao desgaste de seus excedentes populacionais, as nações precocemente industrializadas conseguem, a certa altura, elevar substancialmente o padrão de vida de suas populações; organizar regimes democrático-parlamentares que ensejam uma participação crescente do povo na formação dos órgãos do poder político; escolarizar toda a população em escolas públicas de nível elementar, e, mais tarde, levar parcelas crescentes à educação de nível médio e superior. Simultaneamente, melhoram os seus níveis de sanidade, alarga-se a expectativa de vida e formulam-se novos ideais de liberdade, de justiça e de igualdade.

Na ordem externa, impõe condições de extrema penúria aos povos já submetidos ao estatuto colonial. Suas populações são duplamente conscritas ao novo sistema produtivo, as classes dominantes na qualidade de estamentos gerenciais de interesses exógenos e a massa da população na condição de "proletariado externo" engajado na produção de matérias-primas. Sob o domínio do imperialismo industrial, o papel dos povos atrasados na história já não será o de prover tesouros pelo saque ou de abastecer o mercado mundial de ouro e prata e especiarias, e nem mesmo dos produtos tropicais clássicos, como o açúcar e outros. Sua função passa a ser o fornecimento de matérias-primas para a elaboração industrial, como os minérios, o petróleo, a borracha, o algodão, os couros, as lãs e diversas outras produzidas, predominantemente, por trabalhadores assalariados que são também consumidores. A esses produtos acrescentam-se novos gêneros de exportação, como o café, o cacau, a carne bovina, as frutas tropicais etc., requeridos em proporções crescentes pelos mercados das sociedades industrializadas. Assim, o mesmo progresso da industrialização, que multiplica fábricas nos países cêntricos do sistema, alarga, simultaneamente, as áreas de plantação e de pastoreio comerciais, de extrativismo florestal ou de exploração de minérios nos países periféricos.

A implantação imperialista se dá em três etapas: Na primeira etapa, atua pela exportação de manufaturas e pela conquista de fontes privatistas de matérias-primas ou de mercados cativos. Na segunda, correspondente à fusão das empresas em grandes monopólios controlados por agências financeiras, passa a atuar principalmente pela exportação de capitais na forma de equipamento modernizador da infra-estrutura produtiva das nações atrasadas e de capitais de empréstimo a governos.

Com esse procedimento, intensifica-se a exploração dos povos situados em posição subalterna dentro do sistema, porque esta passa a ser fomentada pelo próprio instrumental de industrialização, que provê ferrovias, portos, sistemas modernos de comunicação e maquinaria especializada para suas atividades produtivas. Sua subordinação à órbita da potência-líder também se acentua. Na terceira etapa, os procedimentos financeiros são suplantados em favor da instalação, nos países dependentes, de subsidiárias das grandes corporações monopolistas, como dispositivos de exploração de riquezas minerais e de produção industrial para o mercado interno, com o fim de drenar os capitais gerados nas nações pobres para enriquecer ainda mais as nações opulentas. O primeiro modelo de ruptura desse círculo de domínio foi configurado pela Alemanha (1850-1914), pelo Japão (l890- 1920) e, mais tarde, pela Itália (1920-40), que conformam o padrão tardio de desenvolvimento.Como se vê, o impacto da Revolução Industrial se imprime diferencialmente, conforme se exerça direta ou reflexamente sobre os povos. No primeiro caso, configura as sociedades modernas; no segundo, o contexto de nações subdesenvolvidas.

A condição de subdesenvolvimento não representa, por isso, simplesmente, o atraso diante do progresso .

Representa, isto sim, uma seqüela necessária das próprias forças renovadoras da Revolução Industrial que geram, simultaneamente, dois produtos: os núcleos industriais como economias de alto padrão tecnológico e a periferia neocolonial de nações estruturadas menos para atender às suas próprias necessidades do que para prover aqueles núcleos de bens e serviços em condições subalternas. Suas populações são degradadas pela deculturação ou pela deterioração de sua economia tradicional, perdendo os níveis de desenvolvimento tecnológico que haviam alcançado para se transformarem principalmente em força de trabalho utilizada nas formas mais primitivas, como combustível humano do processo produtivo.

O subdesenvolvimento não corresponde, pois, a uma crise de crescimento, mas a um trauma em que submergem sociedades subordinadas a centros industriais, que se vêem ativadas por intensos processos de modernização reflexa e de degradação cultural. Somam-se a isso a explosão demográfica e a urbanização acelerada e caótica, agravando ao extremo as tensões sociais, que essas sociedades não têm meios de superar ou mesmo de abrandar, porque não poderão exportar seus excedentes populacionais, como o fez a Europa no mesmo passo.

Acresce, ainda, que as nações subdesenvolvidas não são apenas atrasadas, são também as nações espoliadas da história, empobrecidas pelo saque que sofreram originalmente das suas riquezas entesouradas e pela sucção secular dos produtos do trabalho de seus povos, através de sistemas inigualitários de intercâmbio. Soma-se a tudo isso a deformação de sua classe dirigente que, posta a serviço da espoliação estrangeira, não se torna capaz de amadurecer como um empresariado renovador e competitivo.

 

Expansão Socialista


Com base nas forças renovadoras da Revolução Industrial, desencadeia-se, depois da Primeira Guerra Mundial, um processo civilizatório novo, responsável pela estruturação das formações socialistas.

Dois movimentos básicos de restruturação social: Um de natureza evolutiva, resultante da acumulação de mudanças institucionais que descaracterizam o regime capitalista, a ponto de configurar algumas sociedades industriais como uma nova formação, o socialismo evolutivo. O outro, de natureza revolucionária, conduzido intencionalmente como um esforço político de ruptura com os fatores inibitórios do desenvolvimento industrial autônomo: o socialismo revolucionário e o nacionalismo modernizador.Na construção do modelo teórico das formações socialistas evolutivas, o paradigma mais amadurecido é representado pelos países escandinavos, que se vêm estruturando como uma nova formação sócio-cultural graças à combinação de certos procedimentos coletivistas de produção e de consumo e à atribuição de maiores responsabilidades sociais ao Estado pelo destino de suas populações.

Outra via alternativa da evolução pós-capitalista é o socialismo revolucionário, tal como se configura na União Soviética, nas Repúblicas socialistas da Europa Oriental, na China, na Coréia do Norte, no Vietnã do Norte e em Cuba. A principal característica dessa formação sócio-cultural é sua racionalidade, enquanto concretização planejada de um projeto de reforma intencional das sociedades humanas, levada à prática através de movimentos revolucionários.

Com a formulação das doutrinas socialistas, especialmente do marxismo, prefigurou-se para as camadas assalariadas, sobretudo para o proletariado fabril, um modelo teórico de transformação intencional das sociedades e se definiu uma estratégia de combate que, pela primeira vez na história, prometia abrir às camadas subalternas perspectivas de concretizar velhas aspirações de reestruturação completa das bases da vida social. De acordo com essa teoria, a classe operária está destinada historicamente, a atuar como força motriz de uma revolução social que promoverá a suplantação de todas as formas de espoliação e de alienação dos homens, mediante a eliminação da propriedade privada dos meios de produção e a conseqüente erradicação da estrutura classista das sociedades e, com ela dos mecanismos de opressão do Estado.

O modelo teórico do socialismo marxista tem de peculiar seu duplo caráter de previsão de uma nova etapa da evolução humana e de projeto intencional de reordenação das sociedades segundo os interesses das categorias majoritárias da população.

Esse modelo foi inaugurado na Rússia, a partir de um projeto teórico de reordenação da sociedade. Sua elaboração constituiu um sério desafio, porque pela primeira vez se conseguia reestruturar racionalmente, por um ato de vontade, toda uma sociedade, a começar das suas bases. Tratava-se de atender objetivamente a antigas aspirações humanísticas dentro do enquadramento rígido dos fatores econômicos que fazem a prosperidade depender da capacidade de produção e o bem-estar depender de um difícil equilíbrio entre a necessidade de investimentos crescentes no parque produtivo e o desejo de alargar as facilidades de consumo popular.

O socialismo revolucionário e o socialismo evolutivo contrastam flagrantemente por seus perfis ideológicos. O primeiro, impregnado de ideais igualitaristas e de mística “utópica"; o segundo, imbuído de valores liberais e de uma antimística pessimista. O perfil ideológico do socialismo revolucionário, que procura explicitar-se como uma mística libertária e como o caminho do progresso para as sociedades atrasadas, não corresponde uma formulação equivalente do socialismo evolutivo. Essa antimística, porém, não significa uma ausência de ideologia, porque ela própria é a ideologia que não quer explicitar sua verdadeira função aliciadora em defesa de perpetuação da ordem social.



VIII -  Esquema  -  8ª Revolução Tecnológica: Termonuclear ou Científico-Tecnológica



Sistema tecnológico


* Base termonuclear e eletrônica (computador),


* Complexos industriais automatizados,


* Sistemas automáticos de produção química de sintéticos,


* Meios de telecomunicação de massa etc.


* Substituição do Trabalho Cerebral pelo Computador 



  Sistema associativo


* Possibilidade de generalização da prosperidade e de redução cada vez maior da divisão da sociedade em classes econômicas até sua extinção (dado o aumento fenomenal da produtividade do trabalho), contra a qual erguer-se-ão com vigor desesperado da luta pela sobrevivência todos os interesses privatistas, cujos privilégios se assentam na desigualdade social;


* Papel dos cientistas (antes considerados sábios e magos e agora com função meramente assessorial das altas hierarquias civis, militares e empresariais, nada dispostas a abdicar do poder);


* A ciência se translada do plano ideológico para o adaptativo: aceleração exponencial, profissionalização da ciência e tecnologia, expansão fantástica da aplicação de recursos na atividade de pesquisa e desenvolvimento tecnológico;


* Trabalhadores promovidos de manuseadores de ferramentas e operadores de máquinas a supervisores de sistemas produtivos ultracomplexos.



Sistema ideológico

 
*  Novos e prodigiosos sistemas de comunicação de massa para conformar uma opinião pública submissa e disciplinada, mediante uma doutrinação que a torne incapaz de qualquer opção radical;


* Questões de produtividade, custos e mercados lidam com aptidões e idéias transformadas em mercadorias (onde o menor problema criado é o da corrupção...);


* Função civilizadora dos povos atrasados na história (subdesenvolvidos) - ("cabe historicamente ao escravo o papel de combatente da liberdade" - Hegel);


* Formações socialistas de novo tipo;


* Superação da diferença entre cidade e campo e do trabalho braçal (praticamente proscrito)  e o trabalho intelectual;


* Tocqueville (previsão de despotismo) X Marx (novo homem total)


Texto  -  8ª Revolução Tecnológica Termonuclear e as "Sociedades Futuras" 

 
Estamos, - com a implantação da tecnologia científica moderna de base termonuclear e eletrônica -, diante de transformações tão prodigiosas das forças produtivas e tão prenhes de conseqüências que devamos classificá-las como uma nova revolução tecnológica. A acumulação de desenvolvimentos no campo das ciências básicas e suas aplicações tecnológicas na forma de armas termonucleares, de aviões a retropropulsão, de baterias solares e, sobretudo, de dispositivos eletrônicos ultra-rápidos fundados na tecnologia dos transistores, que permitiram produzir o radar e os novos computadores, os reatores nucleares, a luz corrente, o radiotelescópio, os projéteis espaciais, e, ainda, os complexos industriais automatizados, os sistemas automáticos de produção química de sintéticos, os meios modernos de telecomunicação em massa, os sistemas cibernéticos de coordenação de informações e de simulação de situações para fixação de estratégias militares e econômicas... o impacto dessas inovações faz-se sentir na vida diária do homem comum do nosso tempo, principalmente através de uma torrente de novos materiais, de novos tipos de máquinas operatrizes automatizadas e de formas revolucionárias de comunicação em massa e de difusão. Já se faz sentir, também, como efeito da multiplicação da acuidade dos sentidos humanos através de instrumentos ultra-sensíveis e da duplicação da capacidade de ação humana, através da contração do espaço e da extensão do tempo em graus antes inimagináveis. Seus efeitos cruciais estão concentrados, porém, na tecnologia militar, que lida com potencialidades absolutas de destruição da vida na Terra. As promessas da nova tecnologia, de proporcionar prodigiosas fontes de energia e uma abundância teoricamente ilimitada de bens e de serviços, são ainda meras expectativas. Entretanto, à medida que essas promessas entrem a cumprir-se, terá início um novo movimento do processo evolutivo pela morte da economia da escassez e o advento da economia da abundância, no bojo da qual deverão transmudar-se todas as formas atuais de estratificação social.

Em face desses desenvolvimentos futuros, que propiciarão a generalização da prosperidade, a divisão da sociedade em classes econômicas (surgida como fruto dos primeiros acréscimos revolucionários da produtividade do trabalho humano e que só permitia o progresso pela escravização de extensas camadas) tenderá a reduzir-se cada vez mais, até se extinguir completamente. Contra essa tendência, porém, erguer-se-ão com o vigor desesperado da luta pela sobrevivência todos os interesses privatistas, cujos privilégios se assentam na desigualdade social. Supunha-se que esse embate se desse de forma catastrófica, em certo nível do amadurecimento da nova economia. Sua universalização é que está em causa, neste momento, bem como as vias pelas quais se efetivará e os modelos de sociedade que deverão configurar os povos.

Uma coisa é o protótipo viável de um machado de pedra polida, de um arado, de um veleiro, de um automóvel ou de um aparelho de televisão; outra coisa é a entrada em uso de milhões dessas inovações.

A designação de Revolução Termonuclear para essa onda emergente de inovações tecnológicas justifica-se tanto pelo caráter crucial do fator energético na evolução humana a que se refere como pelo impacto que a competição atômica entre a América do Norte e a União Soviética desencadeou sobre a humanidade, desde o fim da última guerra mundial. Essa competição conduziu a uma recolocação de recursos financeiros e humanos sem paralelo na história.

Década de 60: a América do Norte aplicou cerca de 75% do seu orçamento em atividades de defesa (84 mil milhões de dólares em 1966). Nelas já gastou mais de 897 mil milhões de dólares desde 1946 e ocupa um exército de 6 milhões de combatentes (NATO, SEATO etc.) espalhados pelo mundo, além de 350 mil cientistas e tecnólogos que representam cerca de novecentas diferentes especialidades. Como as inversões militares soviéticas e chinesas devem ser equivalentes, verifica-se que estamos diante de um fato novo e decisivo por sua magnitude e pela sua capacidade de afetar as sociedades humanas. Somente uma parcela dessa fantástica mobilização de recursos se aplica na tecnologia nuclear. A própria guerra que se prevê não se designa mais como atômica, mas como químico-bacteriológica-radiológica ou pela sigla sinistra QBR.A Revolução Termonuclear, mesmo nesses seus primeiros passos, colocou nas mãos das sociedades mais avançadas somas tão fantásticas de poder destrutivo, construtivo e constritivo que tanto pode conduzir o homem ao reino da fartura e da eqüidade como pode desencadear um processo de deterioração sócio-cultural e até biológica mais profundo que qualquer das regressões anteriores. Desde seus primeiros passos, a Revolução Termonuclear provocou a mobilização de todos os quadros científicos das respectivas áreas de influência para tarefas de investigação de natureza militar. As universidades e os centros de pesquisa assim conscritos perderam grande parte da autonomia e até mesmo a capacidade de exercer suas funções decisivas de núcleos de pensamento independente e de criatividade cultural livre. Naqueles primeiros momentos, os cientistas, tratados como um misto de sábios e de magos detentores dos segredos da bomba, experimentaram a ilusão de que assumiriam, afinal, as alavancas do poder. Foram, porém, reduzidos, progressivamente, a uma função meramente assessorial das altas hierarquias civis, militares e empresariais, nada predispostas a abdicar do poder que detinham. E, mais do que isso, viram-se submetidos aos sistemas mais vexatórios e opressivos de vigilância policial, ao mesmo tempo em que se defrontavam - já de mãos atadas - com os problemas éticos de agentes humanos do desencadear de forças naturais capazes de dar fim a todas as formas de vida.

A própria ciência, como fator cultural, se translada do plano ideológico para o adaptativo, convertendo-se, de uma expressão abstrata do esforço humano de compreensão da experiência, no mais eficaz dos agentes de ação sobre a natureza, de reordenação das sociedades e de configuração das personalidades humanas.

Para isso contribuem: Primeiro, o desenvolvimento exponencial experimentado pelos conhecimentos científicos no século XX, acompanhado de uma redução drástica do intervalo entre os progressos teóricos e suas aplicações práticas, de modo a fundir a ciência e a tecnologia numa entidade única no plano operativo. Entre as experiências de Faraday (1821) e a integração dos motores elétricos no sistema produtivo (1886), mediaram 65 anos. Entre os estudos de Maxwell e Hertz e a comercialização dos aparelhos de rádio passaram-se 35 anos (1887-1922). Mas entre as formulações teóricas e a comercialização tecnológica do radar (1935-40), da bomba atômica (1938-45), do transistor (1948-51) e da bateria solar (1953-55) mediaram períodos muito inferiores, como o revelam as datas.

Segundo, a profissionalização da ciência e da tecnologia avançada, que, de atividade lúdica ou inusitada nos princípios do século, se vai convertendo em ocupação ordinária de um contingente humano que deve estar alcançando 1 milhão de pessoas na década de 60. Seu ritmo de incremento é tão intenso quanto o dos operários fabris dos primeiros passos da Revolução Industrial.

Em terceiro lugar, a expansão fantástica da aplicação de recursos nas atividades de pesquisa científica e de desenvolvimento tecnológico de projetos. As despesas de tais programas por parte do governo norte-americano, que vinham crescendo na proporção de um dólar, em 1920, para quatro, em 1940, saltaram a 35, em 1950, e a 175, em 1960. Em números absolutos, essa progressão foi de 80 milhões de dólares, em 1920, para cerca de 16 mil milhões, em 1963. Tudo indica que os investimentos russos em pesquisa científica e tecnológica sejam ainda mais altos e que os chineses estejam se aproximando cada vez mais dessas magnitudes.

Os efeitos dos novos processos produtivos sobre as relações de trabalho apenas começam a tornar-se mensuráveis. Suas conseqüências mais singelas são as desconexões de caráter mecânico entre fontes de energia e máquinas, ou entre máquinas e matérias-primas, ou, ainda, entre máquinas e máquinas que compelem já à substituição periódica de setores inteiros do parque produtivo. Por exemplo, o desuso do equipamento químico-industrial ou dos parques de máquinas têxteis, inadaptáveis aos fios sintéticos. Mais grave são as desconexões humanas, representadas pelo desuso de especializações profissionais que se tomam arcaicas - como os antigos foguistas das locomotivas, substituídos por motores diesel e elétricos e que, em conseqüência, se vêem deslocados e obrigados a reajustamentos sucessivos, em muitos casos impossíveis.

Essa ordem de desajustamento tende a crescer cada vez mais, atingindo, primeiro, alguns setores da força de trabalho, produzindo, depois, massas de deslocados, e gerando, por último, multidões de marginalizados social e ocupacionalmente e, assim, condenados a viver como pensionistas do Estado. O controle das tendências dessas massas desajustadas à insubordinação consistirá num desafio muito mais agudo que aquele com que defrontaram as primeiras sociedades industriais, atenuado, então, pela exportação maciça dessas populações para áreas coloniais e pelos desgastes humanos em guerras. Os novos problemas sociais não admitem, porém, soluções tão singelas, porque põem em causa, de forma ainda mais dramática, a incompatibilidade da ordenação social com a tecnologia produtiva que opera e porque os impulsos de reordenação social já se exercem sobre as sociedades de um novo tipo, cujas populações são, provavelmente, mais capazes de autodefesa contra a opressão. A combatividade do novo negro norte-americano em sua luta contra a discriminação racial dá-nos uma medida dessa capacidade de autodefesa das camadas marginais das sociedades avançadas.

A fonte principal dessas tensões é a promoção dos trabalhadores, da condição de manuseadores de ferramentas à de operadores de máquinas e, finalmente, à de supervisores de sistemas produtivos ultracomplexos. Estes, além de exigir muito menor número de trabalhadores, não carecem de energia muscular nenhuma e não requerem qualquer adestramento profissional. Em compensação, exigem, de seus supervisores, uma qualificação educacional cada vez mais alta. Sua implantação na indústria importa, em primeiro lugar, na eliminação maciça de trabalhadores, e, a seguir, na proscrição progressiva da "aristocracia operária", constituída pelos trabalhadores grandemente especializados, para dar lugar a um contingente novo de operadores cada vez mais intelectualizados e mais parecidos com as velhas camadas de empregados burocráticos e com os engenheiros modernos.

Esse complexo de desconexões mecânicas e humanas requer, além de reajustamentos no parque fabril, na força de trabalho e nas instituições de previdência e amparo, uma revisão completa do sistema educacional. Transformando a escolaridade num drástico setor social, que exclua da vida produtiva os não-instruídos, toma-se imperativa a abertura do sistema escolar de todos os níveis à totalidade da população; impõe-se a revisão de todo o seu conteúdo curricular para ajustá-lo aos graus de integração das ciências na cultura, e toma-se indispensável o acesso de toda a força de trabalho a uma reeducação continuada e de alto padrão ao longo de toda a vida produtiva.

Ante esses desafios, essas sociedades tendem a reagir com esforços obstinados a fim de evitar que a revolução tecnológica ponha em risco os interesses investidos e ameace as estruturas tradicionais de poder. Para isso, condicionam a aplicação das potencialidades de multiplicação da produtividade à consolidação do regime vigente e procuram utilizar exaustivamente os novos e prodigiosos sistemas de comunicação em massa para conformar uma opinião pública submissa e disciplinada mediante uma doutrinação que a torne incapaz de qualquer opção radical.

Contribuirão decisivamente para uma reversão os movimentos de emancipação política, econômica e cultural em que estão empenhadas as nações subdesenvolvidas. Espocando, simultaneamente, em todo o mundo, ameaçam liquidar as bases neocoloniais do sistema imperialista, compelindo à criação de novas constelações internacionais. Desse modo caberá aos povos atrasados na história uma função civilizadora do povos mais evoluídos, tal como, no paradoxo de Hegel, cabia historicamente ao escravo o papel de combatente da liberdade.

As vantagens alcançadas pelas sociedades mais avançadas poderiam induzi-las a se fecharem sobre si mesmas para fruir seus progressos. Sua dependência do sistema mundial de intercâmbio obrigá-las-á, porém, a interagir com os povos mais atrasados. E esses, à medida que se tornem capazes de defender seus próprios interesses, imporão novas formas de interação cada vez menos espoliativas às relações internacionais.

Por todos esses caminhos, o que está em marcha é uma etapa evolutiva nova, que transmudará, mais uma vez, a condição humana agora de forma ainda mais radical, porque colocará, finalmente, a ação modeladora de uma revolução tecnológica sob o controle de uma política intencional de base científica. Assim, na medida em que a ciência se translada do plano ideológico para o adaptativo, confundida com a tecnologia, a intervenção racional humana é que passará a gerir a história.

Até essas atitudes, porém, muitos obstáculos terão de ser superados. Em primeiro lugar, o das carências elementares - como a fome, a falta de vestimenta, de moradia, de facilidades sanitárias mínimas contra enfermidades curáveis e o acesso a um mínimo de escolaridade - que afligem a quase-totalidade da espécie humana. Esse problema capital está intimamente relacionado com a orientação do esforço científico e tecnológico, voltado, hoje, predominantemente, para tarefas de destruição. Apenas uma percentagem irrelevante dos recursos investidos em pesquisa se dirige à busca de melhores soluções para os problemas representados por aquelas carências fundamentais de bens e de serviços. Temos um exemplo deles na composição do corpo de tecnólogos e cientistas norte-americanos: 140 mil se ocupam em pesquisas aeronáuticas, espaciais e de eletrônica militar, mas apenas 1200 se dedicam a problemas da indústria têxtil, 4 mil estudam cimento e problemas de edificação e 5 mil investigam metalurgia básica.

Soma-se a esse problema o peso das diferenças de classe e da discriminação racial, que continuam impondo condições desumanizadoras à maioria da espécie humana. A superação desses percalços, hoje aparentemente intransponíveis, pode fazer-se pela aceleração evolutiva acionada pela própria Revolução Termonuclear no curso do processo de modelação das sociedades futuras. Não será alcançada, porém, de forma espontaneista, porque importará num esforço extraordinário, só praticável através de um planejamento rigoroso e da mais completa cooperação internacional.

As características dessas sociedades futuras são, hoje, pouco previsíveis. Entretanto, algumas delas já são visíveis em nossos dias. Assim é que se pode afirmar que o sentido do desenvolvimento humano aponta para a configuração das sociedades futuras como formações socialistas de um novo tipo. Estas serão, com toda a probabilidade, sociedades não estratificadas em classes econômicas, embora de caráter infinitamente superior ao das comunidades tribais indiferenciadas de que a humanidade partiu há dez milênios e em que prevaleciam relações pessoais e igualitárias.

Uma característica já visível das sociedades futuras será a superação da diferença entre cidade e campo, pela industrialização das atividades agrícolas em curso e pela expansão das cidades sobre as áreas adjacentes. Outra característica será a superação da distância entre o trabalho braçal - praticamente proscrito - e o trabalho intelectual. A composição da força de trabalho será, majoritariamente, de pessoas com preparo de nível universitário, dedicadas a toda sorte de tarefas, principalmente as educacionais, assistenciais, culturais e recreativas, que experimentarão enorme expansão. Esses níveis mais altos de preparo educacional terão igualmente o efeito de fazer, da maioria dos homens, herdeiros do patrimônio cultural humano, tornado comum, e uma proporção ponderável deles capaz de criatividade artística e intelectual.

A ruptura entre o produtor e o produto do seu trabalho provocada pela mercantilização do artesanato e acelerada, mais tarde, pela industrialização será, dessa forma, superada, permitindo a cada pessoa exprimir-se no que faz. O desejo de beleza, que amanheceu tão cedo nas sociedades humanas expresso em toda sorte de artefatos mais perfeitos e trabalhos do que o necessário para serem operativos e foi tão cedo soterrado pela mecanização e pela especialização, voltará a florescer. Quebrar-se-ão, assim, os círculos fechados de artistas herméticos e de apreciadores eruditos para devolver a arte e a criatividade artística ao homem comum.

Tocqueville, ideólogo do liberalismo, apreensivo com o amadurecimento dessas tendências despersonalizadoras e despóticas, perceptíveis em seu tempo, registrou, em 1835, a seguinte antevisão das sociedades futuras:

Vejo uma multidão inenarrável de homens, iguais e semelhantes, que giram sem descanso sobre si mesmos com o único fim de satisfazer os pequenos e vulgares prazeres com que enchem suas almas. Cada um deles vive à parte, alheio ao destino de todos os demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ele toda a espécie humana. Enquanto concidadãos, está junto deles sem vê-los; toca-os sem o sentir. só existe em si e para si mesmo. Se lhe resta uma família, pode-se dizer que já não lhe resta uma pátria. Acima de todos eles eleva-se um poder imenso e tutelar que se encarrega, sozinho, de garantir seus prazeres e de velar por eles. Este poder é absoluto, minucioso, regular, previdente e apacível. Pareceria um poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar os homens para a idade viril; ao contrário, porém, busca apenas fixá-los irrevogavelmente na infância. Não lhe desgosta que os cidadãos gozem, sempre e quando só pensem em gozar. Trabalha com gosto para fazê-los felizes, mas quer ser o único agente, o único árbitro. Supre sua segurança, provê suas necessidades, facilita seus gozos, gestiona seus assuntos importantes, dirige sua indústria, regula suas sucessões, divide sua herança. Ah, se pudesse livrá-los inteiramente do incômodo de pensar e da dor de viver!

 Um dos principais imperativos que as sociedades futuras terão de enfrentar será o de pôr sob controle essas tendências ao despotismo que preocupavam Tocqueville. Para tanto, terão de situar no centro das preocupações coletivas, como o valor mais alto, o cultivo e o estímulo ao livre desenvolvimento da personalidade humana, o incentivo a todas as formas de expressão da criatividade e a exploração de todas as potencialidades humanas de desenvolver formas de conduta solidária e socialmente responsável.

Em 1859, Marx, o ideólogo do socialismo, também procurou prefigurar as sociedades futuras, mas o fez a partir de uma posição otimista, que não via a prosperidade ordenada como uma condenação, mas como uma liberação de todas as potencialidades humanas:

De fato, diz Marx, uma vez abandonada a estreita forma burguesa, que será a riqueza senão a universalidade de necessidades, capacidades, gozos, poderes de produção etc. dos indivíduos, produzida no intercâmbio universal? Que será, senão o desenvolvimento pleno do domínio humano sobre as forças da natureza, as de sua própria natureza, assim como da chamada natureza? Que será. senão a explicitação absoluta de suas faculdades criadoras, sem outro requisito prévio que a evolução histórica precedente, que tornará a totalidade dessa evolução - isto é, a evolução de todos os poderes humanos como tais, sem os medir com nenhuma vara previamente estabelecida - um fim em si mesmo'? Que será isto, senão uma situação na qual o homem não se reproduza a si mesmo de uma forma determinada, senão que produz sua totalidade; em que não procura perdurar como algo formado pelo passado, mas se coloca no movimento absoluto do devenir? 

O futuro imediato das sociedades mais avançadas será o de Tocqueville ou de Marx, conforme se desenvolvam as virtualidades de despotismo ou de liberdade de que estão prenhes.

O futuro mais longínquo, o do homem, será, certamente, o da antevisão de Marx. Este se cristalizará no curso de uma civilização que amadurecerá com o novo homem, já não adjetivável étnica, racial ou regionalmente. Essa será a civilização da humanidade.

Referência Bibliográfica: "O PROCESSO CIVILIZATÓRIO" - Darcy Ribeiro – Companhia das Letras





Laymert Garcia dos Santos, Maria Rita Kehl, Bernardo Kucinski e Walter Pinheiro. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.

A fusão da biologia com a informática aumentou a capacidade de processamento e leitura das informações contidas nas moléculas de DNA e proteínas. Aberta essa possibilidade, os seres vivos transformam-se em pacotes de informação que podem ser utilizados para alterar os padrões de vida na terra ou, ainda, para reproduzir a própria vida. Em meio a um universo inesgotável de dados já mapeados, outra corrida tem início: a do garimpo de informações passíveis de serem traduzidas em mercadorias. Anuncia-se a possibilidade de transformação da nossa biodiversidade em riqueza, a partir da decodificação do genoma e proteoma para a produção de medicamentos, cosméticos etc. Nesse movimento, os seres vivos deixam de ser reconhecidos como tais - como as sementes transgênicas, por exemplo - e podem ser apropriados como inovação tecnológica. Sob a ótica da "virada cibernética", proposta pelo sociólogo Laymert Garcia dos Santos, é a aliança entre tecnociência e capitalismo que tem proporcionado a transformação de plantas, animais e seres humanos em banco de dados, em matéria-prima, a ser processada por uma tecnologia que lhes agrega valor.

Preocupado com o mito persistente de que as novas tecnologias só trazem benefícios e bem-estar e com a propalada necessidade do Brasil entrar na corrida da tecnologização e da transformação do mundo em um banco de dados, Laymert apresentou o ensaio A informação após a virada cibernética no ciclo de seminários sobre "Socialismo e democracia". O evento foi organizado pelo Instituto Cidadania, a Fundação Perseu Abramo e pela Secretaria de Formação Política do Partido dos Trabalhadores e tinha como objetivo o debate de questões que a contemporaneidade tem colocado para o movimento das esquerdas no Brasil. O livro Revolução tecnológica, Internet e socialismo apresenta o texto de Laymert, os comentários da psicanalista Maria Rita Kehl, do deputado do PT Walter Pinheiro e do jornalista Bernardo Kucinski e registros do instigante debate entre os participantes e o público que assistiu ao seminário.

Ao invés de discutir as perspectivas que a revolução tecnológica e a Internet abrem à luta pelo socialismo, Laymert colocou em discussão o campo de conflitos no qual estamos metidos desde que a "virada cibernética" deu fôlego ao capital e fragilizou os trabalhadores. O autor questiona a posição otimista diante dos avanços tecnológicos na medida em que as novas tecnologias não estão ao alcance da maioria de nós e nem mesmo cumpriram as promessas de criação de empregos e de estímulo à cidadania. Além disso, ele questiona a possibilidade e a necessidade da sociedade brasileira acompanhar o ritmo acelerado que a revolução tecnológica vem imprimindo ao desenvolvimento das nações.

Para compreender a sociedade atual, na ótica da "virada cibernética" de Laymert, é fundamental entender a aliança estabelecida entre o capital, a ciência e a tecnologia e perceber como essa aliança conferiu à tecnociência a função de motor de uma acumulação que transforma todo o mundo - matéria inerte, seres vivos e objetos técnicos - em dados, ao mesmo tempo em que consagra a inovação tecnológica como instrumento de supremacia econômica e política.

A percepção de que o mundo poderia ser transformado em um imenso banco de dados faz com que a idéia de "informação" possa ser aplicada a áreas do conhecimento, como a biologia, a física e a tecnologia - ao invés de restringir-se ao campo da comunicação. Por isso, Laymert acredita que os conceitos de informação e de tecnologias da informação, também precisam ser reconfigurados. A informação não pode mais ser entendida apenas como dado de realidade que permite a comunicação entre os seres humanos, e a tecnologia da informação não pode ser pensada apenas como a Internet ou a mídia em geral. A contemporaneidade exige que sejam extrapolados os parâmetros que geralmente definem esses conceitos abrangendo a noção tecnocientífica de informação.

Nesse sentido, Laymert coloca que as discussões sobre a democratização da informação e da Internet não podem mais se limitar à exaltação ou à crítica das novas mídias, pois extrapolam o campo de atuação desses meios e operam em diversos outros campos. Não podem também ficar restritas à idéia de que para promover a democratização da informação basta propiciar o seu acesso a uma maior parcela da população. Para o sociólogo, a questão não se situa apenas no acesso à informação, mas no processamento desta, que a transforma em um instrumento de conhecimento, de apropriação da vida e de geração de riqueza.

Enquanto a preocupação de grande parte do governo e de estudiosos parece situar-se no binômio inclusão-exclusão tecnológica, Laymert promove um deslocamento da discussão e defende a resistência à tecnociência. Resistência essa que passa pela luta em prol da manutenção da diversidade de culturas e de sociedades. "Em outras palavras, luta pela possibilidade de outros devires, diferentes daqueles concebidos pela tecnociência e pelo capital global", diz o sociólogo.

A psicanalista Maria Rita Kehl, focalizou seu comentário na necessidade da esquerda brasileira colaborar com a construção de um lugar próprio para o Brasil na era da globalização. Um lugar que, em sua opinião, não poderá ser construído em oposição a outras realidades e nem a reboque do ideal de ingressarmos no "primeiro mundo". Walter Pinheiro, deputado do PT, questionou a idéia de universalização da tecnologia e da informação associada apenas a democratização dos meios de comunicação e apontou os softwares livres como uma possibilidade real de transformação das noções de controle e propriedade ligados às novas tecnologias. Já o jornalista Bernardo Kucinski, criticou o que chamou de visão acadêmica "catastrófica" presente na exposição de Laymert e ressaltou o caráter libertário da revolução tecnológica comentando alguns exemplos, em especial, associados ao uso da Internet.

No cruzamento dos comentários tecidos no seminário, parece emergir um outro grande desafio que a esquerda brasileira terá que enfrentar com relação à revolução tecnológica: colocar em diálogo as diferentes visões sobre as novas tecnologias e suas implicações para o desenvolvimento da nação brasileira.

Fonte: Fundação Perseu Abramo






Séries






" O que digladia com monstros deve cuidar para que, na luta, não se transforme também em monstro. Quando tu olhas, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." (Nietzsche, Para Além do bem e do Mal)





  • Série Ciência, Tecnologia & Áreas do Conhecimento



Antropologia


“Se os humanos fazem as coisas, também as coisas (os objetos, os não-humanos, ou melhor, os "quase-sujeitos", "quase-objetos", na terminologia do autor) fazem os humanos. Ou ainda: “há tanto uma história social das coisas quanto uma história ‘coisificada’ dos humanos”. Isto equivale a afirmar que é simetricamente interessante “tanto a história do envolvimento dos humanos na construção dos fatos científicos quanto o envolvimento das ciências na feitura da história humana.”  (Latour-1994)


Fonte: Comunidade Virtual de Antropologia



"Ao considerar que as práticas de tradução e purificação, embora aparentemente se oponham, nunca deixaram de atuar juntas, concordamos com a afirmação de Latour de que 'jamais fomos modernos'."   (Carmem Lúcia Campos Guizze) 


Fonte: Seminários de Arquitetura, Ergonomia e Cognição II - FAU - UFRJ



"Portanto, para Leroi-Gourhan, a evolução técnica se insere num movimento mais amplo de delegação e de exteriorização corporal de funções assumidas pelo indivíduo ou pela espécie, em construções que lhe são exteriores. Formam-se, dessa maneira, ciclos de evolução nas interações entre as duas formas sociais e técnicas de exteriorização corporal: as técnicas e as sociedades são partes constituintes de um mesmo organismo, sem o qual elas não têm nenhum sentido." (Carlos José Saldanha Machado)

Fonte: DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.7  n.1   fev/06   






Bioética


"Este artigo apresenta uma reflexão sobre os avanços da tecnociência e suas eventuais interferências sobre o meio ambiente. Mostra o resgate da ética da responsabilidade sugerida em obras produzidas no século XX, desde Max Weber até Hans Jonas. Faz uma avaliação crítica da ciência moderna e de seu braço armado, a tecnologia. Sugere a necessidade do ser humano agir com parcimônia e humildade diante do extremo poder transformador da tecnociência. Palavras-chave: Bioética. Tecnociência. Meio ambiente (José Eduardo de Siqueira).

Fonte: Revista Brasileira de Bioética






Ciência da Informação


Como subsídio adicional à análise do interrogante "ciência ou tecnologia da informação," BARBIERI (1990) ainda esclarece:“A tecnologia passa a ter na ciência uma das suas principais fontes de aperfeiçoamento e a ciência não se desenvolveria sem que avanços tecnológicos permitissem criar novos instrumentos para os trabalhos científicos. Por outro lado,mesmo com a crescente contribuição da ciência, a tecnologia moderna não prescinde de conhecimentos e habilidades de outra natureza, adquiridos na lida com problemas práticos... A reunião do conhecimento sistemático com a prática remete ao conceito de arte..."                 ( Ricardo Orlandi França, pag 35)

Fonte: Perspec. Ci. Inf., Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 27-39, jan./jun. 1996



“(...) urgente destacar os ... aspectos civilizatórios ligados ao surgimento da multimídia: novas estruturas de comunicação, de regulação e de cooperação, linguagens e técnicas intelectuais inéditas, modificação das relações de tempo e espaço etc. ... Escolhas políticas e culturais fundamentais abrem-se diante dos governos, dos grandes atores econômicos, dos cidadãos. Não se trata apenas de raciocinar em termos de impacto ... mas também em termos de projeto ...  LÉVY, p.13, destaques, no original ". (Isa Maria Freire)


Fonte: Perspectivas em Ciência da Informação



“Pela humanidade, declaramos: (...) Que faremos uma rede de comunicação entre todas as nossas lutas e resistências. Uma rede intercontinental de resistência, de comunicação alternativa contra o neoliberalismo e pela humanidade. Esta rede buscará os canais para que a palavra caminhe pelos caminhos que resistem. Será o meio para que se comuniquem entre si as distintas resistências. Esta rede não é uma estrutura organizativa, não tem centro diretor nem decisório, nem comando central ou hierarquias. A rede somos todos os que falamos e escutamos.”(Dênis de Moraes)

Fonte: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação






Ciência Política


" Para Manuel Castells (1999), a terceira revolução tecnológica caracteriza-se pelo fato de que, pela primeira vez, há uma assumpção da mente humana como força direta de produção, não se limitando a um simples elemento no sistema produtivo. Isso ocorre em um contexto de unificação do conhecimento aplicado e da informação necessária à geração de novos conhecimentos em um ciclo retroalimentador que torna muito mais rápida a difusão de novas tecnologias, que são reapropriadas e redefinidas pelos usuários."  (Sandra Rodrigues Braga  e  Vânia Rúbia Farias Vlach)


Fonte: Scripta Nova - Revista Eletrónica de Geografía y Ciencias Sociales



" Poder-se-á ainda insistir em que a maquinaria do universo tecnológico é, `como tal`, indiferente aos fins políticos – pode revolucionar ou retardar uma sociedade. Um computador eletrônico pode servir ao mesmo tempo a uma administração capitalista ou socialista; um ciclotron pode ser uma ferramenta igualmente eficiente para um grupo bélico ou um grupo pacifista. Essa neutralidade é contestada na discutida declaração de Marx de que o “engenho manual dá-lhe sociedade com o senhor feudal; o engenho a vapor, com o capitalismo industrial”. E essa declaração é mais adiante modificada pela própria teoria marxista: o modo social de produção, e a não a técnica, é o fator histórico básico. Contudo, quando a técnica se torna a forma universal de produção material, circunscreve toda uma cultura; projeta uma totalidade histórica – um mundo (Marcuse, 1973: 150)".  [J. Sousa/E. Geraldes]

Fonte:  Instituto de Ciências Cognitivas






Comunicação


“o ser vivo resolve problemas, não apenas adaptando-se, ou seja, modificando sua relação com o meio (como uma máquina pode fazer), mas modificando-se ele mesmo”, inventando estruturas internas novas, introduzindo a si mesmo, inteiro, no centro dos problemas vitais. A imagem torna-se aqui “sujeito”, ou melhor “autor” ou “ator”. Essa noção está muito próxima da chamada ontogênese, um “pôr em obra” da forma do ser vivo - Simondon, 1958." (Renata Rezende)

Fonte: XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - Porto Alegre RS, 2004



" Os intelectuais que se reconhecem na perspectiva de um aperfeiçoamento da inteligência coletiva devem então continuar a construção inacabada da nova matriz cultural. Um dos objetivos da iniciativa concertada seria representar a natureza simbólica da mente humana, sob a forma de um cosmo de diversidade qualitativa praticamente infinita, mas matematicamente organizada, explorável, observável e simulável no ciberespaço. Esse novo empreendimento intelectual poderia fornecer um começo de solução para o problema da fragmentação das ciências humanas e permitir, às nossas sociedades em rede, uma colaboração mais eficiente a serviço do desenvolvimento humano." (Pierre Lévy)

Fonte: Le Monde Diplomatique



"Com o intuito de representar a noosfera como um cosmo matematicamente organizado e explorável, pesquisadores elaboraram um sistema de endereçamento semântico universal. O "Metalinguagem da Economia da Informação" (IEML) possibilita a integralidade dos universos conceituais de diversas culturas e a reflexibilidade da inteligência coletiva no ciberespaço." (Pierre Lévy)

Fonte: Le Monde Diplomatique






Direito


A contra-prestação do incentivo fiscal é a proteção da inatacável lucratividade, essência da tecnologia capitalista. Mas, como contrapartida da acumulação capitalista, na outra ponta, a par do desemprego com todos os seus efeitos perversos, a acumulação é de miséria e perdas, algumas de difícil reparação (Miguel Lanzellotti Baldez).

Fonte: Revista Teórica, Política e de Informação






Economia


"Veblen publicou onze livros. Destacaram-se nesta produção, que influenciou mais que a economia, Teoria da Classe Ociosa, de 1989, e Teoria da Empresa Industrial, de 1904. Seu pensamento pode ser sumarizado como marcado pela identificação de dicotomias básicas nos campos da psicologia, economia e sociologia: no campo psicológico a dicotomia seria entre o instinto predatório e o instinto construtivo; na economia a dicotomia realizar-se-ia pela oposição entre negócio e indústria; na sociologia a divisão seria entre ócio conspícuo e o homem comum, visto por ele como o ethos do engenheiro, do técnico, do trabalhador versus o  comportamento típico de banqueiros, corretores, advogados, burocratas e suas emulações consumistas, pecuniárias etc. Trata-se, no essencial, de ver a sociedade capitalista como tendo contraposição básica em que, de um lado, há uma série composta dos seguintes elementos – agressividade, dominação, conflito, negócio, aquisição, lucro, dinheiro, absenteísmo, propriedade privada, ócio e consumo conspícuos, acumulação pecuniária, a exploração social, e sexual – e de outro lado, uma outra série em que articulam-se o sentido de grupo, a curiosidade desinteressada, a criatividade, a construção, a produção, a propriedade coletiva, a cooperação, o homem comum, o engenheiro, o técnico, o trabalhador (VEBLEN, 1965 e 1967)." [João Antônio de Paula, Hugo E. A. da Gama Cerqueira, Eduardo da Motta e Albuquerque]


Fonte: Universidade Federal de Minas Gerais - Cedeplar



"O enfoque Evolucionário, ao contestar o primeiro elo da cadeia linear de inovação, critica o modelo tradicional de oferta e demanda (technology push e demand pull). A preocupação do enfoque Evolucionário no que diz respeito ao primeiro elo da cadeia linear de inovação pode ser verificada na prática através das tradicionais recomendações de políticas de estímulo à relação universidade-empresa. Nesse sentido, Etzkowitz e Leydesdorff (1997) afirmam que a constituição de uma "hélice tripla" de relações entre academia, setor produtivo e governo representa um componente essencial de qualquer estratégia inovativa, nacional ou multinacional." (Rafael Dias e Renato Dagnino)

Fonte: Unicamp



" Fatos novos requerem teorias novas, é certo. Mas, a seqüência  abertura comercial  → acirramento da concorrência → inovações tecnológicas → aumento de produtividade → desemprego não constitui propriamente uma novidade. Afinal, é um dos fenômenos mais recorrentes da economia capitalista nos últimos 200 anos." (Cláudio L. Salm - Azuete Fogaça)

Fonte: Revista UFRJ






Filosofia


“O ponto de vista de Habermas é que, enquanto as formas especificamente históricas da ciência e da tecnologia dependam de arranjos institucionais que são variáveis, suas estruturas lógicas básicas estão fundamentadas na própria natureza do agir enquanto do agir racional com respeito a fins. ” (Andrew Feenberg)

Fonte: Universidade Federal de Santa Catarina



"O fundamental não é tomar o poder, mas recriar a sociedade, inventar de novo a política, evitar o conflito cego entre os mercados abertos e as comunidades fechadas, superar o colapso das sociedades naquilo que aumenta a distância entre os incluídos e os excluídos, entre os de dentro e os de fora. " (Allain Tourraine, Lettre a Lionel

Fonte: Revista Iberoamericana de Educación



A tecnologia pode, assim, ser definida como: O campo de conhecimento relativo ao desenho de artefatos e à planificação da sua realização, operação, ajuste, manutenção e monitoramento à luz do conhecimento científico. Ou , resumidamente: o estudo científico do artificial (Bunge, 1985b, p. 231).

Fonte: Scientiæ Studia, São Paulo, v. 2, n. 4, p. 493-518, 2004



A distinção entre existência e essência não é óbvia para as coisas naturais. A coisa e sua essência emergem juntas e existem juntos. A essência não parece ter uma existência separada. A flor emerge ao longo do que se vem fazendo numa flor: o que é e o que tem "acontece", de certo modo, simultaneamente. Nós podemos construir um conceito da essência da flor depois, mas este é o nosso fazer, não algo essencial à natureza como  é aos artefatos.  Na verdade, a própria idéia de essência das coisas de natureza é nossa construção. O que jaz na base de ciência, episteme em grego, é o conhecimento das coisas. Ao contrário do conhecimento que está ativo na techne que é essencial aos objetos cujas essências define, o episteme; o conhecimento de natureza, parece ser um fazer puramente  humano ao qual a própria natureza seria indiferente. É isto? É aqui que a história se torna interessante  (Andrew Feenberg ).

Fonte: Conferência pronunciada para os estudantes universitários de Komaba, junho, 2003



"No livro O futuro da natureza humana, Habermas mostra-se particularmente preocupado com as conseqüências de uma indeterminação entre cultura e natureza, mais especificamente, com a possibilidade de a "genética" vir a determinar características de organismos humanos. Decisão unilateral e irreversível, a manipulação genética acarretaria, segundo Habermas, conseqüências não apenas biológicas, mas morais: a pessoa submetida a tal tipo de intervenção teria inevitavelmente uma compreensão desumanizada de si."(Jonatas Ferreira)

Fonte: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência






Geografia


" Este artigo é fruto dos debates e reflexões vinculados à preparação e realização da mesa “Geopolítica da informação e do conhecimento e suas implicações nas estratégias de desenvolvimento” no Seminário “Desenvolvimento em Questão: que sociedade da informação e do conhecimento?”, realizado no Rio de Janeiro, em setembro de 2006. Apartir das três intervenções ocorridas durante o evento e dos debates que se seguiram, são abordados os temas relativos às desigualdades (no âmbito social, organizacional e territorial) no acesso a informações e conhecimentos estratégicos e desigualdades na capacidade de inovação e aprendizado." (Maíra Baumgarten)

Fonte: Instituto Brasileiro de Informação em  Ciência e Tecnologia






História


" (...) as novas e poderosas tecnologias da informação podem ser colocadas a serviço da vigilância, controle e repressão por parte dos aparatos do Estado [...] Do mesmo modo [que], podem ser empregadas pelos cidadãos para que estes aprimorem seus controles sobre o Estado, mediante o exercício do direito a informações" [...] (Castells, 2000, p. 348-349).

Fonte: Biblioteca Sebrae






Pedagogia


"As produções tecnológicas que antecedem a Revolução Industrial, partindo da pré-história, onde o homem inventou os primeiros instrumentos, eram empíricas – surgiram da prática cotidiana – relativamente simples. A maioria das pessoas detinham o conhecimento que estava incorporado a elas, pois as mesmas baseavam-se em conhecimentos, habilidades e matérias primas locais uma vez que o contato e a comunicação entre diferentes culturas quando existiam, eram precárias. "(João Josué da Silva Filho - UFSC /Marcos Lourenço Herter - UFSC)

Fonte:  Proposta Curricular



Há muitos exageros sobre a importância e o poderio da Internet, mas vale salientar que ela é posterior à invenção da organização social em redes, que, essencialmente, não depende dos aparatos telemáticos para se constituir, uma vez que se organiza através de outros códigos, como é o caso do tráfico nos morros do Rio de Janeiro e de muitos outros exemplos (Castells, 1999).

Fonte: Revista Brasileira de Educação v. 11 n. 31 jan./abr. 2006



"Este ensaio desenvolve pontos de relação entre sociedade, conhecimento e tecnologia com o recorte das teorias marxistas sobre produção social e educação, e a perspectiva sociogenética de Jean Piaget. Sua face oculta se refere às polêmicas sobre as possibilidades cognitivas abertas pelas tecnologias de informática e telemática. Relativizando uma e outra abordagem, buscamos - nos vários passos de construção - as referências teóricas para a interpretação e avaliação daquelas relações, com os olhos voltados à ação pedagógica em ambientes informatizados. " (Jairo Ferreira & Margarete Axt)

Fonte: Lelic UFRGS






Sociologia


"É interessante que mesmo no âmbito do pensamento marxista, autores como Andrew FEENBERG (1991), em “Minimalist Marxism in Critical Theory of Tecnology”, assumem ainda hoje a postura da neutralidade. Segundo ele, o estágio atual de desenvolvimento da tecnologia seria suficiente para levar o bem-estar ao conjunto da humanidade. Este potencial estaria sendo, entretanto, desperdiçado por estar a tecnologia sob a égide do capitalismo, o que levaria a sua aplicação destrutiva devido à busca da maximização do lucro, à manutenção do poder capitalista no local de trabalho e às implicações negativas para a saúde dos trabalhadores e para o meio ambiente."( Renato Dagnino )

Fonte: DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.3  n.6   dez/02 



A economia transforma-se, “(…) o produto e o processo inovam-se constantemente, através da interacção entre produtores e consumidores, num processo partilhado de rendimentos crescentes, que beneficia todos aqueles que participam na rede” (Castells, 2004: 130).

Fonte: Resenhas Educativas



"O que é a riqueza, senão uma situação em que o homem não se reproduz a si mesmo numa forma determinada, limitada, mas sim em sua totalidade, se desvencilhando do passado e se integrando no movimento absoluto do tornar-se? (Marx, 1991, pp. 80-81)."

Fonte: Directório del Estado






Teologia


"Para o cientista que viveu dentro da crença no poder da razão, a história termina como um sonho mau. Ele escalou a montanha de sua ignorância e está prestes a alcançar o mais alto cume. Ao alçar-se por sobre a última rocha, é saudado por um grupo de teólogos, que lá estavam sentados há séculos." (Hans Schwarz)

Fonte: DW-WORLD






Urbanismo


" Esta disciplina tem por objetivo a análise crítica de tecnologias aplicadas ao planejamento urbano e territorial com vistas à (re)apropriação social de paisagens urbanas (e rurais), consideradas como elementos fundamentais à qualificação do espaço das grandes metrópoles modernas e suas regiões. As paisagens sendo reveladoras das atitudes que a sociedade tem com seu meio ambiente, em diferentes épocas, constituem-se em objeto privilegiado de uma análise social e ambiental. O projeto de "redes ambientais de verde e água" passa a ter a mesma importância que o das demais redes de infraestrutura (adução e distribuição de água, drenagem, coleta e tratamento de esgotos e outros resíduos e sistema viário) e outros serviços urbanos, tanto do ponto de vista de sua construção técnica como de sua eficácia na promoção social.  (Prof. Dr. Jorge Hajime Oseki)

Fonte: USP/FAU






Tecnologia






Por José Goldemberg


O que está ocorrendo com a tecnologia nas últimas décadas lembra muito o que ocorre quando se assina um contrato de locação de um apartamento ou quando se faz um seguro de vida: na hora de assinar, ninguém se dá ao trabalho de ler as inúmeras cláusulas em letra miúda que constam do documento. Mais tarde, contudo, quando surgem os problemas, as pessoas se dão conta de que concordaram com condições inaceitáveis, lesivas, ou simplesmente inadequadas.

É por esta razão que existe tamanho esforço em explicitar quais as hipóteses implícitas na aceitação de determinadas tecnologias. Os adjetivos usados neste campo têm significado pouco claro e só recentemente é que se começa a distinguir claramente os seus matizes e nuanças.

Pode parecer um pouco surpreendente que o uso da tecnologia dê origem a estas complicações uma vez que, à primeira vista, ela decorre da aplicação dos conhecimentos das ciências exatas à solução dos nossos problemas. A verdade é outra: tecnologia é mais do que técnica.

Tecnologia é o conjunto dos conhecimentos de que uma sociedade dispõe sobre ciências e artes industriais, incluindo os fenômenos sociais e físicos, e a aplicação destes princípios à produção de bens e produtos.

Técnica é um item isolado deste conjunto de conhecimentos como, por exemplo, uma máquina, um processo industrial ou um programa de computação.

A maneira pela qual as diferentes técnicas são organizadas e integradas numa dada sociedade é o que se chama de sistema tecnológico, ou simplesmente tecnologia. O sistema inclui eficiência econômica, técnica, valores culturais e estratégia de desenvolvimento.

Um sistema tecnológico tem, portanto, muitas dimensões e certos parâmetros medem o que se passa em cada uma destas dimensões.

A tabela abaixo relaciona os mais importantes:



Dimensão e Parâmetro de Medidas




>   tipo de organização: centralizada - descentralizada

escala de operação:  grande - pequena

fatores de operação: intensiva no uso de capital - intensiva no uso de trabalho

intensidade no uso de recursos: pesada - leve

eficiência no uso dos recursos: eficiente - ineficiente

>
 nível de desenvolvimento: moderna - tradicional

>
 base de pesquisas:  simples - sofisticada

>  estado da “arte”: primitiva - intermediária - avançada



Diferentes sistemas de idéias políticas e sociais utilizam diferentes tecnologias para sua realização e, sob este ponto de vista, pensar que tecnologia é neutra e não depende do sistema de organização social é simplesmente incorreto. Tecnologia é um instrumento usado como muitos outros o foram no passado como, por exemplo, a escravidão. Como os escravos, porém, a tecnologia tem uma certa autonomia própria e em muitos casos se torna tão forte que acaba por alterar os valores sociais tradicionais que a colocaram em uso; o telefone, por exemplo, que foi criado para substituir o telégrafo, começou por ser um instrumento inócuo e pouco usado para se transformar num tipo revolucionário de comunicação nas sociedades modernas.

Neste contexto surgiu, nas últimas décadas, a idéia de tecnologia apropriada que foi popularizada pelo economista inglês E.F. Shumacher. Ela deu origem a uma enorme variedade de esforços e um grande entusiasmo em torno de temas, tais como “small is beautiful” e outros, tendo a ver com uma volta a uma vida rural simples sem a poluição e as complicações da vida moderna. Além disso, estas idéias têm muito a ver com as idéias de Gandhi de desenvolver a tecnologia simples, necessária para as pequenas vilas da Índia, que desse emprego às grandes populações indianas.

O conceito de apropriado foi logo estendido a outras situações e chegou-se ao extremo de ver pessoas responsáveis defender o uso de um determinado tipo de reatores nucleares como os mais apropriados para um dado país. O conceito é muito elástico e se presta a toda a sorte de interpretações.

Uma definição formal é a seguinte:

   “Tecnologia apropriada é um processo de estabelecimento dos efeitos sociais e ambientais de uma tecnologia proposta antes que ela seja desenvolvida, e a tentativa de incorporar elementos benéficos, nas várias fases de seu desenvolvimento e utilização”.

Claramente, esta definição implica uma avaliação tecnológica e escolhas adequadas. Em outras palavras, tecnologia apropriada não tem um significado intrínseco, a não ser que se especifique os elementos econômicos, sociais e culturais em que ela vai ser usada. Qualquer tecnologia pode ser apropriada, dependendo de quem vai usá-la e do fim a que se destina, mesmo porque ela não teria sido introduzida se não fosse útil para algum grupo social. Neste sentido, ela pode ser vista como apropriada por alguns e totalmente inadequada por outros, e não é, portanto, isenta de “política”, no sentido mais amplo da palavra.

Usualmente, contudo, o quanto uma tecnologia é apropriada depende dos seguintes aspectos sociais e econômicos:


1.    Satisfaz as necessidades das camadas mais pobres da população?

2.    Preserva ou não o meio ambiente?

3.    É adequada em relação aos recursos naturais disponíveis?

4.    Depende de fontes de energia renováveis ou depende de combustíveis fósseis?


Dentre estes critérios, o de satisfazer as necessidades dos pobres é o mais usado, por razões humanistas, que têm muito a ver com as idéias de Gandhi. Sobretudo nos Estados Unidos, há um grande número de grupos e pessoas tentando ajudar as nações menos desenvolvidas, através do desenvolvimento destas tecnologias.

As características gerais da tecnologia apropriada para estes grupos devem ser:



>  simples

>  de pequena escala

>  de baixo custo

>  intensivas no uso do trabalho.



Eles têm sido criticadas como correspondendo a opções tecnológicas de segunda classe, de serem destinadas a consumir poucos recursos naturais que seriam dirigidos às nações mais desenvolvidas e de criar um mercado para equipamento barato que viria das nações industriais e que manipulariam, assim, os hábitos de consumo dos menos desenvolvidos.

Esta concepção tem sido recebida também com grande ceticismo por muitos dirigentes de países periféricos, que acreditam que a solução para os seus problemas não reside no uso de uma “nova” tecnologia, mas em processos mais eficientes de transferência de tecnologia convencional para seus países, incluindo uma política de preços adequada para produtos primários que eles exportam.

Além disso, são muitos os que acreditam que tecnologias primitivas baseadas no nível das pequenas comunidades rurais não poderão trazer emprego e, muito menos, desenvolvimento para muitos países.

Para não haver dúvida que ao lado de tecnologia de pequena escala como bombas de irrigação, funcionando com energia solar ou fogões a lenha mais eficientes que reduzam a destruição das florestas, são indispensáveis represas e estações geradoras de energia elétrica.

É claro que ao construir uma estrada, um país menos desenvolvido não precisa usar a tecnologia de concreto armado em aplicação nos Estados Unidos; ele não pode, contudo, abrir mão de estradas que poderão ser construídas sem grandes tratores e equipamentos intensivos no uso de capital mas baseadas no uso intensivo de trabalho.

É uma mistura de tecnologias simples e sofisticadas, avançadas e primitivas, de pequena e larga escala, centralizadas e descentralizadas que será adequada, onde o grau da mistura será determinado por indicadores sociais e não apenas econômicos e tecnológicos.

Em suma, uma compreensão clara do que é tecnologia apropriada exige que se coloque no papel decisório central o interesse social da população (definido por processos democráticos de decisão) e, como acessórios, os métodos e tecnologias necessários para atingi-los.


Fonte: Publicado na revista "Encontros com a Civilização Brasileira", número 3.






Tendências






Ao formular perguntas sobre o meio e as formas de organização social da pesquisa que permitem e favorecem a produção de novos conhecimentos, e sobre o porque da prática científica ter se tornado um fenômeno de grande importância, os autores que no século passado criaram, praticaram ou ajudaram a desenvolver a sociologia dos cientistas como Bernard Barber, Bernice Eiduson, Gerard Lemaine, Joseph Ben-David, Norman Storer, Pierre Bourdieu, Robert Merton e Warren Hagström, ofereceram uma tríplice perspectiva sobre a questão da invenção. A primeira, tentou definir o funcionamento ideal e atemporal do mecanismo individual dos cientistas. A segunda, propôs uma focalização normativa baseada na questão de quais são as boas condições para inventar. A terceira, dá ênfase no contexto sociocultural, isto é, nas conjunções temporais favoráveis à emergência das descobertas. Nesse sentido, o modelo da sociologia dos cientistas abriu um campo inexplorado, constitutivo da invenção, que são os tipos de recompensa proposta ao pesquisador, as maneiras pelas quais eles obtêm retribuição, as maneiras de redigir as publicações, as relações sociais de um laboratório e sua motivação. Essa sociologia fez da descoberta o produto de um processo sociocultural. Contudo, ao descrever o comportamento do cientista como sendo o fruto de um sistema de concorrência, do qual ele é parte integrante, a sociologia dos cientistas juntou-se à filosofia clássica da ciência sobre uma das definições que ela dá do indivíduo: se ele não é genial, então, ele passa a ser totalmente absorvido no social. Ambos os modelos definiram as descobertas como acontecimentos surgidos naturalmente, que podiam ser identificadas sem nenhum problema e, uma vez identificadas, podiam ser explicadas ao serem relacionadas a acontecimentos anteriores. Em outras palavras, a invenção – e, com muita freqüência, invenção e descoberta não são diferenciadas, – consiste em revelar noções já objetivamente presentes onde um corpo de conhecimento científico e técnico, relativamente estruturado, num dado momento, permitiu a emergência das mesmas.

Mas, essa sociologia não nos permite compreender a singularidade da invenção e de um inventor no processo de inovação. Na realidade, a categoria da descoberta como acontecimento possível nunca foi questionada por ser considerada da jurisdição da atividade científica, permanecendo um ponto cego no processo de observação sociológica da inovação. A interpretação do conteúdo científico nunca foi abordada. Ficava-se, então, sem compreender como os cientistas trabalham e como eles decidem sobre se o que têm sob os olhos é novo ou autêntico, em resumo, se é uma descoberta.

Como se constroi o saber

 
Tal problemática será abordada, então, no vasto campo multidisciplinar de pesquisa conhecido, no mundo anglo-saxão e europeu, como Social Studies of Science ou Studies of Science. Trata-se de um campo formado por perspectivas novas sobre a maneira como se constrói o saber, perspectivas que começaram a emergir à partir de meados dos anos 70 do século passado quando historiadores, filósofos, antropólogos e sociólogos passaram a abordar novos problemas, tanto disciplinares quanto interdisciplinares.

Ao contrário da filosofia clássica da ciência, que se interessava pelo contexto de justificativa por acreditar que o contexto de descoberta tinha uma natureza impura, autores como, por exemplo, Andrew Pickering, August Brannigan, Bruno Latour, Harry Collins, John Law, Karin Knorr-Cetina, Martin Rudwick, Michael Lynch, Michel Callon, Sharon Traweek, Simon Schaffer e Trevor Pinch se voltarão para o contexto de descoberta posto que ele define a natureza da racionalidade científica, isto é, a objetividade, a prova e a verdade. A descoberta passa, então, a ser investigada não mais como um fato estabelecido por filósofos, psicólogos e sociólogos dos cientistas, mas como o fruto de um processo social. A palavra "social" deixa de ser somente sinônimo de organização social da ciência e passa a ocupar um lugar no coração das interpretações e da construção dos fatos científicos. Esse novo campo de pesquisa, pouquíssimo explorado teoricamente por pesquisadores brasileiros, se interessa pelo conteúdo do saber científico, pelas práticas concretas das ciências geograficamente situadas, pela natureza de suas inter-relações e a ligação das ciências com o resto do coletivo. Alguns sociólogos não se perguntarão mais sobre o que faz surgir uma descoberta, mas sobre o que faz com que certos acontecimentos sejam considerados descobertas, isto é, não mais como a idéia vem ao espírito mas como a idéia vem à sociedade. Outros, se apegando às práticas e às suas dinâmicas, mostrarão como a atividade científica produz fatos científicos e cria uma realidade que se torna uma descoberta.

Sociologia da tradução

Dentro do campo dos Social Studies of Science merece destaque a sociologia da tradução de Michel Callon e Bruno Latour. Trata de uma abordagem que rompe com as clássicas polarizações entre natureza e sociedade, contexto de descoberta e contexto da justificação, interno e externo, contexto e conteúdo, centro e periferia, compreendendo os conhecimentos tecnocientíficos como efeitos de uma multiplicidade de interações sociais e técnicas desenvolvendo um novo modelo sobre a descoberta e a invenção. O modelo da tradução se posiciona contra uma concepção amplamente difundida que faz da ciência uma entidade estável no curso do qual emergem ilhas de novidade sob a forma de idéias. Gênios, pela força de suas idéias, são capazes de revolucionar nossa visão do mundo, desvendando uma natureza escondida. Uma idéia se difundiria somente através da força de sua lógica, numa sociedade que só tem a possibilidade de aceitá-la ou recusá-la. A sociologia da tradução irá mostrar, ao contrário, como da desordem nasce a estabilidade, como a natureza torna-se o fato socialmente construído, como a criação é um fenômeno coletivo e material e não o fruto de idéias geniais ou de processos cognitivos específicos, enfim, como a novidade é um resultado e não uma qualidade inscrita nos dados de partida. Revertendo a maneira de colocar os problemas, a questão do motor da descoberta torna-se obsoleto. Ele não está nem na cabeça dos indivíduos, nem nos critérios sociais estabelecidos. Ele está distribuído num coletivo.

A sociologia da tradução contrapõem-se, portanto, à idéia de uma origem da inovação, à separação entre social, tecnologia e ciência, além da improvisação romântica. E, neste sentido, a sociologia da tradução oferece um novo modelo sobre a descoberta e a invenção. A investigação empírica se apóia no acompanhamento das controvérsias e das práticas de laboratório conduzindo à constatação de que a natureza não é mais a causa do encerramento das controvérsias e, sim, conseqüência. O termo invenção, então, desaparece em proveito de um novo vocábulo, a inovação. Concluindo, com a sociologia da tradução, somos convidados a repensar o papel do ator da invenção.

Carlos José Saldanha Machado é antropólogo do Departamento de Estudos em Ciência e Tecnologia - Centro de Informação em Ciência e Tecnologia/ da Fundação Oswaldo Cruz.   

 
* Este artigo é fruto da pesquisa exploratória que resultou no projeto "Redes cooperativas e inovação em saúde pública – estudo de caso do processo de construção social, coletivo e local da Rede Vacinas Recombinantes e DNA da Fundação Oswaldo Cruz", de autoria de Carlos José Saldanha Machado e Márcia de Oliveira Teixeira, numa parceria entre o Centro de Informação Científica e Tecnológica e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz, a ser realizado entre 2006 e 2008.


Fonte: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência





Teorias






1 -  Teoria Crítica da Tecnologia

2 -  Teoria do desenvolvimento econômico




Andrew Feenberg*


Nota autobiográfica


      Na metade da década de 1960, fui para La Jolla, Califórnia, estudar com Herbert Marcuse. Nessa época, a Nova Esquerda era um fenômeno bem pequeno. O período macartista era ainda uma memória viva e os sindicatos e outras fontes tradicionais de atividades progressistas tinham sido completamente expurgados. A maior parte da crítica da sociedade estadunidense era a crítica cultural, muito influenciada pelos escritores Beatniks como Jack Kerouac ou pelo elitismo cultural de intelectuais que ficavam estarrecidos com as histórias em quadrinhos, televisão e rocks. Freud estava em ascensão e Marx desacreditado. Em tal contexto, uma revolução política parecia até mais implausível do que hoje em dia. Enquanto Marcuse continuava critico da sociedade industrial, sua teoria refletia o fracasso do conceito marxista de que tensões internas entre trabalhadores e capitalistas abalavam o capitalismo.

      No entanto, havia tremendas tensões de outro tipo nessa sociedade tão conformista e essas explodiram no mundo pacato dos anos 50. As questões que se colocavam era o que essas tensões significavam, de quais fontes se originavam e qual eram seu objeto e destino. Muitos de nós que vivíamos tais tensões tínhamos uma resposta diferente da de Marcuse. Ele seguia seu próprio mestre, Heidegger, mais do que admitia a si mesmo e a nós quando sustentava que o universo unidimensional tecnológico da sociedade industrial avançada era um sistema fechado ou quase fechado em que a oposição era impossível ou quase impossível (Marcuse, 1964, XVII) Quando começou a sentir a evidência de ampla oposição, teorizou como uma nova disposição cultural  Heidegger diria “revelação”. Portanto, quando lemos Marcuse, pareceu-nos que a fonte dessa revelação estava nos instintos e era, assim, externa à sociedade unidimensional.

      Recentemente publiquei um livro sobre Heidegger e Marcuse no qual desenvolvo uma leitura mais compreensiva da teoria da revolução de Marcuse, mas naquela época muitos de nós a considerávamos negativa demais e a-histórica (Feenberg 2004). Como criávamos movimentos contra a guerra do Vietnã e estávamos engajados em protestos estudantis, sentíamos que nossas ações refletiam tensões internas dentro da própria unidimensionalidade e não uma intervenção externa provinda de uma fonte transcendente. Mas como explicar isso sem abandonarmos o insight marcuseano sobre a integração à sociedade e sem reativarmos o desacreditado conceito de revolução proletária?

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Texto original“Critical theory of technology”.Tradução da Equipe de Tradutores do Colóquio Internacional “Teoria Crítica e Educação”. Unimep, Ufscar, Unesp.
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     Lembro-me de ter escrito um longo ensaio para Marcuse em 1966 a que chamei de “Para além da unidimensionalidade” no qual tentava mostrar como uma sociedade unidimensional podia produzir uma nova dialética. Embora meu atual trabalho sobre tecnologia seja bem diferente desse esforço inicial, o padrão é similar. Ainda busco uma maneira de identificar e explicar tensões internas num universo tecnológico quase unidimensional. Nessa linha, meu trabalho parte não apenas da primeira geração da Escola de Frankfurt, mas também do consenso contemporâneo em filosofia política.

     Sob a influência tanto de Rawls quanto de Habermas, a filosofia política abstrai sistematicamente da tecnologia e, desse modo, omite o potencial distópico da sociedade avançada. Considera a esfera técnica como um background neutro contra o qual indivíduos e grupos perseguem objetivos pessoais e políticos. Tais objetivos são, de maneira geral, vistos como idéias mais ou menos racionalmente justificáveis a respeito de direitos, vida boa e assim por diante. Nessa concepção, a filosofia restringe-se a eliminar e a política se torna uma questão de opinião. Como filósofo da tecnologia, rejeito essa visão. O que significa ser humano não se decide apenas por nossas crenças, mas, em grande parte, pela forma de nossos instrumentos.E, na medida que podemos planejar e conduzir o desenvolvimento técnico por vários processos públicos e escolhas privadas é que temos algum controle sobre nossa própria humanidade.

      Depois dos anos 60, as forças que sobreviveram na instância da esquerda foram movimentos não-marxistas, como o feminismo e o ambientalismo. A sociedade que tinha sido objeto de condenação global na década de 60 agora era desafiada de maneira concreta e específica. A poluição industrial, as práticas de nascimento de bebês, o tratamento experimental da Aids, tudo era contestado por esses novos movimentos sociais em termos das conseqüências dos designs técnicos sobre a vida, saúde e dignidade. Temas semelhantes apareciam no movimento trabalhista e evidenciavam aversão à tecnologia da produção. 

      Meu primeiro livro de filosofia da tecnologia, Critical Theory of Technology, foi publicado em 1991. Nesse livro acompanhei Marcuse ao argumentar que “tecnologia é ideologia” (Feenberg, 1991). Mas eu enfatizava um aspecto da posição de Marcuse que ainda não havia sido amplamente notado, a saber, seu argumento de que a política da tecnologia depende de aspectos contingentes do design técnico determinado por um projeto de civilização e que não surgem da “essência” da tecnologia no sentido que lhe dá Heidegger. Essa abordagem sugere que designs diferentes poderiam sustentar uma sociedade mais democrática baseada na auto-organização democrática na própria esfera técnica.

     A tese desse livro partia de Marcuse num aspecto significativo. Somos hoje muito mais céticos em nos referirmos à “natureza” do que o éramos no período de formulação da Teoria Crítica. Para evitar o naturalismo e o essencialismo de que Marcuse é freqüentemente (e injustamente) acusado, tentei construir uma crítica não-ontológica da tecnologia que, no entanto, conservasse a força crítica da crítica ontológica de Marcuse. Conclui que onde quer que as relações sociais sejam mediadas pela tecnologia moderna seria possível introduzir controles mais democráticos e reformular a tecnologia a fim de acolher maiores inputs de perícia e iniciativa.

    Esses argumentos abstratos eram reflexo não apenas de minha leitura de Marcuse, mas também
de uma extraordinária oportunidade que tinha em participar de outro tipo de revolução, a revolução do computador. Em 1982, pediram-me para ajudar a criar o primeiro programa de educação a distância (Feenberg, 1993). No Western Behavioral Sciences Institute, usamos uma rede de computadores para comunicarmos com estudantes num programa extensivo de estudos bem antes que a Internet estivesse aberta ao público. Esse envolvimento pôs-me diretamente em contato com um campo emergente e me obrigou a dominar seus rudimentos. Presenciei o papel da ação humana orientando o desenvolvimento da tecnologia. Aspirações democráticas para a tecnologia adquiriam sentido nesse contexto à medida que reinventávamos o computador para servir a propósitos humanos de educação. Mais tarde, quando a automação da educação superior na Internet foi proposta, vi minha própria teoria da ambivalência da tecnologia exemplificar-se na prática.Analiso esse exemplo detalhadamente em Transforming Technology (Feenberg 2002, cap. 5). Farei um breve resumo dessa análise ao concluir esse artigo.

     A sociologia da tecnologia sofria uma revolução de si mesma nos anos 1980 com a emergência
das polêmicas entre a escola do construtivismo social e a teoria de rede de atores tanto na Inglaterra quanto na França. Tinha conhecimento desses debates e com eles muito aprendi, mas estava insatisfeito com a recusa das duas escolas de pensamento em engajarem-se com os temas mais amplos da modernidade levantados pela Escola de Frankfurt. No entanto, a nova sociologia da tecnologia não oferecia uma metodologia frutífera e argumentos fortes contra o determinismo tecnológico que poderiam ser empregados para apoiar a idéia de mudança democrática na esfera técnica. Minha abordagem é informada pelos estudos tecnológicos contemporâneos e, desse modo, alcança um nível de concreticidade que Marcuse não logrou em sua obra. No entanto, acredito que pode ser, de certa maneira, ligada à tradição a que Marcuse se integra. Portanto, eu a chamarei de “teoria crítica da tecnologia”.

     Delineio agora as tensões na sociedade “unidimensional” quanto às diferenças das experiências de mundo tais como sentidas por aqueles que o administram quanto por aqueles que a ele se submetem. Muitos anos de lutas no âmbito da tecnologia em campos tão diversos como a medicina e o ambientalismo têm mostrado que essa diferença é politicamente significativa e evita o fechamento temido por Marcuse e, ao mesmo tempo, embaralha os esquemas ultrapassados da filosofia política tradicional.

    Que eu saiba, o próprio Marcuse forneceu a base para essa análise num dos seus primeiros ensaios, escrito sob a influência de Heidegger e também como reação a ele. Marcuse pergunta “o mundo é ‘o mesmo’ para todas as formas do Dasein que se apresentam numa situação histórica concreta? É evidente que não. Não apenas o mundo dos significados varia entre regiões culturais contemporâneas e específicas, mas também, no interior de cada uma delas, podem abrir-se abismos de significações de mundos diferentes. Exatamente no comportamento mais existencialmente de essência, nenhuma compreensão existe entre o mundo do capitalista altamente burguês e do pequeno fazendeiro ou proletário. Aqui se força o exame a confrontar a questão da constituição material da historicidade, uma ruptura que Heidegger nem alcança nem aponta (Marcuse, 1978, p. 364-65)

   A teoria que desenvolvo realiza o programa implícito nessas observações. Concebo arranjos técnicos que instituem “um mundo” algo como no sentido de Heidegger, uma estrutura dentro da qual se geram as práticas e se ordenam as percepções. Mundos diferentes, que fluem dos diferentes arranjos técnicos e das diferentes posições internas a eles, privilegiam alguns aspectos do ser humano emarginalizam outros. Objetivos fluem da natureza e limites de mundos e não de opiniões arbitrárias. O choque de diferentes mundos é inevitável numa sociedade que se baseia no domínio tecnológico.

    Tais argumentos foram desenvolvidos em Alternative Modernity (1995) e em Questioning Technology (1999). Nesses livros, mudei-me de uma posição pós-marxista ao que chamo de“construtivismo crítico”, tentando desenvolver uma orientação mais empírica quanto ao estudo da tecnologia

A nova edição do Critical Theory of Technology (1991), intitulada Transforming Technology(2002), traz a exposição inicial da teoria alinhada com essa posição mais nova. Os três livros agora apresentam diferentes aspectos da mesma teoria básica. É a esse conjunto do meu trabalho que minhas críticas respondem.

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1 - Para uma discussão dessa “virada empírica” veja-se Hans Achternhuis "Andrew Feenberg: Farewell to Dystopia," em American Philosophy of Technology, H. Achterhuis, ed., (Bloomington and Indianápolis: Indiana University Press, 2001.
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Joseph A. Schumpeter

Por Marcos Paulo Fuck


Na história do pensamento econômico, o ano de 1883 foi marcado por uma coincidência. Nele ocorreram a morte de Karl Marx e os nascimentos de John Maynard Keynes e de Joseph Schumpeter, três economistas que contribuíram significativamente, cada um a sua maneira, para o avanço da teoria econômica. Schumpeter talvez seja o menos famoso entre esses autores, embora, sobretudo nas últimas duas décadas, sua obra tenha sido objeto de estudo para se entenderem as profundas mudanças tecnológicas, econômicas e sociais por que tem passado o capitalismo.

Atualmente, quando o assunto é inovação, destacam-se as suas contribuições e sua influência sobre as vertentes teóricas "neo-schumpeterianas" ou "evolucionistas".

A obra de Schumpeter pode ser dividida em dois momentos. O primeiro corresponde aos escritos realizados em sua juventude. Nele destacam-se A natureza e a essência da economia teórica, de 1908, e Teoria do desenvolvimento econômico (TDE), de 1911. Na segunda fase destacam-se livros como Capitalismo, socialismo e democracia, de 1942, Ciclos econômicos, de 1939, e História da análise econômica, de 1954 (publicado postumamente).

TDE foi a primeira obra de grande influência escrita por Schumpeter. Nela já estão presentes, ainda que de forma incompleta, as principais teses defendidas pelo autor. Trata-se de uma leitura fundamental para aqueles que desejam entender a dinâmica da economia capitalista. Apesar de em alguns trechos a leitura ser um pouco tediosa (sobretudo no capítulo referente ao fluxo circular), no geral, devido a frases bastante claras e diretas, as idéias schumpeterianas são de fácil entendimento.

Para expor sua teoria do desenvolvimento econômico, o autor faz um contraste com a teoria do equilíbrio, que, explícita ou implicitamente, "sempre foi e ainda é o centro da teoria tradicional". Schumpeter sustenta que o sistema de equilíbrio econômico geral proposto por Léon Walras, destacado economista neoclássico, é indispensável para trazer à luz as relações fundamentais que têm lugar em um sistema econômico. Ou seja, o livro começa com uma visão da economia capitalista na qual o desenvolvimento está ausente por completo.
Para tanto, Schumpeter supõe um Estado organizado comercialmente, no qual vigoram a propriedade privada, a divisão do trabalho e a livre concorrência. A partir de tais premissas, o autor supõe produzir-se uma tendência ao equilíbrio geral entre os agentes econômicos. Nessa situação hipotética, as mudanças assumem um papel meramente adaptativo, compatível com oscilações ocasionais, sazonais ou contínuas. Esse sistema de reprodução econômica em equilíbrio estático é denominado fluxo circular, no qual a atividade econômica se apresenta de maneira idêntica em sua essência, repetindo-se continuamente, seja no campo da produção, seja no campo do consumo.

Por desenvolvimento, Schumpeter entende as mudanças da vida econômica que não lhe são impostas de fora, mas que surgem de dentro, por sua própria iniciativa. "O desenvolvimento, no sentido em que o tomamos, é um fenômeno distinto, inteiramente estranho ao que pode ser observado no fluxo circular ou na tendência para o equilíbrio. É uma mudança espontânea e descontínua nos canais do fluxo, perturbação do equilíbrio, que altera e desloca para sempre o estado de equilíbrio previamente existente". Ou seja, o autor destaca o tipo de mudança que "emerge de dentro do sistema que desloca de tal modo o seu ponto de equilíbrio que o novo não pode ser alcançado a partir do antigo mediante passos infinitesimais. Adicione sucessivamente quantas diligências quiser, com isso nunca terá uma estrada de ferro".

A ruptura do mundo estacionário e também o início de um processo de desenvolvimento ocorrem precisamente no âmbito da produção. Para Schumpeter, é o produtor que, via de regra, inicia a mudança econômica, e os consumidores são educados por ele, se necessário; são, por assim dizer, ensinados a querer coisas novas, ou coisas que diferem em um aspecto ou outro daquelas que tinham o hábito de usar. Um entre os inúmeros exemplos possíveis desse fenômeno diz respeito ao incrível avanço dos modelos de telefones celulares. Atualmente, aparelhos sem display colorido, câmera fotográfica embutida e comando e discagem por voz já estão, de certa forma, obsoletos.

No esquema proposto pelo autor, o fluxo circular é rompido pela ativação da capacidade de transformação inerente à máquina capitalista. As inovações constituem o motor do processo de mudança que caracteriza o desenvolvimento capitalista e resultam da iniciativa dos agentes econômicos. Mesmo partindo de objetivos individuais, os efeitos da inovação são amplos e levam à reorganização da atividade econômica, garantindo o aspecto instável e evolutivo do sistema capitalista. Dessa forma, o desenvolvimento é definido pela realização de inovações.

As inovações caracterizam-se pela introdução de novas combinações produtivas ou mudanças nas funções de produção. Schumpeter classifica essas modificações da seguinte maneira. Em primeiro lugar, a introdução de um novo bem ou de uma nova qualidade de um bem. Em segundo lugar, a introdução de um novo método de produção, ou seja, um método ainda não verificado pela experiência naquele ramo produtivo em que tal introdução é realizada e que não decorre necessariamente de qualquer descoberta científica, mas que pode simplesmente consistir em um novo método de tratar comercialmente uma mercadoria.

Em terceiro lugar, a abertura de um novo mercado, ou seja, de um mercado em que o ramo particular da indústria de transformação do país em questão não tenha ainda entrado, quer tenha esse mercado existido antes ou não. Em quarto lugar, a conquista de uma nova fonte de oferta de matérias-primas ou de bens semimanufaturados, mais uma vez independente do fato de que essa fonte já existia ou teve que ser criada. Finalmente, o estabelecimento de uma nova organização de qualquer indústria, como a criação ou a ruptura de uma posição de monopólio.

Mesmo com o sistema capitalista sendo movido por inovações, Schumpeter ressalta que a lógica econômica prevalece sobre a lógica tecnológica. "E em conseqüência vemos na vida real em toda a parte à nossa volta cordas rotas em vez de cabos de aço, animais de tração defeituosos ao invés de linhagens de exposição, o trabalho manual mais primitivo ao invés de máquinas perfeitas, uma desajeitada economia baseada no dinheiro em vez de circulação de cheques, e assim por diante. O ótimo econômico e o perfeito tecnologicamente não precisam divergir, no entanto o fazem com freqüência, não apenas por causa da ignorância e da indolência, mas porque métodos que são tecnologicamente inferiores ainda podem ser os que melhor se ajustam às condições econômicas dadas".

O autor chama empreendimento a introdução de uma inovação no sistema econômico e empresário ao que executa este ato. Ou seja, a função empresarial é característica do desenvolvimento, não existindo no fluxo circular, pois nele não há inovações. O empresário é definido por sua função no ambiente produtivo, e não pela posse do capital. Ao não dispor de capital, o empresário tem que obter crédito para adquirir os bens de produção requeridos para a inovação. O resultado da atividade empreendedora é o lucro.

No raciocínio schumpeteriano, o crédito é essencial ao processo econômico. Fornecer o crédito necessário para a realização das inovações é função de uma categoria de indivíduos denominada capitalistas. Esses recursos provêm dos fundos gerados por inovações bem sucedidas e/ou da capacidade que os bancos têm de criar poder de compra, através do multiplicador bancário.

Vale destacar que nesta obra Schumpeter exagera na importância dada ao empresário inovador no processo de desenvolvimento. Em trabalhos posteriores, Schumpeter torna sua análise mais realista ao considerar que outros atores também podem introduzir inovações no sistema econômico, como os laboratórios de P&D das grandes corporações ou mesmo órgãos governamentais, como o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Sintetizando, para Schumpeter o impulso fundamental que inicia e mantêm o funcionamento da máquina capitalista decorre das inovações. Dessa forma, percebe-se que suas idéias permanecem bastante atuais, sobretudo neste momento de intenso avanço científico e tecnológico, onde se discute, entre outras coisas, a implementação da Lei de Inovação no Brasil.


Fonte: SBPC - Comciência / Labjor - São Paulo: Abril Cultural, 1982
(Coleção Os Economistas)





Textos





1 -  Por uma alternativa ao construtivismo social e ao determinismo técnico

2 -  Aspectos sociais e tecnológicos das atividades de inovação

3 -  O Problema da Experimentação na Inovação Tecnológica

4 -  O Fetiche da Tecnologia e a Visão Crítica da Ciência e Tecnologia

5 -  Ciência e tecnologia em perspectiva



1.1  -   Por uma alternativa ao construtivismo social e ao determinismo técnico: a perspectiva Lebeau e Simondon


Resumo

Com o surgimento dos humanos, as ligações técnicas tornaram-se muito mais complexas. Contudo, o pensamento ocidental, devido à relativa simplicidade dos artefactos técnicos, encarou-os durante muito tempo de uma forma instrumental. Com as recentes “tecnologias de informação e comunicação”, começa a emergir um novo paradigma que coloca em evidência os limites do pensamento tradicional propondo uma nova forma de encarar a fronteira entre o humano e o objecto técnico. O filósofo e sociólogo Gilbert Simondon e o geofísico Lebeau apoiam-se nessa hipótese sugerindo uma visão alternativa ao construtivismo social e ao determinismo técnico. O conceito de forma, surgido com a nova física, pode ser usado para pensar os fenómenos em que interage o orgânico (e nomeadamente o humano) e a matéria inorgânica organizada – os artefactos técnicos. A partir daí, emergem três conclusões: a técnica surge como anterior ao ser humano, a técnica como não sendo produto de uma intenção humana e a informação passa a ser concebida como estando presente em todos os artefactos técnicos.

Palavras-Chave:  Técnica; Tecnologias de informação; Gilbert Simondon

Fonte: Universidade do Minho




2.1 -  Aspectos sociais e tecnológicos das atividades de inovação


Resumo

O artigo pretende discutir os aspectos sociais e tecnológicos presentes no tema da inovação. Percebe-se que a tradição schumpeteriana de análise sobre inovação negligenciou fatores culturais e políticos nas trajetórias tecnológicas. Nas últimas décadas, diversas correntes têm se dedicado a cruzar variáveis econômicas e sociais nos estudos sobre produção e difusão de conhecimento e inovação. Os estudos sobre os sistemas e ambientes de inovação reformularam o enfoque das análises inovativas, defendendo que a gestão e a organização dos fluxos de conhecimento e redes propiciam melhor compreensão dos rumos da atividade econômica e tecnológica. Mas essas correntes estão retirando importância da problemática propriamente tecnológica sobre a inovação, o estudo dos objetos e conjuntos técnicos e suas propriedades. O objetivo deste artigo é explicitar a necessidade de articulação entre os aspectos técnicos e sociais no tema da inovação.

Palavras-Chave: Inovação; Ambientes de Inovação; Tecnologia; Objetos Técnicos.

Fonte: Lua Nova: Revista de Cultura e Política



3.1 -  O Problema da Experimentação na Inovação Tecnológica


Resumo

A problemática da inovação tecnológica está despertando grande interesse da parte dos cientistas sociais. Nas últimas décadas diversos trabalhos foram desenvolvidos enfocando a construção de ambientes de inovação e capital social. Percebe-se que os estudos sobre sistemas e ambientes de inovação estão tirando importância da discussão propriamente tecnológica sobre as práticas de inovação, na medida em que focam preferencialmente a gestão e organização de fluxos de conhecimento e formação de redes. O presente trabalho pretende discutir a relação entre gestão tecnológica e prática dos inovadores, tendo por base o trabalho de filósofos e sociólogos das
técnicas.

Palavra-Chave: Experimentação; Inovação; Tecnologia; Conhecimento

Fonte:  Revista Brasileira de Inovação, (RJ), 6 (2), p.311-329, julho/dezembro 2007





4.1  -  O Fetiche da Tecnologia e a Visão Crítica da Ciência e Tecnologia: Lições Preliminares *


Resumo


Este trabalho é o resultado preliminar de uma revisão bibliográfica que aborda a não-neutralidade da Ciência e da Tecnologia. Partindo da idéia de Fetiche da Tecnologia -desenvolvida por Andrew Feenberg- e da Visão Crítica da Ciência e Tecnologia, busca-se argumentar que as escolhas tecnológicas não obedecem a critérios estritamente técnicos. Além de serem instrumentos de produção, os artefatos tecnológicos constituem-se em instrumentos de dominação e manutenção da ordem social. Isso significa dizer que temos um problema que não se refere apenas a uma simples apropriação das forças produtivas, mas da necessidade de uma radical reestruturação
tecnocientífica.

Palavras chave: Crítica das forças produtivas, Tecnologia, Entraves a Autogestão.

Fonte:  Departamento de Política Científica e Tecnológica – Unicamp – SP - Brasil




5.1  -  Ciência e tecnologia em perspectiva 


Resumo


Presentes na cultura - sejam por meio das artes, dos jogos ou dos meios de divulgação, na medicina, na arquitetura e na agricultura -, ciência e tecnologia adquirem um caráter ubíquo na sociedade. Entender como estas manifestações se relacionam e interferem em nosso entendimento da realidade é tarefa que tem sido subestimada e exercida por poucos pensadores. José Ortega y Gasset entendeu que cabe ao técnico papel secundário e coadjuvante, e os positivistas lógicos expurgaram a essencialidade do debate atual: é esta vertente pragmática que tem dominado as técnicas e a ciência. Nossa incapacidade em formular paradigmas que preencham de significado os avanços científicos dá lugar a um vácuo de sentido, realimentado pelo esgotamento das ideologias. Neste texto tentaremos avançar um pouco neste domínio da ciência e da tecnologia.

Fonte:  arScientia - Marcelo Beraldo G. de Castro



Tipos





Qual é o seu tipo científico-tecnológico?


Por Renato Dagnino


" Na semana passada, para motivar meus alunos de graduação da disciplina de Ciência,  Tecnologia e Sociedade a praticarem os conceitos de construção social da tecnologia, determinismo tecnológico, neutralidade da ciência etc, sugeri a eles um exercício. Tratava-se de submeter um professor, um colega ou eles mesmos, a um teste, semelhante aos que aparecem naquelas revistas que lemos nos consultórios.

Baseado na pergunta-título deste artigo, o teste admitia quatro opções de resposta dispostas segundo o gráfico abaixo, inspirado nos trabalhos dos professores Andrew Feenberg e Hugh Lacey

O eixo vertical representa, na parte superior, a perspectiva que considera a tecnologia como neutra, isto é, livre dos valores (ou interesses) econômicos, políticos, sociais ou morais dominantes numa dada sociedade. Na parte inferior, a que a entende como condicionada por esses valores. Segundo a perspectiva neutra, o resultado material da tecnologia, um dispositivo técnico qualquer, é simplesmente uma concatenação de mecanismos causais “que pode ser usado para o bem ou para o mal”. Já para a perspectiva que entende a tecnologia como condicionada por valores, ele, enquanto entidade social, tem um modo especial de carregar valores em si próprio e a reforçá-los. 

No eixo horizontal se representa, à esquerda, a perspectiva que considera a tecnologia como autônoma e, à direita, a que a entende como controlada pelo Homem. De acordo com a primeira, a tecnologia, apoiada na ciência e no método científico e em busca da eficiência crescente, teria suas próprias leis imanentes, seguindo uma trajetória linear e inexorável, governada por esse impulso endógeno. A sociedade apenas aceitaria seus impactos e tentaria tirar dela o melhor proveito. Segundo a última, a sociedade estaria em condições de decidir em cada momento como a tecnologia se desenvolverá. Dela dependeria o próximo passo da evolução dos sistemas técnicos. 

A combinação das quatro perspectivas, duas a duas, dá origem aos quatro “tipos científico-tecnológicos” representados em cada um dos quadrantes delimitados pelos dois eixos:







Como cada tipo científico-tecnológico vê a tecnologia?

O teste - Qual é o seu tipo científico-tecnológico? - consistia em classificar a pessoa num dos quatro tipos. Para isso, dei como referência adicional a descrição de cada um deles reproduzida abaixo:


O primeiro tipo, que combina as perspectivas do controle humano da tecnologia e da neutralidade de valores, é o dos Instrumentalistas. Apesar de serem herdeiros do iluminismo e positivismo, eles expressam uma visão contemporânea que concebe a tecnologia como uma ferramenta gerada pela espécie humana (em abstrato e sem qualquer especificação histórica ou que diferencie os interesses de distintos segmentos sociais) através de métodos que, ao serem aplicados à natureza, asseguram à ciência atributos de verdade e, à tecnologia, de eficiência. Dado que pode atuar sob qualquer perspectiva de valor, o que garante o seu uso (e também a sua orientação) “para o bem” é algo estranho ao mundo do conhecimento científico-tecnológico e dos que o produzem: a “Ética”. Só se esta não for respeitada pela sociedade, esse conhecimento poderá ter implicações indesejáveis.


O segundo tipo, que combina autonomia e neutralidade, é o dos Deterministas. Segundo eles, sua visão decorre da interpretação do que Marx escreveu no final do século 19. O avanço contínuo e inexorável da tecnologia (ou, no seu jargão, o desenvolvimento das “forças produtivas”) seria a força motriz da história que, pressionando as “relações técnicas e sociais de produção”, levaria a sucessivos e mais avançados “modos de produção”. Para eles, a tecnologia não é controlada pelo Homem; é ela que, utilizando-se do avanço do conhecimento do mundo natural, verdadeiro e neutro, molda (e empurra para um futuro cada vez melhor) a sociedade mediante as exigências de eficiência e progresso que ela estabelece. A tecnologia que serve ao “capital” e oprime a “classe operária” é a mesma que, apropriada por ela depois da “revolução”, a “liberaria” e construiria o ideal do “socialismo”. 


O terceiro, que entende a tecnologia como dotada de autonomia e intrinsecamente portadora de valores, é o dos Substantivistas. Eles compartilham a crítica do marxismo tradicional feita pela Escola de Frankfurt a partir da década dos sessenta. Segundo ela, enquanto a idéia de neutralidade atribui à tecnologia a busca de uma eficiência (abstrata mas substantiva), a qual pode servir a qualquer concepção acerca do modo ideal de existência humana, o compromisso com a concepção capitalista dominante (que embora pareça natural e única, é ideologicamente sustentada), faria com que seus valores fossem incorporados à tecnologia (capitalista). Em conseqüência, ela não poderia ser usada para viabilizar propósitos de indivíduos ou sociedades que patrocinem outros valores. Ela carregaria consigo valores que têm o mesmo caráter exclusivo das religiões que estipulam as crenças, orientam a conduta e conformam o inconsciente coletivo de grupos sociais. A tecnologia capitalista tenderia inevitavelmente a se afinar com os valores imanentes da “sociedade tecnológica”, como a eficiência, o controle e o poder. Valores divergentes – alternativos - não conseguiriam nela sobreviver ou prosperar, tal o poder de determinação da tecnologia. 


Os Substantivistas (radicais e pessimistas) se diferenciam dos Deterministas. Estes, ao aceitar que a tecnologia, por não ser portadora de valores, é o servo neutro de qualquer projeto social, idealizam um final sempre feliz para a história da espécie.


O quarto tipo, por designar um grupo em formação não tem ainda um nome. Como os que estão formulando o conjunto de idéias que eles defendem o chamam de Teoria Crítica, denominamos esse tipo de Críticos. Eles combinam as perspectivas da tecnologia como humanamente controlada e como portadora de valores. Concordam com o Instrumentalismo (a tecnologia é controlável), mas reconhecem, como o fazem os Substantivistas, que os valores capitalistas conferem à tecnologia características específicas, que os reproduzem e reforçam, que implicam conseqüências social e ambientalmente catastróficas, e que inibem a mudança social. Mas, ainda assim, vêem na tecnologia uma promessa de liberdade. O problema não estaria no conhecimento como tal, mas no pouco êxito que temos tido até o momento em criar formas institucionais que, explorando a ambivalência (graus de liberdade) que possui o processo de concepção de sistemas tecnológicos e resignando-se a “não jogar a criança com a água do banho”, permitam o exercício do controle humano – coletivo e socialmente equânime - sobre ela. 


Segundo os Críticos, a tecnologia atualmente existente (ou dominante) “emolduraria” não apenas um estilo de vida, mas muitos outros possíveis. Cada um refletindo diferentes escolhas de projeto tecnológico e diferentes extensões da mediação sócio-técnica. Todos os quadros de um museu têm molduras, mas não é por isso que eles estão ali. As molduras são limites e suportes para o que elas têm em seu interior. A eficiência é uma moldura (valor formal) que pode carregar tipos diferentes de valores substantivos. Para a Teoria Crítica, a tecnologia não é vista como ferramenta, mas como suporte para estilos de vida. 


A tecnologia não é percebida como uma ferramenta capaz de ser usada para qualquer projeto político como pensam, otimisticamente, os Deterministas. Nem como algo que deve ser usado e orientado pela “Ética”, como ingenuamente querem os Instrumentalistas. Tampouco como um apêndice indissociável de valores e estilos de vida particulares, privilegiados em função de uma escolha feita na sociedade, como os Substantivistas. Segundo eles, desde que “reprojetada” e submetida a uma “instrumentalização secundária” com características “democráticas”,e mesmo a uma “racionalização subversiva”, ela pode servir como suporte para estilos de vida alternativos. Abre-se, assim, um largo espectro de possibilidades para pensar estes tipos de escolhas, questioná-las, e submeter sua tradução em projetos e desenvolvimentos tecnológicos a controles mais democráticos."


E então, qual é o seu tipo tecnológico? Se quiser entrar na nossa estatística, responda pelo e-mail: mailto:  rdagnino@ige.unicamp.br


Fonte: Jornal da Unicamp






Transbordamentos






Autor: Eduardo Gonçalves


Este trabalho utiliza uma base de dados de patentes do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), com o objetivo de preencher algumas lacunas na literatura sobre o tema que relaciona inovação e desenvolvimento regional em Minas Gerais. Estes objetivos são os seguintes:

1) identificar os principais fatores determinantes da inovação nos municípios mineiros a partir dos fatores considerados relevantes pela literatura internacional;

2) determinar a relação que existe entre a estrutura urbana do Estado e a inovação;

3) revelar padrões de associação espaciais e identificar agrupamentos espaciais significativos de produção tecnológica;

4) verificar se ocorrem transbordamentos tecnológicos intermunicipais.

O trabalho constatou que a atividade tecnológica é concentrada espacialmente, e tende a ocorrer principalmente ao redor da área metropolitana de Belo Horizonte. A estrutura urbana do Estado é, em parte, causadora desta distribuição espacial da atividade tecnológica, porque a maior parte das cidades não possui escala urbana e requisitos exigidos pela inovação.


A literatura internacional apresenta argumentos variados para explicar o caráter urbano da inovação. Segundo Simmie (2001), a introdução de novos produtos no mercado é altamente dependente de externalidades. O conceito de economias de aglomeração compreende diversos tipos de externalidades, que são importantes tanto para explicar a aglomeração espacial da produção quanto da inovação, tendo em vista que as concentrações espaciais de produção e inovação são fortemente correlacionadas. (Audretsch e Feldman, 1996).

Para explicar a inovação, alguns autores destacam as economias de localização, realçando a especialização setorial da indústria de uma região. Quanto maior fosse a concentração industrial naquele setor específico, mais facilmente ocorreriam transbordamentos de conhecimento tecnológico de uma firma para outra, fomentando a inovação regional. O desenvolvimento pioneiro deste raciocínio se deve a Marshall (1982), mas também recebeu contribuições de Arrow (1962) e Romer (1986). Por isso, Glaeser et al. (1992) denominam tal externalidade de Marshall-Arrow-Romer.

Outros autores dão mais ênfase à diversidade do ambiente regional e urbano, representada pelo conceito de economias de urbanização. O reconhecimento da importância da dimensão urbana para inovar remonta ao trabalho de Jacobs (1969). A tese de que a diversidade promove inovação é confirmada por trabalhos empíricos, como o de Feldman e Audretsch (1999). Além de afirmarem que a especialização diminuía a inovação nas cidades, o trabalho sugeriu que a inovação tendia a ocorrer mais à medida que o tamanho urbano crescia. Simmie (2001) afirma que as áreas urbanas, ao concentrarem economias de aglomeração, permitiriam atingir maior eficiência estática e reduzir incerteza e risco do processo inovador. A escala urbana também seria importante por outras duas razões.

Primeiro, porque grandes cidades são capazes de atrair inventores e de dar condições de desenvolvimento às suas idéias. (Wood, 2001).

Segundo, porque quanto maior o tamanho urbano, maiores são as chances de interações locais lucrativas, devido à lei dos grandes números e ao mecanismo de seleção natural dos negócios que se beneficiam das múltiplas oportunidades oferecidas. (Simmie, 2001).

Outras evidências são discutidas por Wood (2001), que destaca tipos particulares de ativos urbanos, que se baseiam em conhecimentos específicos que transbordam de outras características da dimensão urbana e que favorecem as grandes cidades. Daí a força inovadora das metrópoles.

Grandes cidades ofereceriam vantagens relacionadas a múltiplos agrupamentos de atividades, envolvendo vários tipos de mercados, tecnologias e empresas. As cidades menores, por outro lado, seriam mais dependentes de um ou alguns setores-chave ou de investimentos de uma grande empresa. Desta forma, “diferentes escalas urbanas suportam diferentes tipos de inovação”.

Os ativos urbanos podem ser vistos também como requisitos para compartilhar transbordamentos de conhecimento tecnológico que fluem do espaço geográfico imediato. (Jaffe et al., 1993; Varga, 1998; Fischer e Varga, 2003). Esta constatação explica a necessidade de as firmas estarem próximas entre si para aproveitar esses transbordamentos.

Avaliar os determinantes da inovação em Minas Gerais é o objetivo deste artigo, especialmente quando se leva em consideração a sua marcante heterogeneidade social e econômica. Diversos autores já destacaram a concentração da produção e da atividade inovadora no Estado. (Silva, 1997; Albuquerque, 2001).

Ainda que tenham grande relevância ao fazer um mapeamento inicial da atividade tecnológica, sobretudo por meio de indicadores de patentes, os trabalhos existentes sobre inovação em Minas Gerais não esgotaram o tema. Além disso, é preciso fazer uso de técnicas econométricas espaciais  - Eduardo Gonçalves 483  Econ. Aplic., 10(4): 481-502, out-dez 2006 - para tentar preencher algumas lacunas na literatura empírica que relaciona inovação e desenvolvimento regional e urbano no Estado, como:

1) identificar os principais fatores determinantes da inovação nos municípios mineiros a partir dos fatores considerados relevantes pela literatura internacional e nacional;

2) determinar a relação que existe entre a estrutura urbana do Estado e a inovação;

3) revelar padrões de associação espaciais e identificar agrupamentos espaciais significativos de produção tecnológica;

4) verificar se ocorrem transbordamentos tecnológicos intermunicipais.

Para atingir estes objetivos, o artigo está dividido em mais três seções. Na próxima, detalhes dos procedimentos metodológicos são apresentados, como a forma pela qual as variáveis foram construídas, as fontes de dados usadas para sua construção e as técnicas exploratórias (Análise Exploratória de Dados Espaciais e Análise Fatorial) e econométricas utilizadas. Na terceira seção, os resultados da aplicação destas técnicas são expostos, sendo que na última seção são apresentadas as principais conclusões e recomendações de políticas públicas.

Fonte: Scielo Brasil